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O VMA da MTV mostra como o jovem atual pode mudar positivamente nossa sociedade

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O mundo está em constante transformação, e as nova geração (essa mesma que diz que sou cringe por ter 42 anos) está mostrando isso claramente. A maior prova das mudanças comportamentais está na música, e acompanhar o tão criticado Video Music Awards da MTV é uma forma de perceber essas mudanças.

A música é uma das ferramentas mais eficientes para mostrar a mudança de comportamento do coletivo, e aqueles que conseguem prestar maior atenção nesses movimentos de mudança vão entender melhor para onde a nossa sociedade pode seguir em um futuro a médio prazo.

Baseando a minha análise exclusivamente na categoria Vídeo do Ano (que é a mais importante do VMA), faço uma revisão sobre como o mundo da música e do videoclipe está refletindo como a nova geração está se enxergando como integrantes de uma sociedade, com novos valores e perspectivas.

Recomendo ao amigo leitor que assista aos videoclipes para entender melhor os contextos que quero apresentar em cada uma das músicas selecionadas.

 

 

 

Antes de 2016…

 

 

Coloco como o ponto de partida o ano de 2015, pois antes disso as escolhas estavam muito mais relacionadas com o sucesso que cada música fez do que objetivamente com as tais mudanças sociais que estão como plano de fundo de cada escolha.

Por outro lado, é importante também apresentar alguns detalhes importantes sobre o comportamento da MTV em relação a determinados aspectos que se alinham com o comportamento da audiência na época.

No seu início, a MTV exibia de forma majoritária e praticamente exclusiva artistas brancos. Michael Jackson passou anos implorando para o canal exibir seus videoclipes, mas todos foram recusados.

Até que Michael Jackson meteu o pé na porta da MTV, fez “Thriller” (aka “o melhor videoclipe de todos os tempos independente do que você pensa sobre o assunto porque só a minha opinião importa”), e estabeleceu um ponto de ruptura definitiva sobre essa política que a própria MTV admitiu para David Bowie, justificando que “precisava exibir aquilo que a nossa audiência queria ver”.

E, ainda assim, Jackson não venceu o Vídeo do Ano no primeiro VMA da história (1984). E, na época, muitos acusaram a MTV de ser racista. Afinal de contas, como um vídeo como “Thriller” poderia perder esse prêmio?

A acusação da MTV “racista” se provou na prática: apenas em 1995 um artista negro venceu o Vídeo do Ano (TLC, “Waterfalls”). Depois disso, a música negra dominou o canal por completo.

No caso dos artistas assumidamente homossexuais, o cenário é ainda mais grave. Mesmo com vários artistas defendendo de forma aberta as causas de igualdade e combatendo a violência contra os gays, até a noite de ontem (12), nenhum artista que seja objetivamente reconhecido como membro da comunidade LGBTQIA+ venceu o prêmio de Vídeo do Ano.

Tá, você pode até argumentar que Sinéad O’Connor e Michael Stipe (da banda R.E.M.) venceram o Vídeo do Ano na década de 1990. Mas ambos só assumiram as suas respectivas condições sexuais depois de 2000. Ou seja, nenhum deles venceu o prêmio reconhecendo ou assumindo ao mundo este aspecto de suas vidas. E isso é muito importante para defender o meu ponto de vista neste post.

Mas… as novas gerações estão chegando. Então, vamos olhar para as suas escolhas no VMA a partir de 2016. Lembrando sempre que, nos últimos anos, a categoria de Vídeo do Ano é de escolha da audiência, e não de um grupo técnico. Logo, além da qualidade técnica, temos que obrigatoriamente colocar a forma em como essa geração está se identificando com essas peças artísticas.

 

 

 

Beyoncé – “Formation” (2016)

 

 

O álbum conceitual “Lemonade” de Beyoncé fala de forma direta de empoderamento feminino, mas neste caso de “Formation”, fala do empoderamento da própria Beyoncé como mulher negra. Mostra a sua força em ser alguém mais poderosa que vários homens. Tão poderosa, que pode “contratar as putas que o seu marido come”, metendo o dedo na cara do Jay-Z e suas infidelidades conjugais.

Muitas mulheres (de qualquer etnia ou idade) se identificaram com este discurso de empoderamento. É uma mostra clara de um coletivo que não mais iria aceitar a subjugação masculina, e que iria lutar de forma ferrenha para fazer a sua voz ser ouvida.

Na verdade, esse tipo de discurso vem de décadas antes. Madonna, Tina Turner, Lady Gaga e tantas outras cantoras apresentaram propostas semelhantes. Mas Beyoncé foi a primeira a vencer o Vídeo do Ano com um discurso muito específico e engajado.

