
De novo: é muito mais fácil culpar os outros pelos fracassos que você produziu. E culpar a imprensa é o escapismo preferido de muita gente.
Tony Vinciquerra, que é CEO da Sony Pictures Entertainment em 2017, decidiu compartilhar suas reflexões sobre a sua gestão, enquanto se prepara para deixar o cargo em 2 de janeiro de 2025.
Para o Los Angeles Times, ele falou sobre tudo o que fez para tentar revitalizar a empresa. E decidiu transferir para a imprensa o fracasso de filmes como ‘Madame Teia’ e ‘Kraven o Caçador’.
Pois para Tony, os filmes não são ruins.
E eu não coloquei aspas na frase dele, pois essa não foi uma declaração irônica.
A Sony estava desse jeito antes do Tony chegar
Quando Tony Vinciquerra chegou na Sony Pictures, a empresa ainda se recuperava daquele gigantesco vazamento cibernético de 2014, que expôs informações confidenciais sobre projetos futuros e questões internas.
O vazamento prejudicou a reputação da Sony em níveis sensíveis, resultando em perdas financeiras e um cenário de crise, o que levou à reavaliação de gerenciamento que Tony teve que liderar.
Nota do editor: aceitou o posto de CEO porque quis.
A divisão cinematográfica da Sony estava em queda livre, com a matriz japonesa, Sony Corp., registrando um prejuízo quase bilionário meses antes da chegada de Vinciquerra.
Na época, os japoneses consideraram vender a divisão de entretenimento da Sony, algo que a Marvel levantou os olhos para adquirir novamente os direitos do Homem-Aranha.
Então, Tony viu na crise uma grande oportunidade para melhorar o desempenho financeiro e operacional da empresa.
O que Tony fez para tentar salvar a Sony

Vinciquerra identificou que a Sony possuía uma combinação única de ativos (cinema, música, PlayStation) que não estavam sendo utilizados em sinergia. Ele buscou integrar esses recursos para maximizar o potencial criativo e comercial da empresa.
Em vez de seguir a tendência de lançar um serviço de streaming como seus concorrentes, ele decidiu que a Sony deveria se posicionar como fornecedora de conteúdo para outras plataformas, aproveitando sua vasta biblioteca de filmes e programas.
Sob sua liderança, a Sony revitalizou algumas de suas franquias consideradas icônicas pelos fãs, incluindo “Jumanji” e “Bad Boys”, que receberam reboots ou remakes.
Sem falar na expansão do universo do “Homem-Aranha” em diferentes frentes, com os ótimos filmes de animação, a parceria com a Marvel para o personagem principal, e o universo compartilhado de filmes com os vilões do teioso.
E foi nessa última parte que a Sony do Tony ferrou com tudo. E ele ainda quer culpar a imprensa por esse fracasso.
As desculpas do Tony para tudo dar errado

Tal e como fez várias outras empresas do setor de entretenimento, a Sony Pictures justifica o fracasso dos seus filmes nos impactos causados pela pandemia da COVID-19, que interrompeu produções e reduziu receitas.
As greves recentes na indústria do entretenimento também entraram na equação, já que oferecer condições justas de trabalho para atores e roteiristas é algo fora de cogitação para empresas que visam o lucro.
E cogitar utilizar a inteligência artificial em escala industrial para substituir profissionais humanos sob o pretexto de “precisamos cortar custos para essa indústria sobreviver” é uma “excelente forma de gerenciar uma crise” #SóQueNão #AgoraTemIronia
Mas… vamos falar do universo compartilhado dos vilões do “Homem-Aranha”?
Para o Sr. Tony Vinciquerra, filmes horrorosos como “Madame Web” e “Kraven o Caçador” são, na verdade, bons filmes. E ele culpa a imprensa por uma suposta campanha de depreciação desses filmes.
Palavras do Tony para o L.A. Times:
“Vamos falar um momento de ‘Madame Web’. Ela teve uma baixa performance nos cinemas porque a imprensa a crucificou. Não foi um filme ruim, e funcionou muito bem na Netflix. Por alguma razão, a imprensa decidiu que ele não queria que fizéssemos aqueles filmes de ‘Kraven’ e ‘Madame Web’, e os críticos os destruíram. Eles também fizeram isso com ‘Venom’, mas o público adorou e fez com que fosse um enorme sucesso. Não são filmes terríveis. Eles foram simplesmente destruídos pelos críticos na imprensa, por alguma razão.
Pelo amor de Deus!

A trilogia “Venom” deu sim bilheteria para a Sony, mas só sobreviveu por causa do desejo mórbido da audiência pelo bizarro. As pessoas viram os filmes pelos memes.
“Morbius” é uma “obra prima” da desgraça. Jamais esqueceremos o Jared Leto fazendo um personagem que é a cara dele: com uma personalidade perturbada e esquisita.
“Madame Teia” é simplesmente horrível na produção e na estrutura narrativa. É uma das coisas mais constrangedoras que o cinema produziu em sua história.
E “Kraven o Caçador” pode até ser considerado uma vítima de um universo que só entregou merda. Ele fecha essa proposta falida com uma bilheteria pífia de US$ 11 milhões em todo o mundo, mas muitos dizem que “não é tão ruim quanto os outros” (mas é ruim).
Sinceramente? Tony só está certo se ele considerar o público que assistiu a esses filmes como “imprensa especializada”. Pois nem precisou de um Omelete da vida para que esses projetos fossem considerados horrorosos pela audiência.
Quem assistiu sabe muito bem que a Sony entregou um mar de ruindade recheada de vilões do Homem-Aranha que ninguém se importa.
O legado do Tony
Vinciquerra expressa orgulho em ter ajudado os funcionários a se desenvolverem em suas carreiras e acredita ter deixado a empresa em uma posição melhor do que quando chegou. Ele enfatiza que seu objetivo sempre foi consertar problemas e melhorar as operações.
Poucas pessoas conseguem ver a Sony hoje muito melhor do que estava, mas quem sou eu para contrariar a visão desse homem sobre ele mesmo?
Ravi Ahuja, atual COO da Sony Pictures, assumirá o cargo de CEO após a saída de Vinciquerra. Ahuja já está bem posicionado dentro da estrutura da empresa e é visto como um líder capaz de continuar o trabalho iniciado por Vinciquerra.
Boa sorte pro Ravi. Ele vai precisar.
