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Sinto minhas folhas ardendo em brasa. Sinto o cheiro de fumaça. Sinto até os animais correndo, tentando escapar de toda essa destruição.

Abro os olhos, acreditando que estava em um pesadelo durante um momento de descanso. Na última vez que eu fechei os olhos para descansar, eu só queria acompanhar o sono do homem que decidiu repousar por algumas horas debaixo da minha sombra, apoiando a cabeça entre os meus troncos e minhas raízes.

Agora, testemunho um pesadelo que é tão real, que me traz dor. Aquele mesmo homem o qual acreditei que estava confiando em mim o seu descanso sagrado, nesse momento quer me destruir. Quer destruir as minhas irmãs também, e da forma mais violenta possível.

Sou queimada como Joana d’Arc foi na Revolução Francesa. E a parte mais triste de tudo isso é que Joana, a Francesa, ainda podia correr, porque tinha pernas. Ou até mesmo gritar, porque tinha boca. Já o meu grito desesperado fica aprisionado em meu próprio corpo, e minha última esperança é crer que almas sensíveis vão ouvir o desespero da minha alma.

Nem mesmo correr eu posso. Minhas raízes pertencem ao solo da Amazônia. Meu tronco é dessa terra. E, por amar essa terra, eu prometi a mim mesmo que eu não a abandonaria. Independente das ameaças. Especialmente se tudo estiver em chamas.

A fumaça das chamas das minhas folhas em brasa estão me intoxicando. Ou seja, não basta eu morrer queimada. Eu preciso ser asfixiada pela ganância humana. Vivo o meu Holocausto Selvagem, o meu Apartheid “Ecológico”. Que irônico… os humanos se esquecem de mim e falam de preservação ambiental como se estivessem falando de banalidades políticas.

Na prática, é isso o que está acontecendo. Mas eu não posso expressar o que eu penso nesse momento. Meus galhos estão em chamas.

Não tenho o direito de chorar a dor da minha morte. Não tenho o direito de expressar o meu desespero por ser destruída. Nem posso ficar indignada por não ter o direito à defesa ampla e irrestrita. O que estão fazendo comigo e com as minhas irmãs é uma violência sem precedentes, uma crueldade atroz.

Eu vou morrer. Calada. Sofrendo em silêncio.

O que me consola é que a mãe maior, a Mãe Natureza, aquela que nunca me abandonou quando recebi a nobre missão de ajudar o mundo a respirar, ajudar a levar chuvas para locais distantes, oferecer sombra aos cansados trabalhadores e mostrar para as crianças que o verde é a cor da esperança… essa mãe não vai me abandonar.

A Mãe Natureza vai falar por mim. Aliás, já está falando. Todo um ecossistema mudando, com estações do ano descontroladas, aquecimento global e eventos climáticos ativos.

Humanos… se eu fosse uma de vocês, eu não tentaria provocar a ira da minha Mãe. Conselho de amiga. E, se vocês pudessem me ouvir, além dos meus gemidos de dor e gritos de desespero, vocês também poderiam ouvir, em alto e bom som…

“A minha Mãe está furiosa com vocês… e ela vai se vingar…”

Estou perdendo as forças. Meus olhos vão se fechar novamente, e acredito que será pela última vez. Mas antes, observo mais uma vez o cenário de destruição ao meu redor. O som da madeira queimando vai dando lugar a um silêncio ensurdecedor, que transmite a sensação de medo e destruição. A fumaça das minhas folhas queimando me envenenaram com uma potência ainda maior que os agrotóxicos liberados ao longo de todos esses anos.

Se for possível, tenho um último pedido…

Podem levar a minha madeira, o meu tronco, os meus galhos… porém, por misericórdia, deixem as minhas raízes no solo amazônico. Ainda quero sentir a minha alma no local que tanto amei e defendi.

Só assim tenho a certeza que ao menos vou descansar em paz.


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