Este videoclipe é uma pedrada na cara da sociedade. Fato.

 

 

 

Kendrick Lamar – “Humble” (2017)

 

 

O primeiro Vídeo do Ano a ter a influência da gestão Donald Trump fala de forma objetiva sobre a tentativa de imposição de “discurso de humildade” ao povo preto que conseguiu chegar a algum lugar na vida, sob a perspectiva de falsa lição de moral que tem como principal objetivo diminuir as conquistas dos negros pelos próprios méritos.

Traduzindo tudo o que eu escrevi no parágrafo anterior: racismo estrutural.

Uma tentativa escancarada em fazer o povo preto abaixar a cabeça para qualquer coisa. O tempo todo.

Existe uma ideia de boa parte do povo branco que o negro não pode ostentar o que conquistou, pois isso pode passar uma mensagem de falsa humildade. Muitos desses brancos fazem esse discurso de iates e jatinhos particulares.

O vídeo também fala da tentativa de imposição nos padrões de cultura e estética do povo preto, que não deve usar cabelos crespos ou que precisam se distanciar de suas origens culturais para serem aceitos com maior facilidade “na sociedade como um todo”.

Kendrick Lamar faz uma dura crítica a todos esses temas, buscando despertar um discurso mais consciente e racional sobre a beleza e a importância da cultura negra na sociedade, seja nos contextos históricos, seja na contribuição atual para a cultura urbana.

 

 

 

Camila Cabello (featuring Young Thug) – “Havana” (2018)

 

 

Camilla Cabello faz parte da geração dos “dreamers”, ou seja, filhos de imigrantes latinos que nasceram nos Estados Unidos. Por lei, ela é considerada norte-americana, mas Donald Trump não entendia dessa forma.

No começo de sua gestão como presidente dos Estados Unidos, Trump estabeleceu políticas de deportação dos imigrantes ilegais, o que resultou na dramática separação de pais e filhos. O próximo passo dessa política era deportar os “dreamers”, que já estavam estabelecidos no país, derrubando as leis que garantiam a sua cidadania.

A escolha de “Havana” como Vídeo do Ano no VMA é um sinal claro de uma geração que não quer ver os seus amigos sendo deportados por uma lei estúpida. É uma resposta direta para Trump, reconhecendo efetivamente a importância dos latinos para a construção e constituição da cultura e sociedade norte-americana.

Desde então, a MTV decidiu estabelecer uma categoria específica para a música latina no VMA, que é muito mais consumida pela atual geração de jovens do que no passado. Sem falar que, assim como acontece com os afro descendentes, os latinos hoje representam mais de 10% da população norte-americana, o que não é pouca coisa.

 

 

 

Taylor Swift – “You Need to Calm Down” (2019)

 

 

As redes sociais se transformaram em ferramentas de propagação de verdadeiros absurdos em nossa sociedade, tais como o bullying, o stalking, o abuso mental, o preconceito generalizado e o assassinato de reputação alheia.

As principais vítimas dessas violências são justamente os adolescentes, que são aqueles que passam mais tempo nessas redes. Apesar de todas as campanhas sobre os perigos que o uso excessivo da internet pode gerar no indivíduo, é muito difícil fazer com que um jovem passe imune a esses problemas.

Taylor Swift foi vítima e algoz das redes sociais. Não só ela teve a sua reputação assassinada através do Twitter e do Snapchat como escancarou sua briga com Katy Perry através dela, algo que os fãs das duas artistas testemunharam de camarote. E, curiosamente, essa briga atingiu o seu ápice com o vídeo de “Bad Blood” de Taylor, que venceu como Vídeo do Ano em 2015.

Então, “You Need to Calm Down” fala sobre a necessidade dos usuários das redes sociais e das plataformas conectadas em deixar o ódio de lado e buscar inspirações positivas em suas vidas. No vídeo, encontramos vários influenciadores digitais (youtubers, instagrammers, tiktockers, etc) que foram vítimas de bullying e assédio simplesmente porque queriam ser eles mesmos e mostrar suas respectivas realidades na internet.

E Taylor deu espaço para essa galera que foi massacrada nas redes sociais por anos.

Como cereja do bolo, no final, Taylor Swift e Katy Perry selam a paz em um abraço. Tá, este nem é o melhor vídeo daquele ano, mas pela mensagem positiva que convenceu os jovens sobre o quão necessário é abaixar a temperatura nas redes sociais… está valendo.

 

 

 

The Weeknd – “Blinding Lights” (2020)

 

 

“Bliding Lights” é uma das músicas do quarto álbum de estúdio de The Weeknd, o “After Hours”. Esse é um dos maiores sucessos comerciais de 2020, com vendas expressivas e grande visibilidade junto ao público e crítica. E, mesmo assim, este álbum não recebeu nenhuma indicação ao Grammy Awards de 2021.

