
Habemus Papam (e eu sempre quis começar um texto dessa forma…)
Desde ontem (8), Robert Francis Prevost (ou o Robertinho… ou o Bob – que não é o de Thunderbolts*) passou a ser conhecido como Leão XIV, o sucessor de Francisco I como líder máximo da Igreja Católica.
E como o novo Papa, Robert terá um enorme problema para resolver, que é bem mais complexo do que dar a bênção a casamentos homoafetivos ou sacramento para divorciados.
Leão XIV terá que resolver a enorme crise financeira que o Vaticano passa neste exato momento. E não é apenas por causa dos cardeais corruptos que roubaram uma grana violenta ao longo dos anos.
A raiz do problema

O Vaticano possui imóveis, obras de arte e investimentos, além de bilhões de dólares no Banco do Vaticano. Logo, dinheiro não deveria ser um problema para uma instituição religiosa poderosa, certo?
Errado.
O Vaticano não é uma entidade com fins lucrativos. Logo, depende majoritariamente de doações, ingressos de museus e retornos de propriedade para manter a sua receita minimamente equilibrada.
Ou seja, além do ódio da extrema direita (que acredita que homossexual não é gente), Leão XIV vai herdar os esforços de Francisco I para aumentar a transparência financeira e combater o déficit financeiros na Igreja Católica, que só aumentou nos últimos anos.
O Wall Street Journal escreveu sobre o assunto, mostrando como o Vaticano se tornou um “microestado cada vez mais endividado”, com um fundo de pensão com passivos milionários.
O que tem toda a lógica do mundo. É uma igreja com muitos membros envelhecidos e aposentados. E também tem aquela turma que passou a mão na grana das mais diversas formas.
E… coincidência ou não… é o sistema previdenciário da Igreja Católica a “válvula de escape” do dinheiro de sua administração… igualzinho no Brasil.
Por que será? #contémironia
De qualquer forma, a crise financeira é marcada por um déficit operacional que atingiu 83 milhões de euros em 2023.
Já o fundo de pensão do Vaticano está à beira da falência, com passivos não financiados estimados em até 1,5 bilhão de euros há uma década e um déficit de 631 milhões em 2022.
Francisco I já havia alertado sobre a necessidade de “déficit zero” e redução de custos, além da delicada saúde do fundo de pensão.
Mas… eu me pergunto se ele foi ouvido de verdade nessa questão.
Como Leão XIV pode ser decisivo nessa questão

Leão XIV é norte-americano, mas teve sua principal missão no Peru, país sul-americano com um cenário financeiro complexo.
Sua experiência nos dois países (onde não só executou obras missionárias, mas realizou reformas importantes nas estruturas operacionais) pode ser decisiva para lidar com as finanças na Santa Sé.
Francisco I tentou aumentar as doações na igreja, inclusive criando uma comissão específica para isso. E, de alguma forma, deu certo: a Óbola de São Pedro arrecadou 52 milhões de euros em 2023, um aumento em relação ao ano anterior.
Porém, as contas ainda não fechavam, pois as despesas totais do fundo foram de 109,4 milhões. O déficit é persistente, e as arrecadações ainda eram abaixo do que as registradas há uma década atrás.
Os Estados Unidos são o maior contribuinte individual para o Óbolo de São Pedro, com 13,6 milhões de euros em 2023 (28,1% do total), em um volume muito superior ao de outros países.
A Igreja dos EUA possui um forte músculo financeiro, chegando a representar até 60% da riqueza mundial da instituição, e seu apoio é historicamente relevante para o Vaticano.
Logo, escolher Leão XIV como Papa também esbarra, de alguma forma, neste aspecto narrativo. Com o líder máximo da Igreja Católica sendo um norte-americano, a tendência é que as doações vindas dos Estados Unidos aumentem.
Sem falar em uma hipotética influência política externa, já que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, tinha especial interesse nesse conclave.
Pelo menos em teoria, Trump pensa de forma diametralmente oposta à Robert. Porém, todo mundo pode mudar de ideia quando os interesses se alinham. E isso está preocupando a algumas pessoas dentro da Igreja, e dos dois lados do espectro ideológico.
O que é fato consumado é que Leão XIV terá que sanar as finanças do Vaticano de forma urgente. Para isso, terá que restabelecer uma boa relação com a influente e financeiramente poderosa Igreja dos Estados Unidos, especialmente com o seu setor mais conservador, que teve atritos com Francisco I…
…e apoia abertamente Donald Trump nas suas visões políticas.
Falar a mesma língua é muito importante para um diálogo mais aberto e objetivo. E a escolha de Leão XIV tem ao menos um benefício nessa relação complexa entre os dois lados: ninguém vai precisar de tradutor ou intérprete na hora de negociar.

