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O que ninguém te contou sobre o Moto G67

No papel, tudo é lindo. E o Motorola Moto G67 nem é um dos piores smartphones intermediários que eu encontrei ao longo do tempo. Até acredito que ele é bem-intencionado quando dou de cara com ele em um beco escuro de um e-commerce qualquer.

Painel AMOLED de brilho ofuscante (5000 nits, nada menos!), certificação militar e um design que até engana, se disfarçando bem e parecendo um modelo mais caro da marca. É o começo de um relacionamento perfeito, não é?

Pois bem, bem-vindo à era do campo de distorção da realidade do Moto G67, o mais novo lançamento da Motorola que promete mundos e fundos com sua tela de 6,8 polegadas e câmera Sony de 50 MP.

Mas, como em todo bom conto de fadas tecnológico, há uma madrasta malvada escondida atrás da cortina. Lançado globalmente no final de janeiro de 2026, o irmão mais novo da família G chega ao mercado brasileiro com alguns asteriscos ocultos que precisam ser evidenciados.

Como, por exemplo, processador que, em vez de evoluir, deu um passo para trás em relação aos modelos de 2024.

Se você é do tipo que lê as entrelinhas das fichas técnicas, já deve ter sentido o cheiro de queimado. A Motorola caprichou nos comunicados de imprensa para falar do brilho da tela e das cores “Pantone”, mas “esqueceu” de mencionar alguns detalhes que podem fazer você repensar a compra.

Prepare a pipoca, porque vamos destrinchar os cinco pontos mais absurdos e controversos desse lançamento que está dando o que falar (e não necessariamente pelos motivos certos).

 

O processador “menos” Dimensity

Deixe eu ver se entendi direito.

O Moto G64, lançado em 2024, vinha com o MediaTek Dimensity 7025, um chipset que entregava um desempenho decente e agradava a crítica. Agora, em 2026, a Motorola lança o G67 equipado com um MediaTek Dimensity 6300.

Atente-se ao fato: este processador é, na prática, um DOWNGRADE em relação ao que vimos anteriormente.

Segundo análises técnicas, o Dimensity 6300 (presente no G67) entrega uma experiência de CPU e GPU inferior ao que o mercado esperava para uma evolução de linha. Ou seja, a Motorola trocou um carro 1.0 por outro 1.0, mas descobrir que o novo é mais fraco e bebe mais.

Para quem joga ou exige um mínimo de multitarefa pesada, a frustração é garantida.

A Motorola pode até tentar mascarar isso com o “RAM Boost” (aquele aumento virtual de memória), mas não se engane: software não substitui potência bruta de hardware.

 

Os 4 GB de RAM e a mágica (falsa) do “Boost”

Vamos falar mais uma vez sobre a memória RAM.

O modelo básico do Moto G67 vem com 4 GB de RAM. Isso em 2026, onde aplicativos de mensagem já consomem quase isso sozinhos. A Motorola, esperta, oferece a expansão virtual (RAM Boost) que promete chegar até 12 GB.

Porém, o que a fabricante não te conta em seu site oficial (e na página de venda do produto) é que memória RAM virtual (que usa uma parte do armazenamento interno para simular RAM) é significativamente mais lenta do que a memória física.

É a diferença entre ter um ajudante ágil ou um estagiário que trava no meio do caminho.

Em outras palavras, você não terá o desempenho de um celular com 12 GB de verdade. Essa “solução” é apenas um curativo para esconder a decisão de cortar custos em um componente essencial.

No melhor cenário, você poderá abrir mais aplicativos de forma simultânea, mas bem longe de ter a fluidez e o desempenho encontrados em um smartphone com 12 GB de RAM de verdade.

Entendeu?

 

A bateria mirou no passado e errou no presente

Se tem algo que a Motorola sabia fazer bem era bateria.

Os modelos G sempre foram conhecidos pela autonomia de dar e vender. No entanto, o G67 traz uma unidade de 5200 mAh com carregamento de 30W. Até aí, tudo bem… até você comparar com o Moto G64 de 2024, que ostentava uma colossal bateria de 6000 mAh.

Isso mesmo: o modelo “novo” tem 800 mAh A MENOS que o antecessor.

Em um mundo onde consumimos mais vídeos em 5G e telas mais brilhantes, reduzir a capacidade da bateria é, no mínimo, uma decisão questionável.

Além disso, o carregamento de 30W é considerado lento para os padrões atuais, onde concorrentes já oferecem o dobro da velocidade. Você vai passar mais tempo grudado na tomada do que deveria.

 

Ele pode molhar, mas não molhe muito

A Motorola faz um enorme alarde sobre a certificação militar MIL-STD-810H e a proteção IP64. Vamos destrinchar esse “IP64” para você nunca mais cair nessa.

