
Chega a ser triste ver o que aconteceu com a OnePlus.
A promissora iniciativa de oferecer smartphones potentes e irreverentes no design com preços competitivos, um conceito que bebe diretamente da ideia que a Xiaomi apresentou ao mundo um pouco antes, até chegou a prosperar por um tempo. E muitos entendem que foi justamente isso que levou ao desastre que se sucedeu depois com a marca.
Fazer sucesso fez com que a OPPO adotasse estratégias e decisões equivocadas, sempre em um movimento de ambição para tornar o projeto ainda maior do que era. O problema é que isso fez com que o foco no usuário se perdesse no meio do caminho, se tornando uma espécie de “mais do mesmo” entre os fabricantes de smartphones Android.
A partir de agora, vamos conversar sobre tudo o que aconteceu com a OnePlus, do começo ao “fim” de sua trajetória no mercado de telefonia móvel global. A marca não desapareceu do mercado, mas se recolhe ao mercado doméstico, o que é o mesmo de deixar de existir em nossa realidade prática.
O sonho rebelde

Em 2013, Pete Lau e Carl Pei, ex-executivos da OPPO, decidiram apostar em um conceito ousado: um smartphone premium por um preço acessível. Um plano que estava se tornando a regra entre os fabricantes chineses que procuravam se tornar alternativas à Apple e Samsung no mercado asiático.
Fundada em Shenzhen, a OnePlus surgiu com o slogan “Never Settle”, prometendo quebrar as regras de um mercado dominado por gigantes. O OnePlus One, lançado em 2014, foi um marco na telefonia, com hardware comparável a Samsung e Apple, mas custado a metade do preço.
Era bom demais para ser verdade e, para a felicidade de todos, era uma verdade. Este foi um modelo muito cobiçado por usuários do mundo todo, principalmente entre os fãs de tecnologia que acompanharam os movimentos da marca com atenção.
A estratégia de vendas por convite exclusivo e parceria com o CyanogenOS — sistema amado por entusiastas — criou um hype sem precedentes. A comunidade geek abraçou a marca como uma “underdog” que valorizava o diálogo com usuários.

Fóruns online e redes sociais viraram espaços de engajamento, onde fãs debatiam especificações e personalizações dos telefones. Esse vínculo emocional era raro em uma era de marketing tradicional, e a OnePlus soube explorá-lo com maestria.
O CyanogenOS, com sua interface ágil e suporte a modificações, reforçava a imagem de transparência e liberdade técnica. O sistema operacional foi um elemento muito importante dessa construção de imagem “irreverente” que a OnePlus queria entregar para os usuários e até mesmo para os seus concorrentes.
Porém, por trás das cortinas, nos bastidores do setor, a proximidade com a OPPO — compartilhando componentes do Oppo Find 7a — já sinalizava uma dependência estratégica, o que hoje pode ser identificado como um sinal claro do que estaria por vir.
Mesmo assim, o branding independente e a narrativa de startup disruptiva cativaram milhões de usuários. E em poucos anos, a OnePlus não era apenas uma alternativa, mas sinônimo de valor agregado, provando que inovação não precisava ser elitizada.
A crise do CyanogenOS levou ao OxygenOS

