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O novo Superman ainda é americano demais?

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Há décadas, o Superman promete lutar por “paz, justiça e o modo de vida americano”. Mas, convenhamos: em 2025, esse bordão soa menos como ideal nobre e mais como trailer de propaganda militar.

A tentativa de reposicionar o Homem de Aço como símbolo global, cidadão do mundo, até existe nos quadrinhos. E James Gunn, de alguma forma, tenta fazer o mesmo em seu filme.

Só que quando a pipoca estoura e a luz apaga no cinema, boa parte do planeta ainda enxerga Clark Kent como o primo idealizado de Donald Trump: branco, hétero, musculoso e sempre pronto para proteger os valores da América™— que boa parte do mundo civilizado simplesmente não se importa.

 

Super-Homem já foi mais popular em todo o planeta.

O novo filme do Superman, dirigido por James Gunn, até se esforça para limpar essa imagem desgastada. E nessa tentativa, muitos afirmam que deixaram o protagonista “woke demais”.

E quem disse isso foi um Clark Kent latino, veja só.

Mas a bilheteria internacional mostrou o que alguns suspeitaram que iria acontecer: fora dos EUA, o herói empacou, com bilheterias bem abaixo do esperado pela Warner Bros.

Em diferentes regiões do planeta, o personagem ainda é muito popular, e o filme clássico de 1979 foi um fenômeno, inclusive aqui no Brasil.

Porém, desde então, as aparições do herói nos cinemas em diferentes regiões do planeta foram ladeira abaixo, com exceções pontuais como “Superman Returns”.

E todo mundo sabe que “Superman: O Retorno” é um filme que não ajuda a limpar a barra do personagem (de tão questionável que é nos aspectos narrativos).

 

Onde que a culpa é do Trump neste caso?

Os motivos para essa crise de popularidade do herói mais famoso de todos os tempos são vários e, de alguma forma estão interligados.

A saturação do gênero de heróis no cinema, a nostalgia mal resolvida, as datas de estreia mal planejadas, e claro, a insuportável associação do personagem à ideia de um Estados Unidos hegemônico, patrioteiro e cada vez mais antipático globalmente.

Um herói que levanta bandeira, literalmente, deixou de ser cool e passou a ser cringe. E se a Marvel ao menos entendeu isso ao desconstruir o Capitão América ao longo dos anos, a DC ainda se vê presa na imagem do Superman como escoteiro imperialista.

Ah, sim, claro… tem o elefante laranja na sala chamado Donald Trump.

O atual presidente dos Estados Unidos, com sua retórica inflamável e seu retorno midiático constante, conseguiu contaminar até a percepção de personagens fictícios.

A ideia de um Superman “Superwoke” incomoda uma ala barulhenta da internet, mas fora dos EUA, a associação entre o herói e o nacionalismo tóxico do trumpismo é o que pesa mais.

Mesmo que o filme em si não tenha nada a ver com isso, a simbologia é mais forte que o roteiro.

É sempre importante ter em mente que a rejeição ao Superman atual não é culpa exclusiva dos roteiristas, diretores ou da DC. É reflexo de um mundo em que a América, uma vez exportadora de sonhos, virou símbolo de divisão, arrogância e fake news.

Superman sofre porque continua vestindo a cueca vermelha do soft power norte-americano por cima de uma calça colada azul, num planeta cansado de ser convocado pra salvar Metrópolis toda vez que o ego americano entra em crise.

Se é verdade que todo herói precisa de um vilão, talvez o maior inimigo do Superman hoje não seja Lex Luthor, mas o legado político e cultural dos EUA.

E nesse duelo, parece que o público global está torcendo justamente pelo lado oposto ao do herói.

Isso fala muito mais do que qualquer número de bilheteria alcançado.

 


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@oEduardoMoreira