Atenção, amigo leitor. Eu sei que o Tecnoblog escreveu um post abordando esse tema, e recomendo que você também leia o post deles (aliás, escrito pelo amigo Paulo Higa). Mas me preocupei em não ler o post deles antes de escrever esse, e como vou passar meu parecer pessoal sobre a questão, eu acredito que as opiniões (e o texto em si) não vão bater. Logo, sem alardes. Relaxe e aproveite.

Dito isso… vamos lá.

A Dell finalmente confirmou os rumores que rondavam a internet nas últimas semanas. Na verdade, cantei essa bola lá no TargetHD no meio do mês de janeiro. Todos os principais veículos especializados no mundo de tecnologia informaram sobre a possibilidade da Dell ser vendida, e parece que o primeiro passo foi dado ontem (05). A empresa vai voltar a ser de capital fechado, e vai receber um investimento total de US$ 24.4 bilhões de seus acionistas, do próprio presidente Michael Dell, e de alguns parceiros comerciais, incluindo a Microsoft.

Dessa forma, ela sai da bolsa eletrônica da NASDAQ. Cada uma das ações deve valer em torno de US$ 13.70, um valor relativamente baixo se levamos em conta o quão grande a empresa é, e o quão relevante ela é no mundo da tecnologia. Mas indo além do significado financeiro dessa estratégia, a manobra começa a traçar os novos caminhos da Dell, onde a evolução e inovação devem ir para o primeiro plano, com o objetivo de voltar a ser aquilo que foi um dia, por consequência do próprio mercado.

Não podemos nos esquecer que estamos falando simplesmente da terceira maior fabricante de computadores do mundo, ficando atrás apenas da HP e da Lenovo. E isso não é pouco. Essa posição, em 2000, fazia com que a Dell valesse um pouco mais de US$ 100 bilhões. Hoje, ela vale um pouco menos de US$ 25 bilhões, ou seja, 1/4 do seu valor no passado.

A queda da Dell tem pelo menos um motivo bem razoável, e está diretamente ligado ao sucesso do mercado mobile. A Dell não apostou o suficiente na evolução dos smartphones e tablets, e pensando também nesse segmento que o fator inovação precisa ser levado em consideração. A nova junta diretiva, presidida por Michael Dell, entra em uma aventura que tem como objetivo fazer a marca renascer, mas em um novo propósito.

Mas a pegunta é: o que muda para a Dell ser uma empresa de capital fechado?

Estratégia a longo prazo

O principal fator que afeta os planos de uma empresa tão grande como a Dell (e essa regra vale para qualquer empresa, de qualquer porte) é a pressão que os investidores podem exercer a cada relatório trimestral de balanço financeiro. A boa notícia para a Dell em se tornar uma empresa privada é que agora eles poderão trabalhar em uma estratégia a longo prazo, buscando recuperar a popularidade dos seus produtos junto ao público em geral (não estamos considerando o mercado corporativo e de servidores). Não é uma tarefa fácil, ainda mais com pouco dinheiro.

Se o futuro da Dell vai ser bom ou ruim, não sabemos. Fato é que, antes de qualquer coisa, é fundamental que a empresa construa uma base sólida, e invista dinheiro em inovação e desenvolvimento, para que aos poucos eles consigam recuperar a cota de mercado e o impacto junto ao usuário causal, que está cada vez mais apaixonado pelos dispositivos móveis.

Um grande erro de Michael Dell (erro esse que persistiu ao longo dos últimos anos) é que ele chegou à presidência da empresa prometendo “mudanças e inovações”, mas na prática, isso não aconteceu até agora. Para piorar, ele não investiu tempo e dinheiro nas plataformas móveis. Ou melhor, não da forma como esse mercado merece esse investimento. Se muitos acreditam que esse mercado está saturado, com muitos produtos, é sempre bom lembrar que toda grande empresa sabe tirar proveito do momento. E pode ser isso que a empresa precisa: de uma grande aposta no mundo mobile. Talvez um produto com algum parceiro segmento de software (alô, Microsoft… alô, Windows Phone… alô, Windows 8…).

Um novo melhor amigo

Se Michael Dell e a empresa Silver Lake foram os maiores investidores para a privatização da empresa, é sempre bom lembrar que eles receberam uma boa ajuda de um “bom samaritano”: a Microsoft. A gigante de Redmond, especialista em tirar empresas quase mortas do buraco (a Apple e a Nokia podem falar disso melhor do que eu), investiu nada menos que US$ 2 bilhões para completar a transação. E o motivo é muito claro: “nós te ajudamos, e esperamos que vocês apostem na gente”.