O número “6” significa proteção total contra poeira (isso é ótimo). O problema é o “4”: ele indica proteção apenas contra respingos de água, e não contra imersão.

Traduzindo: se você der um google no celular e ele cair na pia, talvez sobreviva. Se ele cair dentro do vaso sanitário ou numa poça d’água, pode começar a fazer hora extra em nosso planeta e, neste caso, você precisa começar a rezar.

A certificação IP64 não permite fotos embaixo da chuva ou uso tranquilo na piscina. É uma proteção básica que qualquer celular já deveria ter, mas que a Motorola vende como se fosse um tanque de guerra anfíbio.

A decisão da Motorola neste caso não é tão grave quanto parece. Estamos diante de um smartphone de baixo custo (ou menos caro, como queira), e a grande maioria dos seus concorrentes não contam com esse nível de proteção.

E, para ser bem justo… a Motorola não está afirmando em nenhum momento que você pode mergulhar com o smartphone.

Porém, é sempre bom lembrar aos mais desavisados que existe um limite para o que o dispositivo pode fazer na água. É meu dever deixar o sinal de alerta para que você evite ter problemas que sempre podem ser evitados.

Fica o aviso: com água, não se brinca.

 

A comédia das (poucas) atualizações voltou”

Por fim, o ponto mais triste e, ironicamente, o que pode tornar o aparelho obsoleto mais rápido: a política de updates.

Confesso que estava até sentindo falta de falar mal da Motorola por algo que pode, deve e precisa ser evitado pelos fabricantes de smartphones. A marca melhorou (e muito) neste aspecto com os seus modelos mais caros, mas ainda deixa a desejar para os consumidores que não podem pagar muito por um smartphone.

O Moto G67 sai da caixa com o Android 16 e a interface Hello UI. A Motorola promete APENAS DUAS ATUALIZAÇÕES de sistema operacional e quatro anos de patches de segurança.

Em pleno 2026, onde a Samsung e outras marcas já oferecem seis ou sete anos de suporte (inclusive nos modelos mais básicos e até inferiores ao Moto G77 nas especificações técnicas), a Motorola ainda trata software como um favor, não como um direito.

Isso significa que, em dois anos, seu celular estará tecnicamente “abandonado” em termos de versão do Android, e em quatro anos, vulnerável a ataques de segurança.

É um prazo de validade curto para um aparelho que você (muito provavelmente) vai pagar parcelado em 12 vezes.

 

Vai por sua conta e risco

O Motorola Moto G67 custa o preço inicial sugerido de R$ 1.799, mas certamente poderá ser encontrado por menos no futuro, quando você estiver lendo este artigo. E quem sabe ele estará em um valor mais justo do que esse.

Entendo que ele não é um telefone que pode ser chamado de “horrível”. Só penso que várias coisas que foram ditas neste artigo simplesmente foram “ignoradas” (de forma conveniente?) pela Motorola, e tais aspectos podem induzir os consumidores mais leigos ao erro.

Quem está consciente sobre tudo o que esse smartphone pode fazer de melhor (o básico) e sabe de todas as limitações do modelo tem grandes chances de fazer uma escolha consciente. E, mesmo assim, os mais espertos vão esperar o preço dele cair antes de fazer o investimento.

O que me preocupa mesmo é aquele consumidor mais empolgado, que vai se deixar levar pelo senso de urgência ou promoção pontual para investir o seu suado dinheiro em um dispositivo que pode sim deixar a desejar em alguns aspectos.

E ter que lidar com expectativas quebradas nunca é algo prazeroso.

Muito pelo contrário.

 

Especificações técnicas do Moto G67

  • Tela: 6,8 polegadas, painel AMOLED, resolução 1,5K (1272 x 2772 pixels), taxa de atualização de 120 Hz, brilho de pico de 5000 nits, proteção Gorilla Glass 7i.
  • Processador: MediaTek Dimensity 6300 (6 nm) com conectividade 5G.
  • Memória RAM: 4 GB (expansível virtualmente via RAM Boost em até 12 GB).
  • Armazenamento Interno: 128 GB ou 256 GB.
  • Câmera Traseira: Principal de 50 MP (Sony Lytia 600, f/1.8) + Ultrawide de 8 MP (118/119).
  • Câmera Frontal: 32 MP (f/2.2).
  • Bateria: 5.200 mAh com suporte para carregamento TurboPower de 33 W.
  • Sistema Operacional: Android 16 com interface Hello UI.
  • Resistência: Certificação militar MIL-STD-810H e proteção IP64 contra poeira e respingos.
  • Áudio: Alto-falantes estéreo com Dolby Atmos.
  • Conectividade: 5G, Wi-Fi 5, Bluetooth 5.4, NFC e USB Tipo-C.
  • Dimensões e Peso: 164,2 x 77,4 x 7,33 mm; 182 gramas.