
O Windows é, hoje, muito mais do que um simples sistema operacional. Ele é o alicerce que sustentou o império da Microsoft ao longo de, pelo menos, quatro décadas (considerando o lançamento do Windows 1.0 em 1985). Sem ele, a empresa talvez jamais tivesse alcançado seu status atual, com um ecossistema de software e serviços que movimenta bilhões de dólares.
Ao longo das décadas, a Microsoft diversificou suas fontes de receita. Hoje, Azure, Microsoft 365, Xbox e outras soluções respondem por uma fatia significativa do faturamento. Mas o Windows ainda ocupa um papel central.
O Windows continua sendo a base para quase tudo — do pacote Office às plataformas em nuvem. É o ponto de partida da estratégia da empresa.
E é aqui que está o problema: ele deixar de ser um sistema operacional por essência, para abraçar a perspectiva de plataforma que vai impulsionar os outros produtos ou serviços.
As mudanças ao longo do caminho

Tudo nessa vida muda. Algumas coisas se transformam. E é inegável que o Windows se transformou em uma espécie de “monstro” na indústria de software.
Entre a versão 1.0 até o Windows 11, a Microsoft alternou entre acertos e fracassos com o próprio Windows. Algumas edições, como o XP e o 10, conquistaram os usuários em cheio, pois entregavam tudo o que era desejado ou necessário. Outras, como o Vista e o 8, ficaram conhecidas por decisões impopulares e interfaces controversas.
E no caso do Windows ME, é só uma grande porcaria mesmo.
Um ponto positivo é que a Microsoft, ao longo do tempo, passou a ouvir mais sua base de usuários. Os feedbacks têm influenciado mudanças importantes, seja em desempenho, segurança ou experiência visual.
A maior prova disso é o programa Windows Insider, que é (talvez) a maior plataforma de testes de softwares do mundo, permitindo que milhões de pessoas ao redor do planeta conheçam as novidades do sistema operacional de forma antecipada, em troca das informações de desempenho e identificação de possíveis falhas nos programas.
Mas nem sempre essa escuta ativa acontece — e é aí que mora o problema.
Uma vitrine para outros produtos

Durante o evento Intel Vision, o novo CEO da Intel, Lip-Bu Tan, fez uma crítica direta à Microsoft, inspirando o artigo de opinião que você está lendo: segundo ele, o Windows deixou de ser apenas um sistema operacional para se tornar uma vitrine para promover serviços como Microsoft 365 e o assistente por IA, Copilot.
Para o executivo, em vez de focar no que os usuários precisam, a Microsoft estaria priorizando seus próprios interesses comerciais, o que está causando a degradação da imagem e de desempenho do Windows.
De fato, muitas pessoas questionam até agora a inclusão do Copilot no Windows 11 e, principalmente, no Microsoft 365. No caso do pacote de escritório, a IA só foi adicionada mesmo para justificar o aumento de preços que todo mundo se viu obrigado a pagar “do nada, de repente”.
A Microsoft não se deitou para o CEO da Intel, e respondeu rapidamente. Harold Gomez, funcionário da empresa, afirmou que o Windows só se tornou especial porque a equipe nem sempre seguiu a vontade dos usuários. Em vez disso, teria feito “o que era certo”.
A tentativa de justificar essa filosofia foi desastrosa, já que o conceito era melhor na cabeça do executivo do que depois que saiu da boca dele.
Gomez usou o Windows 8 como exemplo. Segundo ele, os designers da época confiaram em sua intuição para criar algo “inovador”. O resultado foi um dos maiores fracassos da história da empresa.
O Windows 8 afastou milhões de usuários, desestabilizou o ecossistema da Microsoft e culminou na saída de Steven Sinofsky, um veterano com mais de duas décadas na empresa e responsável direto pelo sistema.
Por mais inovador que o Windows 8 fosse (e, acredite, eu entendi o que a Microsoft tentou fazer nesse caso – se antecipar ao futuro, acreditando que todos usariam computadores com telas sensíveis ao toque), a gigante de Redmond se esqueceu de combinar isso com quem mais importa: o usuário.
Estamos em 2025, e a presença de computadores com telas touch é considerada residual. Poucos fabricantes apostaram nesse elemento de interação com o Windows, e com exceção da própria Microsoft com o Surface (e, mesmo assim, esse não é o mote principal da empresa para vender o produto), praticamente nenhum fabricante seguiu insistindo nesse formato.
Na prática, a Microsoft cometeu o erro grosseiro de impor mudanças sem considerar o impacto real sobre quem usa o produto diariamente.
A rejeição ao Windows 8 foi um alerta claro — mas será que a empresa aprendeu com isso?

Não dá para ter certeza, pois é exatamente a mesma coisa que a mesma Microsoft está fazendo neste exato momento, ao enfiar o Copilot goela abaixo de todo mundo, sem tornar o recurso relevante ou integrado ao Windows como complemento, e não com papel de protagonismo.
Com o Windows 10, a Microsoft mostrou sinais de aprendizado. O sistema foi bem recebido, equilibrando inovação com familiaridade.
Já o Windows 11 chegou cercado de desconfiança, mas surpreendeu positivamente. Após mais de um ano de uso, muitos usuários — antes céticos — relatam uma experiência estável e eficiente.
E o Windows 11 não foi uma unanimidade histórica. Só agora, com a morte mais do que confirmada do Windows 10 (que perde suporte em agosto de 2025), a mais recente versão do sistema operacional da Microsoft ganhou a preferência do grande público.
Paira no ar a sensação de que a Microsoft caminha numa linha tênue entre inovação genuína e decisões comerciais que nem sempre beneficiam o usuário final. O desafio está em encontrar esse equilíbrio: evoluir sem perder a confiança de quem usa o sistema todos os dias.
E evoluir não é “forçar a barra” de uma inovação que ainda está em desenvolvimento, ou totalmente desalinhada com o que o usuário quer.
Entendeu, dona Microsoft?