O que aconteceu aqui?

Um dos melhores álbuns de 2020 foi completamente esnobado pela mais importante premiação da indústria da música? Onde foi que o The Weeknd errou?

Seria em fazer um álbum conceitual, onde ele cria um alter ego totalmente desconstruído de sua imagem real (algo que ele sempre se incomodou, pois não se considerava dentro do padrão que a própria indústria musical exigia para ser “sinônimo de sucesso”) para apresentar uma forma alternativa de fazer e apresentar a sua música, se distanciando das exigências do mercado?

Ou seria mais uma forma de deixar um talentoso artista negro fora das principais indicações do Grammy Awards, premiação cujos vencedores são eleitos por executivos da indústria que são majoritariamente brancos?

Jamais teremos uma resposta clara e objetiva. Fato é que a audiência atual da MTV, que não liga mais tanto para a estética alheia, não se importou em nada com o rosto deformado do The Weeknd (ou do alter ego que ele criou) e deu o prêmio de Vídeo do Ano para “Bliding Lights”. E de forma merecida: esse vídeo é incrível, e a música é ótima.

 

 

 

Lil Nas X – “Montero (Call Me By Your Name)” (2021)

 

 

E chegamos para o motivo para este artigo existir.

Olha… palmas lentas para Lil Nas X. Esse cara sabe como fazer marketing pessoal.

Primeiro, ele chamou a atenção de todo mundo com uma estratégia que utilizou a engenharia social dos algoritmos das plataformas digitais de música. Ele, como artista de rap e hip-hop, gravou um remix de uma de suas canções, “Old Town Road” e, estrategicamente, classificou essa música como um pop country, pois entendeu que, dessa forma, ela teria uma maior visibilidade nos catálogos musicais, já que a competição dentro dessa categoria seria muito menor do que nos seus estilos originais.

A estratégia gerou polêmica, mas deu muito certo.

Depois disso, Lil Nas X assumiu para quem quisesse ler, ver e ouvir que era homossexual. E fez isso como um artista de rap e hip-hop. E você não faz ideia sobre como esses segmentos musicais são extremamente homofóbicos (o Eminem que o diga).

Choveram críticas contra o rapaz. Ele foi massacrado nas redes sociais, ameaçado por muita gente e perseguido de tudo quanto é jeito. Especificamente por causa de sua condição sexual e, principalmente, por se assumir assim.

Mas não pensando que seria possível, Lil Nas X foi lá e fez: causou ainda mais com “Montero (Call Me By Your Name)”, que entra para a história como o primeiro Vídeo do Ano de um artista assumidamente membro da comunidade LGBTQIA+.

E a estratégia de ousar e causar funciona. Lil Nas X já deixou claro para todo mundo uma coisa: quanto mais ameaçarem a sua integridade e visão artística, mais ele vai provocar, sendo ainda mais gay nas suas propostas musicais e estéticas.

Por tudo isso… palmas lentas para Lil Nas X. Ele está escrevendo a história na nossa cara, e está se divertindo com isso.

P.S.: se o prefeito de Criciúma achou o vídeo do Criolo “sexualmente explícito”, imagina o que ele pensaria de “Montero”… hehehehe… #homofobiaécrime

 

 

 

Conclusão

São novos tempos, e tudo o que eu escrevi aqui são sinais claros que as novas gerações estão abraçando valores muito mais edificantes do que racismo, homofobia, discurso de ódio, preconceito generalizado, filosofias separatistas e superioridade por filosofias econômicas arcaicas.

As novas gerações estão dando aula de igualdade, respeito e unidade através da música. Estão mostrando ao mundo que são muito mais inclusivos e conscientes sobre a importância de estabelecer novas mecânicas e valores para o convívio em sociedade, demonstrando a sua identificação musical com essas causas.

Apesar de muita gente criticar o formato atual do VMA, entendo que isso acontece muito em partes pelo saudosismo, que é outro efeito da ação do tempo. Antes, a MTV se comunicava com a minha geração de forma direta. Hoje, se comunica com as gerações mais jovens e, de alguma forma, alcança o seu objetivo.

As redes sociais foram dominadas pelo VMA no dia 12 de setembro, e as escolhas dos vencedores refletiram não apenas a visão musical do jovem atual, mas também a forma em como eles enxergam as transformações da sociedade através da música.

E é por isso que eu ainda insisto no VMA. Por entender que posso aprender várias coisas com as novas gerações. E, a partir desse aprendizado, ter um pouco de esperança para um futuro mais promissor que o presente.


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