Todo esse sucesso inicial trouxe desafios inesperados para a OnePlus, o que mostra que a marca teve que enfrentar problemas desde os seus primeiros anos de existência.
Em 2015, um conflito com a Cyanogen na Índia ameaçou o futuro da marca como um todo. Sem acesso ao sistema que definia sua identidade, a OnePlus precisou reinventar-se às pressas, o que resultou em um período de aprendizado importante, mas também a fundação da crise que se estabeleceu nos anos posteriores.
A solução para a OnePlus foi o nascimento do OxygenOS, um Android limpo, rápido e personalizável, desenvolvido internamente. A transição foi arriscada, mas a comunidade celebrou a autonomia recuperada pela marca na sua base de software.
O sistema tornou-se um trunfo, diferenciando a OnePlus de concorrentes com interfaces sobrecarregadas. O design otimizado fez com que o desempenho se tornasse ainda melhor, trabalhando muito bem com um hardware que já era promissor pelas especificações, o que fez com que a sua relação custo-benefício aumentasse ainda mais.
Enquanto o software evoluía, o portfólio de produtos só aumentava. Modelos como o OnePlus 3T e o 5 consolidaram a reputação de excelência técnica da empresa, com uma aparente sustentabilidade que chamava a atenção de todos.
A empresa manteve o ciclo anual de lançamentos, mas começou a explorar novos mercados. Na Índia e na Europa, a combinação de preço justo e atualizações rápidas conquistou milhões de usuários, o que fez com que sua projeção de vendas entregasse números muito interessantes.
Até 2020, a base global de usuários saltou de 50 milhões para 130 milhões, um crescimento explosivo para uma marca jovem. E tudo indicava que um novo competidor realmente estava aparecendo, afastando de todos a ideia de que tudo o que estávamos testemunhando era o que chamamos de “fogo de palha”.
Infelizmente, todos nós nos enganamos com esse aparente sucesso.
A ambição de escalar ao topo entregou efeitos colaterais amargos para a OnePlus. Toda a dependência da OPPO nas áreas de pesquisa, desenvolvimento e produção só aumentou com o avanço do projeto e das vendas, e a pressão por margens de lucro cada vez maiores resultou em decisões controversas e equivocadas.
Lançamentos como o OnePlus X (em 2015) e a linha Nord (2020) mostraram tentativas de atingir públicos distintos, mas diluíram o foco inicial. O OxygenOS, antes um diferencial como sistema operacional fluído e otimizado, começou a sofrer alterações para integrar recursos do ColorOS — a skin da OPPO —, sinalizando o início de uma mudança que, hoje, entendemos que foi para pior.
Quando a OPPO matou a identidade da OnePlus

Em 2020, Carl Pei deixou a OnePlus para fundar a Nothing, levando parte da alma criativa da empresa para a sua nova marca. No mesmo ano, Pete Lau assumiu cargos na OPPO, acelerando a fusão operacional entre as marcas.
O anúncio de “parceria estratégica” em 2021 mascarou um plano maior: unificar equipes, softwares e até design de produtos, o que significava em termos práticos o início do fim da OnePlus, tal e como conhecíamos.
O OxygenOS e o ColorOS convergiram para uma base única, e smartphones como o OnePlus 9 e o Oppo Find X3 passaram a compartilhar câmeras Hasselblad e hardware idêntico. Isso até poderia ser encarado como algo positivo na teoria, mas apenas resultou em lançamentos redundantes e, em muitos casos, totalmente desnecessários.
Os fãs mais antigos reclamaram dessa experiência OPPO de ser nos smartphones da OnePlus. E eles tinham motivos para questionar a decisão: afinal de contas, eles compraram produtos de uma determinada marca, e não de outra.
Mas a pior parte é que toda a experiência de uso dos produtos da OnePlus ficou degradada com essa fusão, com o OxygenOS ficando seriamente prejudicado. Atualizações traziam recursos repetitivos, interfaces mais pesadas e uma sensação de déjà vu quando comprado com tudo o que o ColorOS estava entregando.

A promessa de Never Settle começou a soar vazia quando o OnePlus 10 Pro parecia um Oppo Reno com novo rótulo. E enquanto tudo isso acontecia, as vendas dos produtos da marca seguiam despencando em diferentes mercados globais.
Ao mesmo tempo, a BBK Electronics — holding dona de OPPO, vivo, realme e OnePlus — priorizava sinergias internas para reduzir custos em um mercado saturado, sem perceber que aquilo que tornava aquela marca tão especial simplesmente foi descartado pela empresa.
Análises de 2024 confirmaram o impacto de tantas decisões quivocadas: a participação global da OnePlus caiu para 2,3%, após um pico de 2,8% em 2022. Na China, o desempenho foi ainda pior, com apenas 1,6% de market share.
Nem mesmo a interessante tentativa de competir com Xiaomi e Apple em fotografia mobile não compensou a perda de identidade. Os consumidores questionavam: “por que escolher um OnePlus se ele parecia cada vez mais um OPPO com preço premium?”
A resposta para essa pergunta era bem óbvia para todo mundo, menos para os executivos da OPPO.
O fim da OnePlus global

