Ballmer

Não mais teremos o careca acima gritando, de forma empolgada, a lendária frase “Developers, Developers, Developers!”, repetidas vezes. Steve Ballmer anunciou o seu “aviso prévio” da Microsoft, informando que vai abandonar o cargo de CEO da empresa em 12 meses. O fim da “era Steve Ballmer” reforça o movimento de mudança de posicionamento da gigante de Redmond, que definitivamente deixa de ser uma empresa de software, para se tornar uma empresa de tecnologia de consumo.

Mas… qual foi o legado de Ballmer na Microsoft?

Muita gente torce o nariz para ele, com certa dose de razão. Afinal de contas, Ballmer é a espécie de “criança feliz presa no corpo de um senhor de idade”, não passando a imagem de solidez que um CEO pede, sem inspirar confiança no mercado (a ponto das ações da Microsoft subirem hoje 9% depois do anúncio de sua aposentadoria). Me lembro que na época que Ballmer foi escolhido para substituir Bill Gates, eu mesmo fui um daqueles que não acreditavam que a Microsoft iria sobreviver à mudança (foi um dos primeiros posts que escrevi nesse blog, em 2008).

Porem, cinco anos se passaram, e podemos dizer que quem criticou Ballmer, se enganou. Ele não só não afundou a Microsoft, como cumpriu com a missão de recuperar a empresa financeiramente, salvou a sua permanência no mercado de videogames, e inseriu de uma vez a empresa no segmento de dispositivos móveis.

Algumas pessoas acreditam que a missão de Ballmer era colocar a Microsoft no topo. Ledo engano. Ballmer iniciou a reinvenção da Microsoft no mercado de tecnologia, para justamente salvá-la de sua extinção. Viu o exemplo da Apple, que dez anos antes decidiu apostar na tecnologia de consumo, e reforçou essa linha de raciocínio em Redmond, e foi bem sucedido em muitos dos investimentos que fez.

Talvez o principal trunfo de Ballmer foi apostar na reinvenção da roda do videogame. Vale lembrar que o Kinect nasceu na gestão dele, e que o Xbox 360 se tornou o console líder absoluto de mercado sobre a batuta dele. Esse movimento foi decisivo para que a própria Microsoft dissesse “esse é o caminho”.

Além disso, nas mãos de Ballmer, a Microsoft ainda conta com 90% do mercado mundial de computadores (que está em claro declínio, é verdade, mas isso não é culpa da Microsoft), ainda é líder no segmento de pacotes de aplicativos para escritório (a maioria das empresas não conseguem abandonar o Microsoft Office, e os usuários domésticos, também em sua maioria, não conseguem trocar o Office pelo Google Docs – não completamente).

Por fim, entrou no mercado de dispositivos móveis, e com uma sólida parceria com a Nokia, possui a terceira posição no market share mundial, ultrapassando a BlackBerry. Pode não parecer muito, mas eles fizeram isso em apenas três anos. É óbvio que está bem longe de assumir a liderança mobile (e acho que isso não vai acontecer nem a médio prazo), mas ao menos é alguma coisa. Melhor do que ser a BlackBerry, com certeza é.

Eu penso que a Microsoft de hoje não é a mesma do Windows Vista. Os rumos que a empresa está tomando são audaciosos, e talvez essa audácia foi alimentada pela paixão, loucura e intensidade de Ballmer. Não sei qual será o seu substituto (ele dá pistas, dizendo que acredita que o novo CEO deve ficar tempo suficiente para conduzir essa transição da empresa por completo), mas sei que será difícil substituir a figura de Ballmer no mundo tech.

Amado, odiado, fanfarrônico, apaixonado. Seja como for, Steve Ballmer conseguiu entrar para a história da tecnologia, e sai pela porta da frente.

E nunca mais vamos ver um executivo de tecnologia fazendo coisas como essas que são exibidas no vídeo a seguir. E o mundo da tecnologia vai ficando cada vez mais careta, chato e almofadinho.