
A trajetória da BlackBerry deixou uma legião de admiradores órfãos de seu ecossistema produtivo, caracterizado por teclados físicos e uma abordagem única de eficiência. Embora a empresa tenha desaparecido, sua memória segue viva e continua inspirando iniciativas independentes que buscam resgatar sua identidade tecnológica.
Penso que a BlackBerry está se tornando uma marca de culto com o passar do tempo, tanto com os velhos admiradores dos seus dispositivos mantendo a lenda viva, quanto para os novos que só agora estão conhecendo o sistema e os seus telefones. Logo, não estranho quando projetos como esse ganham destaque na internet.
O Marathon OS surge como a principal aposta para reviver o espírito do BlackBerry 10, trazendo uma experiência baseada em Linux voltada para produtividade. Embora funcione em celulares Android, ele não depende da base AOSP e se apoia em um projeto aberto que prioriza flexibilidade e independência.
Não estamos falando apenas de uma volta ao passado

A proposta não é apenas nostálgica, mas também técnica, ao combinar a leveza do postmarketOS com um sistema pensado para fluidez e controle total do usuário. A estratégia oferece liberdade, mas também enfrenta alguns problemas importantes, especialmente no suporte aos aplicativos mais modernos, repetindo obstáculos que marcaram o fim da própria BlackBerry.
Não podemos culpar os seus idealizadores por ao menos tentar ressuscitar a experiência do passado no presente. O que pode incomodar um pouco é ver que aparentemente estão repetindo os mesmos erros que a própria Research in Motion cometeu com a já finada BlackBerry.

É questionável a decisão de desenvolver e manter um sistema operacional que não é compatível com os apps mais utilizados hoje, pois é basicamente isso o que faz qualquer sistema operacional móvel desaparecer.
E levando em consideração o tamanho desse projeto, é de se duvidar que terá uma grande adesão em função do pouco que funciona. As pessoas não querem usar um sistema operacional que não é compatível com as ferramentas do dia a dia.
De qualquer forma, respeito a iniciativa e a tentativa de reinvenção.
O que o Marathon OS consegue fazer neste momento?

Hoje, o sistema já é capaz de rodar apps nativas de Linux, ferramentas em Electron e softwares próprios, com a promessa de compatibilidade com Android em breve via um fork do Waydroid. Essa ampliação busca tornar o Marathon OS viável no uso cotidiano, preservando a essência de um ambiente robusto sem abrir mão da modernidade.
O que já é alguma coisa.
Não estamos diante de meros aventureiros ou sonhadores. Quem está por trás do Marathon OS ao menos está prometendo um projeto sustentável e de longo prazo, com a expansão de usabilidade e compatibilidade com aplicativos de outras plataformas para o futuro.
Se bem que, por outro lado, empresas de tecnologia que prometem muito e não entregam existem aos montes, e não existe nenhuma garantia de que isso não vai se repetir neste caso.

O projeto já roda a 60 fps no OnePlus 6, mostrando que é possível entregar fluidez mesmo em aparelhos com quase uma década de uso. A lista de dispositivos compatíveis ainda é pequena, incluindo também o OnePlus 6T e o POCO F1, mas o foco está em garantir uma experiência sólida antes de ampliar o suporte.
O desenvolvedor planeja abrir a porta para que a comunidade produza seus próprios ports, permitindo a expansão natural do sistema para outros modelos. Essa abordagem reforça o caráter aberto do Marathon OS e evidencia como ele pretende ir além da nostalgia ao criar um ecossistema realmente colaborativo e vivo.
Um passado que permanece

As referências ao BlackBerry 10 aparecem em funções consagradas, mas reinterpretadas para o hardware atual, evitando qualquer conflito de propriedade intelectual. O sistema resgata elementos como o BlackBerry Hub, a navegação por gestos e os Active Frames, apostando em uma multitarefa mais visual, eficiente e integrada.
De novo: eu consigo entender perfeitamente essa construção de culto ao BlackBerry, pois até hoje eu sinto falta do meu BlackBerry Bold. E olhando para trás, sei que fui muito feliz enquanto o dispositivo foi um dos meus telefones de trabalho.
A marca BlackBerry é muito importante para o mundo da telefonia móvel, muito mais do que muitos imaginam. Para pelo menos uma geração de usuários, foi a porta de entrada para o mundo dos smartphones, com dispositivos que iam além de fazer e receber chamadas telefônicas.

Apesar do meu ceticismo sobre a longevidade do projeto, torço – de verdade – para que o Marathon OS consiga prosperar, mesmo que dentro de um público de nicho. Os nostálgicos merecem ser atendidos de forma plena em um sistema operacional que reconstrói a experiência do passado.
Agora, para ficar perfeito, só faltam lançar um smartphone BlackBerry clássico, com teclado QWERTY físico e design compacto.
Se bem que… se eu procurar direito na internet, certamente vou achar projetos de cases com teclado e até mesmo telefones que “se inspiraram” no design dos clássicos modelos da BlackBerry.
É só todo mundo me dar algum tempo para isso, que consigo mostrar algumas coisas interessantes para vocês. Tem um terreno fértil na internet sobre esse assunto.
