
Li uma reportagem que me deixou com a pulga atrás da orelha. E, ao mesmo tempo, despertou um sentimento de perplexidade, caso tudo se confirme.
Parece que a Amazon, aquela que começou vendendo livros pela internet, agora está comprando montanhas deles para… simplesmente destruir as obras.
Sim, você leu certo. A Amazon está comprando pilhas de livros, alimentando suas plataformas de inteligência artificial com esse conteúdo, para depois destruir tudo.
Se for verdade, é simplesmente revoltante.
A notícia veio do site 404 Media, que fez uma investigação bem curiosa.
O rastreador no livro

Os responsáveis pela matéria do 404 Media colocaram um AirTag dentro de um livro raro e o enviaram junto com um lote de mil unidades. O rastreador foi parar num galpão da Amazon em Las Vegas, chamado VGT3.
Segundo funcionários do local, a única função dessa equipe é cortar lombadas de livros e digitalizar páginas em scanners industriais de alta velocidade. Depois, os livros vão pro lixo.
O logotipo não oficial desse time responsável por essa tarefa na Amazon? Um tiranossauro devorando um livro.
O cinismo me pegou aqui.
Por que esse caminho sinistro?
Parece que a indústria de IA está desesperada. Eles praticamente esgotaram o texto disponível na internet e enfrentam um problema sério: o tal do “colapso de modelo”.
Em outras palavras, se treinam novas IAs com textos gerados por outras IAs, a qualidade do raciocínio vai pro buraco. Por isso, livros impressos antes de 2022 viram um tesouro: são uma reserva de pensamento humano legítimo.
E tem mais: muitos livros antigos, ensaios locais e biografias esgotadas nunca foram digitalizados. Para pegar esse conhecimento que só existe no papel, não tem jeito: precisam comprar o objeto físico.
A jogada jurídica

A Amazon não é a primeira a fazer isso, e pelos mesmos motivos.
A Anthropic, criadora do Claude, fez algo parecido no tal Projeto Panama. A estratégia é comprar o livro, digitalizar e destruir o original.
A tese legal é que estão exercendo o “uso justo” (fair use), ou seja, não estão pirateando nada, pois compraram legalmente. É uma forma de escapar de processos bilionários que empresas sofreram por baixar acervos piratas da internet, como o Books3 ou o LibGen.
O mais engraçado de tudo isso é que se eu levo um livro para uma empresa que trabalha com fotocópias e peço para digitalizar ou reimprimir uma cópia daquela obra, recebo um NÃO na cara, pelo argumento de que estou pirateando ou copiando a obra original.
Isso parece algo óbvio para mim. Mas aparentemente a Amazon está passando por cima da obviedade neste caso.
Minha visão sobre isso
Acho tudo isso profundamente perturbador.
Estamos transformando a memória bibliográfica da humanidade em combustível para algoritmos. E isso é um paradoxo até cruel: a tecnologia, incapaz de resolver suas próprias limitações, precisa destruir nosso patrimônio cultural impresso.
Livros que sobreviveram décadas em sebos e coleções particulares estão sendo literalmente triturados para virar vetores matemáticos em servidores. Estamos então diante de uma ironia que, neste caso, me parece trágica.
Não sei você, mas… me pergunto: vale a pena esse custo cultural? Não haveria outro caminho?
A sensação que fica é que estamos queimando a biblioteca de Alexandria de novo, só que agora com scanners e guilhotinas.
Via Tecnoblog