Para ser mais claro, leia o recado da Microsoft:

“A Microsoft realizou um empréstimo de US$ 2 bilhões, com o objetivo de auxiliar na privatização da Dell, fazendo parte de um grupo de investidores, onde está incluído o seu atual Presidente. (…) Nós vemos esse investimento como a aposta e o compromisso pelo sucesso do ecossistema de PCs”.

De novo: para bom entendedor…

Isso deixa bem claro que a Microsoft estendeu a mão para a Dell, esperando que a Dell devolva o favor com desenvolvimento de novos produtos, especialmente no mundo do PC, além de dirigir os seus esforços para o mundo mobile, onde é possível apostar que, com o passar do tempo, poderemos ver o lançamento de novos tablets e smartphones funcionando com os sistemas Windows 8, Windows RT e Windows Phone. Algo semelhante com aquilo que a própria Microsoft fez com a Nokia, que resultou em uma das parcerias mais controvérsias dos últimos anos (já que todos esperavam que a fabricante finlandesa reconhecesse a derrota e abraçasse o Android como se não houvesse o amanhã).

Mas… eu devo me preocupar com alguma coisa, @oEduardoMoreira?


A tendência é que não aconteça nenhuma mudança radical na Dell nesse primeiro momento. Primeiro: ainda falta um tempo considerável pra que o acordo se concretize. Segundo: Michael Dell deve seguir na presidência da empresa. Terceiro: o objetivo da Dell agora é se reinventar, com o objetivo de ressurgir no mundo da computação, e não mudar algo que está dando certo. Apenas alterar o que não funciona tão bem assim.

O que pode levantar algum ponto de dúvida é sobre o futuro de suas linhas de produtos, que não estão no seu melhor momento de vendas. A linha Alienware, por exemplo. Ela foi adquirida pela Dell para fazer frente aos concorrentes no segmento de computadores para games, como é a ASUS ROG. Porém, nunca disse a que veio. Outra que tem o seu futuro ameaçado é a linha XPS com Ubuntu (ou Linux), que é um recém lançado no mercado, mas que pode ser abandonado por causa dos investimentos realizados pela Microsoft.

Além disso, os rumores mais recentes apostam que a Dell pode deixar de focar no hardware para se basear no desenvolvimento de soluções para Cloud Computing, o que pode ser um motivo de grande preocupação para as empresas que utilizam computadores e servidores da Dell. Sendo clientes importantes da empresa na aquisição de soluções profissionais, não creio que Michael Dell vai deixar essa clientela escapar com uma mudança tão abrupta de direcionamento.

Seja como for, o período de transição que a Dell vai viver em breve pode afetar o consumidor no quesito “alternativas”. E os concorrentes sabem disso. A HP, mais que depressa, aproveita o momento para dar o seu recado: “acreditamos que nesse momento os usuários da Dell começarão a buscar alternativas, e queremos aproveitar isso”. Negócios, amigo leitor. Concorrência no seu estado bruto.

Minha opinião sobre tudo isso? Vamos lá.

Eu torço pela recuperação da Dell. De verdade. Eu gosto dos seus produtos, da qualidade final entregue ao consumidor, da robustez de alguns equipamentos. E considero uma das empresas mais importantes do mercado de informática. Como meu amor pelo mundo da tecnologia começou por um computador (não foi um Dell, mas sim, um “Frankenstein”… uma hora falo sobre isso), não é legal ver esse segmento de mercado se enfraquecendo a cada ano, apesar de entender que o momento é mesmo dos dispositivos móveis, e tudo indica que isso não vai mudar.

Mesmo assim, considero a concorrência algo positivo para o mercado, e para o consumidor. O usuário precisa ter opções para buscar o produto que melhor se encaixe às suas necessidades. A Microsoft passa a ser mais uma vez peça fundamental para que a engrenagem da Dell volte a funcionar. E espero mesmo que as duas empresas comecem a trabalhar o mais depressa possível em um futuro melhor. Quem sabe dessa mudança apareçam novos produtos espetaculares, que surpreenda o usuário, e que possa atender ainda melhor as nossas necessidades?