Compartilhe

Mãe… olha pra mim!

Na verdade, me deixa olhar para você. E assim, me veja. Olhe bem fundo nos meus olhos. Pois preciso te dizer tanta coisa, que algumas delas você só vai entender através do meu olhar. Meu olhar aprendeu a dizer as verdades do meu coração com você, que sempre teve um olhar que fala mais do que mil palavras.

Eu não escolhi Roberto Carlos hoje por obra do mero acaso. Eu sei que você adora. E, em especial, essa canção fala muito de como eu te vejo hoje. Mais: fala em como eu me vejo em relação à você. Em parte do homem que eu me tornei, e em como eu te sinto perto de mim, mesmo distante.

Talvez na minha inconsequência infantil de querer viver uma vida perfeita, eu pensei que tudo na vida adulta seria perfeito. Deveria ter aprendido com você antes: depois de tanto ver que nem você era perfeita, eu poderia ter aprendido com suas imperfeições, e aprender a ser um imperfeito feliz. Hoje, eu compreendo que nada é perfeito, que você fez o que pode para cuidar de mim e, entre erros e acertos, me ama da melhor forma possível.

Hoje, eu abraço minhas imperfeições para crescer e aprender. Hoje, abraço meus erros para evoluir. Hoje, vejo seus erros para comigo como as tentativas de aprender a amar, que eu mesmo já cometi com outras pessoas. E ter a consciência disso me fez um bem danado. Me fez te amar de forma ainda mais sincera e intensa.

Eu sei que causei muitos problemas. Hoje, causo bem menos. Sei que hoje você tem seus problemas mais sérios do que simplesmente tomar café escondido ou colocar fogo no quarto. Mas fico feliz por eu hoje ser um motivo para você sorrir. Eu sinto que finalmente consegui o que eu sempre quis: que você tivesse orgulho de mim, e do homem que eu me tornei.

Mãe… olha para mim! Olha bem no fundo dos meus olhos!

Perceba como o meu olhar mudou. O meu olhar de angústia e tristeza foi embora, e hoje se enche de esperanças incontidas de dias melhores. A esperança de que a melhor forma de se viver é mesmo no tempo presente, sem carregar o peso do passado, e sem planejar demais o futuro. Eu tenho fé no futuro sim, mas não quero mais viver nele. Pois o futuro não existe.

Olha para mim, e veja como eu cumpri com a promessa que fiz para você antes de ir embora. Eu sou feliz! Tenho problemas e dificuldades como todos nós temos, mas eu vivo uma vida plena. Tenho pleno controle do meu futuro, aprendi a dizer mais vezes a palavra NÃO e estou muito mais confiante de que posso fazer o que eu quiser.

Mãe… só é feliz quem tem esperança no presente e liberdade para buscar essa felicidade.

Eu me lembro sim do passado, mas não me prendo mais à ele. As dores que causamos, as perdas, as desilusões… ficaram para trás. Trago em meu coração as boas lembranças do passado, os bons momentos e, principalmente, os motivos que me levam a seguir em frente. Sempre. Sem desistir.

Hoje, vivemos fisicamente distantes. Não posso te ver ou falar com você todos os dias. Porém, é como sempre me disseram: “a distância aproxima as pessoas”. Nunca me senti tão próximo de você como nos últimos dois anos. Eu sinto sua falta sempre, e sei que faço falta ao seu lado. Você me faz falta nos meus momentos de indecisão, em quando tomo decisões equivocadas, em quando vacilo antes de dar um passo.

À mim, só me resta vencer as minhas inconstâncias e me atirar no vazio, esperando que a decisão que tomei foi a melhor. E assumir as consequências de tudo. Mas tendo em mente que eu não posso te decepcionar.

Mãe… olha pra mim! Eu estou aqui, ao seu lado.

Eu não sei por quanto tempo mais poderei dizer essas palavras para você. Nem sei se precisava dizer isso. Acho que você pode nesse momento ver em meu olhar o que quero dizer.

Mas sei que, no seu aniversário, eu só posso afirmar que, independente de qualquer coisa, você é quem estará na minha caminhada até o final da minha estrada. De novo: diante das imperfeições estabelecidas ao longo da jornada, as lições de vida mais preciosas eu aprendi com você. Eu sou eternamente grato por me manter vivo. Não existencialmente, mas por me motivar a ter um motivo para seguir vivendo. Para acordar todos os dias. Para lutar para ser feliz.

E… no dia em que eu não puder mais olhar nos seus olhos…

…eu vou pedir que você olhe para mim, de onde estiver.

Mãe… feliz aniversário!



“Olha”
(Roberto Carlos, Erasmo Carlos)
Roberto Carlos, 1975


Compartilhe