Em janeiro de 2026, o cenário internacional da OnePlus era sombrio e revelador. Os escritórios da empresa nos Estados Unidos e Europa foram fechados, as equipes reduzidas na Índia e cancelamentos de produtos foram confirmados, como o dobrável OnePlus Open 2.
Dados apontaram uma queda de 20% nos envios globais em 2024, com apenas 13 milhões de unidades vendidas, o que é uma quantidade considerada ridícula quando olhamos para o contexto de todo do mercado de telefonia móvel.
A OPPO, focada em fortalecer sua própria marca, começou então a direcionar recursos para linhas como a Find X, deixando a OnePlus em segundo plano e, de certo modo, esquecida à própria sorte.
Era um processo de morte lenta.
A negação oficial foi imediata. Robin Liu, CEO da OnePlus na Índia, chamou as reportagens que denunciavam a situação da empresa de “infundadas”, garantindo operações normais para o país. Em um momento posterior, comunicados à imprensa destacaram o compromisso com atualizações de software e suporte pós-venda.
Porém, nenhuma menção foi feita aos cortes estruturais ou ao abandono de mercados como o Brasil, onde a marca sempre dependeu de importadores. E… para bem dizer a verdade, a OnePlus nunca esteve no mercado brasileiro de fato, pois jamais contou com uma estrutura para vendas e suporte para os consumidores.
A contradição entre discurso e ação alimentou as especulações sobre um “desligamento gradual” da OnePlus, algo que ficava ainda mais latente com todo o cenário prático que estava construído diante dos nossos olhos.
Na China, a situação era delicada. Metas internas previam ultrapassar a Xiaomi em médio e longo prazos, mas a realidade foi um retrocesso de 20% nas vendas. Até porque ficou cada vez mais difícil competir com uma gigante que acertou nas decisões na maior parte do tempo.
Enquanto isso, a OPPO investia pesado em IA e ecossistemas integrados, áreas onde a OnePlus não tinha expertise. Neste sentido, não dá para culpar a empresa, já que todo gigante do setor tecnológico está colocando muito dinheiro nas plataformas generativas – a ponto de deixar outros setores desabastecidos.
O cancelamento do compacto OnePlus 15s — um projeto aguardado por muitos fãs da marca — simbolizou a falta de prioridade da matriz em inovações autênticas. O futuro da marca passou a depender de decisões tomadas em Shenzhen, não mais por equipes globais.
Dessa forma, a OnePlus voltou a ser uma marca exclusivamente chinesa, decretando de forma oficial o fim de suas operações globais.
O que vai acontecer com a OnePlus?

Mesmo em declínio, o impacto da OnePlus no mercado é inegável. Foi ela quem popularizou o conceito de “flagship killer” antes mesmo da própria Xiaomi, forçando Samsung e Apple a repensarem preços e públicos a serem alcançados.
Seu foco em comunidade inspirou marcas como a Nothing, de Carl Pei, e até estratégias de concorrentes como a Motorola. O OxygenOS, antes um exemplo de otimização, influenciou skins de Android em todo o mundo.
Seu legado permanecerá vivo, mesmo que a marca desapareça.
Especialistas apontam três cenários possíveis para o futuro da OnePlus.
O primeiro é a transformação em sub-marca regional, focada na China e Índia, com lançamentos esporádicos baseados em projetos da OPPO. Essa é a hipótese mais provável e até mesmo mencionada superficialmente pelos seus executivos, mas mantém para a percepção objetiva de todos o desaparecimento em definitivo no contexto de escala global.
Outra opção é a absorção total, mantendo apenas o suporte a dispositivos existentes até 2028. Dessa forma, seria o fim da OnePlus em todos os sentidos, deixando a marca cair no esquecimento, ignorando dessa forma o legado e as contribuições para o setor.
Uma terceira hipótese, menos provável, é um relançamento surpresa em nichos como gaming ou realidade mista, se a OPPO identificar valor estratégico. E isso não deve acontecer com tanta facilidade, pois a marca principal não dá sinais de querer investir em um segmento que, para ela, é algo de nicho (e não atinge ao grande público).
Enquanto o futuro é incerto, consumidores e entusiastas lamentam o fim de uma era.
A OnePlus provou que, mesmo como parte de um conglomerado, é possível desafiar gigantes — mas também mostrou os limites de manter uma identidade única em um mercado implacável.
Seu destino servirá de lição para startups que buscam equilibrar crescimento e autenticidade, inspirando novas mentes a acreditar em produtos que genuinamente foram pensados no coletivo.
Uma coisa é certa: ninguém vai “desistir” (Never Settle) de lembrar seu impacto no mercado de telefonia móvel.
