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Para a Claudinha, “filha” da Ilha, herdeira do Rancho, quem veio de fora da ilha é “oportunista”. E ela está irritada com isso. Estava tão “de saco cheio” (palavras dela), que foi no Facebook e mandou um “nunca vi uma cidade tão oportunista”, alegando que eles, os de fora, são os “oportunistas”.

Eu sou o cara de fora. Cheguei na cidade em fevereiro de 2018. E recebo a culpa de uma disputa histórica entre os “filhos da Ilha” e “a turma que veio de fora”.

Detesto ter que voltar nesse tema. Mas a Claudinha me obrigou.

Talvez a Claudinha se esqueça (mais uma vez) que não existe lei que impeça “a turma que veio de fora” a viver na Ilha. É claro que “a turma que veio de fora” é parte de um problema que é muito maior do que eu e a Claudinha. Problema esse que, na verdade, pouco ou nada tem a ver com a origem do indivíduo, mas sim com um coletivo que tem muito o que aprender.

Mas como “a culpa é de quem veio de fora”…

Na verdade, ela tem razão.

Olhando para um sentido mais amplo, se o Brasil está essa b*$#@ que está, a culpa é dos portugueses que vieram para cá. Em boa parte, a escória de Portugal. Pessoas da pior estirpe, que deixaram por aqui o DNA de corrupção e safadeza que permeia o povo brasileiro até hoje. Por isso, sou a favor em devolver a terra para os índios.

Mas como os portugueses que aqui chegaram trouxeram o “progresso” em forma de espelho, tecido e bispos estuprando as índias, se eu ousar propagar essa minha teoria insana nas redes sociais, eu sou acusado de xenofóbico.

Porém, Claudinha, como “filha” da Ilha, tem o direito de rotular “quem veio de fora” como “oportunista”.

Aí, entra o outro lado da questão.

Quem veio de fora trouxe muitas coisas boas e ruins para a Ilha. De novo: não estou aqui eximindo a turma “que veio de fora” como parte dos problemas que são típicos de toda cidade que cresce porque é linda, atraente, e é uma capital do estado. Porém, olhando de forma mais fria e desprovida de sentimentos… sem “a galera que veio de fora”, a Ilha não teria o progresso que recebeu.

Sem os turistas, a Ilha simplesmente morre.

Sinceramente? Me cansei da hipocrisia de alguns “filhos da Ilha”.

Nós, “a turma que veio de fora”, já encontramos uma Ilha onde todos são obrigados a passar pelo mesmo caminho para chegar aos pontos mais afastados da cidade, um centro comercial caótico para transitar, o absurdo de não ter um transporte fluvial (e, ironicamente, moramos em uma região litorânea), uma Ponte Hercílio Luz que ficou em reformas por quase três décadas (e os “filhos da Ilha” não falaram nada), pontes que não são reformadas nunca, asfaltos esburacados, falta de planejamento para o consumo de água (vamos enfrentar racionamento, sabia?), falta de visão de futuro, entre outras coisas.

Outra coisa: tem muita gente da “turma que veio de fora” que procura promover o progresso da Ilha, com suas habilidades, recursos e, principalmente, visão mais ampla do mundo ao seu redor. Algo que falta para algumas pessoas que sempre viveram na Ilha e, insisto, permanecem com “visão de Ilha”. Aquela coisa do “eu sempre vivi aqui, logo, o meu mundo é aqui, e não existe mais nada além daqui”.

Não dá para colocar a culpa em quem tem uma visão de mundo mais ampla e aproveita as oportunidades que aparecem apenas porque você não enxerga mais nada além do mar e das montanhas na sua frente.

Entendeu, Claudinha?

E, até onde eu sei, os representantes do povo, políticos nos cargos mais importantes, não são “da turma que veio de fora”. São desse estado. Um dos senadores, um velho cacique político, criou a sua carreira na Ilha. E está lá. Foi eleito pelo coletivo.

Por que a culpa não é dele, é minha, que cheguei na Ilha no ano passado?

Quando questionei sobre a xenofobia de Claudinha, fui bloqueado por ela no Facebook. A mesma Claudinha que pregava a morte de quem pensava diferente dela nas questões políticas. A mesma Claudinha que veio reclamar de mim quando ofendi aqueles que queriam me expulsar da Ilha por reclamar dos problemas da Ilha.

Não é uma surpresa descobrir que Claudinha é assim. Afinal, ela é “filha” da Ilha.

Seria bem mais legal que ela continuasse a ser filha do pai dela. Ele sim é o cara que merece o respeito de todos. Inclusive o meu. Ele fez com que eu amasse a Ilha através de uma canção.

O pai dela é que é o filho da Ilha mais conhecido (sem aspas). Ela, não.


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