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Ele sempre vai ter algo a dizer porque escolheu ter todos os dias uma tela em branco para escrever novos capítulos.

Abraçou a escolha em ser um novelista da vida real, apresentando histórias que poderiam muito bem ser uma ficção fantástica, porém, materializadas em fatos incontestáveis. Pode pagar o preço em não deixar tudo muito claro, mas ao menos está contando o que está acontecendo, na esperança que outras pessoas leiam as suas histórias e abandonem a ficção que vivem em suas realidades adormecidas. Ou para que algumas pessoas despertem do sonho e decidam viver uma realidade alternativa, que pode muito bem ser a principal.

Basta escolher entre a pílula azul e a pílula vermelha.

Aliás, é uma sacanagem tremenda (além de ser uma acomodação criativa sem limites) utilizar uma referência do filme Matrix justo agora que foi anunciado que teremos um quarto filme da franquia. É a prova que o sono está batendo, e os sonhos do subconsciente estão invadindo a mente do cansado novelista da vida real.

Provavelmente este é o cara que fala demais. E não podemos culpá-lo. Ele escolheu para a sua vida a profissão onde o elemento principal de toda e qualquer narrativa estabelecida é a comunicação com a outra parte. Romantizar a realidade, dramatizar os fatos de colocar pitadas de humor irônico e sarcástico nas tragédias cotidianas são as armas secretas (ou melhor, grandes trapaças) para enganar você, amigo leitor, que poderia nesse momento estar mandando um nude para um peguete ou um meme para algum desocupado, mas decidiu perder o seu tempo para ler esse texto.

Objetivo alcançado. Obrigado.

Mas o novelista da vida real decidiu abrir o seu coração ao mundo e apresentar o que tem a dizer através de palavras frias em um texto escrito no começo de uma madrugada de quinta-feira mais fria ainda. Por que? Porque no lugar de ficar com o frio silêncio da alma, preferiu ter a mente aquecida com o cobertor da consciência tranquila em desenvolver dissertações que apresentam as suas verdades. Doa a quem doer.

Foi mais fácil assim. Ele optou por agradar a si, e não aos outros. Optou por correr riscos (às vezes desnecessários), porque viver uma vida vazia e sem sentido não serve nem para sacola de compras no supermercado. Optou por não ter a mente vazia, e quer sempre trabalhar a massa cinzenta em sua cabeça. Mesmo que comece a cheirar mal depois de 30 minutos de digitação.

O novelista da vida real transforma realidade em ficção para que os demais mortais possam entender as suas narrativas objetivas. Decide metaforizar a realidade para que o pacote em si não espante tanto. O conteúdo pode até assustar, mas o entorno deve ser atraente. Ao mesmo tempo, dentro desse conteúdo, estão guardadas as verdades inescapáveis. Ou as mentiras bonitinhas que toda novela insiste em contar.

Na verdade, não. Novela tende a ser algo chato demais, e o novelista da vida real não garante um final feliz ao término de cada texto. Sempre é possível surpreender o leitor com um final inesperado.

Ele sempre vai ter algo a dizer. Porque observa o movimento do coletivo e os detalhes implícitos no individual. E é a combinação desses elementos, somado com o desejo de prender o leitor até a última linha, que vai entregar como resultado um texto que conquistou você de forma mais efetiva do que um vídeo de um coaching.

Sim. Você ganhou bem mais com esse texto do que pagando para um cara dizer para você “qual é o caminho do sucesso”.

Pode me agradecer pela grana que você acabou de economizar.


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