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O que penso de “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” (2025)

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“Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, dirigido por Matt Shakman e protagonizado por Pedro Pascal, Vanessa Kirby, Joseph Quinn e Ebon Moss-Bachrach, é um típico filme da Marvel Studios. E, neste momento, isso não é um bom parâmetro.

O filme repete a “fórmula Marvel”, que está sim desgastada e sofre de um certo contraste com o filme anterior, “Thunderbolts*”, que foge dessa mecânica narrativa tradicional para contar uma história mais adulta e centrada nas motivações dos personagens, e não necessariamente na ação em si.

E não me entenda mal: este é um bom filme, principalmente nos aspectos de produção. Mas não reinventa os padrões narrativos da Marvel, mantendo-se dentro dos limites seguros e previsíveis que caracterizam o cinema de super-heróis contemporâneo.

Ele funciona, mas não apresenta inovações e nem mesmo grandes consequências para o que está por vir no MCU… com exceção daquele que aparece na cena pós-créditos.

 

É bonito, mas seu desenvolvimento narrativo…

O design de produção merece destaque especial, criando uma estética retrofuturista ambientada nos anos 1960 que é visualmente impressionante e envolvente. A qualidade visual é tamanha, que me arrisco a dizer que existe sim a possibilidade real de indicação ao Oscar na categoria de melhor design de produção, demonstrando o cuidado e a atenção dedicados aos elementos visuais.

A trilha sonora incidental complementa perfeitamente a atmosfera criada, transportando o espectador para o universo específico do filme e contribuindo significativamente para a experiência cinematográfica geral.

“Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” é um filme que convence quando se apresenta. Não dá para dizer que o filme não chama a atenção na sua apresentação visual, e entendo que este é um dos grandes trunfos da produção.

O problema está mesmo na forma em como essa história é contada.

A estrutura narrativa segue um padrão linear convencional. O filme apresenta a origem do Quarteto Fantástico de forma condensada nos primeiros 8 a 10 minutos, uma decisão que provavelmente resultou de testes de audiência que indicaram necessidade de contextualização para o público.

O segundo ato é um pouco mais arrastado, funcionando principalmente como uma ponte para preparar o terceiro ato e a batalha final, seguindo uma fórmula estabelecida no gênero de super-heróis.

Com todo o respeito do mundo, mas tudo o que acontece no miolo do filme é apenas para ganhar tempo para o final. Caso contrário, o filme poderia durar 60 minutos (no máximo), e eu não teria qualquer tipo de problema com isso.

 

Um elenco que funciona

Quem tinha medo sobre a escolha do elenco de “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, pode ficar tranquilo, pois esse é um dos grandes acertos do filme.

A sinergia entre os quatro protagonistas funciona excepcionalmente bem, dissipando preocupações sobre a capacidade de Pedro Pascal interpretar Reed Richards. Vanessa Kirby se destaca particularmente como Sue Storm, criando uma conexão emocional genuína com o público através de suas motivações bem desenvolvidas.

O personagem que mais evolui ao longo da narrativa é Johnny Storm, que abandona a caracterização superficial do jovem fútil e se transforma em um elemento crucial para o desenvolvimento e resolução do conflito principal.

O desenvolvimento de Reed Richards e Ben Grimm (Coisa) deixa a desejar comparativamente, com arcos narrativos menos elaborados. Reed Richards é apresentado como o homem mais inteligente do mundo, mas com traços megalomaníacos evidentes, especialmente na forma como desenvolve soluções grandiosas para os problemas apresentados. Sua curiosidade científica serve como motor narrativo, mas também como fonte de conflitos internos sobre como resolver as ameaças sem envolver diretamente seu filho Franklin.

 

Eu não me importei com o Galactus

Um dos aspectos mais problemáticos de “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” é a utilização prematura de Galactus como antagonista principal. Esta é uma decisão questionável, uma vez que um vilão de tamanha magnitude cósmica deveria ser reservado para um terceiro filme da franquia, após maior desenvolvimento e construção narrativa.

A apresentação do personagem parece aleatória e conveniente demais, especialmente considerando que a descoberta da Terra e do nascimento de Franklin Richards acontece de forma aparentemente casual.

A mudança de gênero do Surfista Prateado é mencionada como uma alteração bem explicada e competentemente executada dentro do contexto do filme, contribuindo positivamente para a narrativa e para o desenvolvimento de Johnny Storm através de suas interações com o personagem.

 

Impacto no Universo Cinematográfico Marvel

O filme serve claramente como uma introdução dos personagens ao MCU, preparando terreno para desenvolvimentos futuros, particularmente a chegada de Doctor Doom (Victor Von Doom). E aqui, temos um enorme problema, pois Doom poderá aparecer sem desenvolvimento adequado nos próximos filmes dos Vingadores, sendo apresentado como mais uma ameaça surgida “do nada”.

Esta situação é resultado das complicações legais anteriores envolvendo os direitos dos personagens, que pertenciam à Fox e impediram sua utilização mais cedo no MCU. Sem falar nos problemas que a própria Marvel teve desde o Ultimato (pandemia, os problemas legais de Jonathan Majors, greve de atores e roteiristas, etc).

Ao que tudo indica (e algumas notícias já foram compartilhadas neste sentido), Reed Richards assumirá a liderança dos Vingadores nos filmes futuros, estabelecendo um confronto direto entre dois gênios megalomaníacos – Richards e Doom. Esta dinâmica promete criar conflitos interessantes, mas também levanta questões sobre a capacidade da Marvel de justificar adequadamente a existência do multiverso através destes confrontos.

 

O problema é mesmo a “fórmula Marvel”

No final das contas, o maior problema de “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” é a aderência à fórmula Marvel estabelecida, que está mais do que desgastada.

O filme sofre da previsibilidade inerente ao gênero de super-heróis, onde a vitória dos protagonistas é praticamente garantida, eliminando elementos de surpresa e tensão genuína.

A comparação com “Vingadores: Guerra Infinita” é particularmente relevante, pois aquele filme conseguiu quebrar expectativas ao apresentar um final onde os heróis são derrotados, criando um padrão difícil de replicar.

A destruição recorrente de Nova York como cenário para batalhas épicas é outra situação que se tornou rotineiro dentro do MCU, similar ao que acontece com Metrópolis nos filmes do Superman, que é semidestruída de tempos em tempos, com os cidadãos mais do que acostumados com os desastres. A normalização das ameaças em escala global reduz o impacto emocional dos conflitos apresentados.

Apesar das críticas, o filme é uma produção competente que cumpre seus objetivos básicos de entretenimento e introdução de personagens. A obra possui identidade própria e trata seus heróis e vilões de forma respeitosa, evitando soluções narrativas completamente arbitrárias. No entanto, permanece a sensação de que o filme existe principalmente para servir propósitos maiores dentro do MCU, e não se destaca exatamente pelos méritos próprios.

Eu realmente espero que os próximos dois filmes dos Vingadores possam surpreender e superar as limitações identificadas, embora deva reconhecer que a Marvel precisa encontrar formas de renovar sua fórmula para manter o interesse do público.

A situação da Marvel é sim difícil, mas… poderia ser pior. Ainda bem que o multiverso está finalmente acabando, e todo mundo pode seguir em frente…

…em um mundo novo, todo bagunçado, e com personagens de diferentes locais e origens.

 


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@oEduardoMoreira