Compartilhe

O que é que eu vou dizer para vocês hoje?

Seria uma grande mentira se eu dissesse que estou 100% tranquilo. Ter um frio na barriga é parte de todo o processo. Mas… de forma surpreendente, eu estou mais feliz do que eu acreditava que estaria em abril de 2019, quando eu decidi ingressar nesse grupo.

Engraçado… eu sempre conversei sobre isso com a Lourdes Pessini, entendendo que entrar na ACF seria um enorme choque cultural. Sinceramente? Não estava nos meus planos participar desse coral. Minha vida musical em Florianópolis estava consolidada, e minha agenda totalmente preenchida.

Porém… alguma coisa me trouxe até aqui. Na verdade, várias coisas. Várias pessoas, acontecimentos… capítulos escritos nas páginas da minha intensa jornada.

Tudo começou mesmo com a Lourdes Pessini, que me convenceu a vir para Florianópolis depois de reconstruir parte da minha vida no Paraná. Foi ela que me convenceu que o meu lugar era aqui, que existia um espaço a ser preenchido no cenário de canto coral, e que esse espaço era meu.

Portanto, para aqueles que em algum momento torceram o nariz comigo, por qualquer motivo… podem começar a culpá-la pela minha existência na ACF.

Não só isso. O Coral Encantos também fez com que eu chegasse até vocês.

Eu sempre procurei cantar em mais de um coral para o meu crescimento técnico. Nunca gostei de fazer apenas uma única coisa em música. E por entender que eu precisava de um pouco mais na vida, eu busquei outros grupos. Porque o Encantos não era o suficiente.

Não deu certo no Coro Lírico Catarinense, que encerrou as suas atividades.

No Coro Ítalo, ao menos uma coisa deu certo: Ana Aquini.

Ela buscava o novo na vida dela. Namorou a ACF nos últimos anos, mas precisava de um forte motivo para abandonar o vínculo de 14 anos com o Coro Ítalo para iniciar uma nova fase nos seus anseios de cantar em grupo. Muitos me acusam de incentivar a saída dela daquele coral. Até pode ser verdade. Mas fato é que sempre achei Ana Aquini brilhante e genial demais para aquele grupo.

Ela precisava de algo mais.

Ana Aquini precisava de vocês. E vocês precisam da Ana Aquini.

Podem acreditar em mim. Ou não acreditem, se quiser. Mas eu sei que estou falando a verdade.

Aliás… Lourdes e Ana… que dupla!

As duas nunca deixaram de acreditar que eu um dia conseguiria entrar no Polyphonia Khoros. Algo que, para mim, se tornou distante quando eu vi o gabarito técnico das pessoas que lá cantam. Mas as duas me convenceram que eu não poderia desistir sem pelo menos tentar.

Eu tentei. A Dona Mércia me ouviu rouco na primeira semana. Voltei na semana seguinte com voz saudável.

Nas duas vezes, foi Guilherme Albanaes, hoje regente da Associação Coral de Florianópolis, que tocou as duas peças que eu cantei nas audições. Ele não sabe (vai saber agora), mas apesar de parecer meio distante conosco no PK, eu sempre tive a consciência que ele exigia de nós aquilo que era necessário para entregar a qualidade técnica que aquele coral possui.

Para mim, é uma honra estar no Polyphonia Khoros, o melhor coral de Florianópolis. E essas pessoas que eu mencionei acima me ajudaram a chegar lá, de alguma forma.

O sarau da ACF no final de março de 2019 aconteceu dias antes que eu realizasse um sonho: ouvir Paul McCartney cantar. Talvez eu estivesse mais sensível naquela noite, mas o que eu consegui assimilar das peças executadas pelo coral chegaram no meu coração como empatia, harmonia e, principalmente, o desejo de realizar o novo.

Não estava nos meus planos entrar na ACF. Mesmo. Mas… eu precisava retribuir o que as pessoas citadas nesse texto fizeram por mim.

A Lourdes Pessini se entusiasmou com vocês, e queria participar. E ficou insistindo para que eu entrasse porque “seria mais divertido se eu estivesse no coral” (eu não entendo de onde ela tirou essa ideia absurda, mas é real). E eu sou tão grato à ela por me incentivar a mudar tantas coisas na minha vida e em tão pouco tempo, que eu não podia dizer não.

A Ana Aquini namorou a ACF por anos. Recebeu cantadas de coralistas daqui (né, Marcos?) para que ao menos fizesse uma vez por semana os ensaios. Até o Tibe Laus queria ela aqui antes.

Mas o tempo, sempre ele, mostrou qual era o momento certo. Ela se apaixonou por vocês no sarau de março, e queria a minha companhia para não se sentir sozinha. Mal ela sabia que ia encontrar o naipe de contraltos mais divertido que eu vi na vida. Porém, sem a Ana, eu não teria entrado no Polyphonia Khoros. Sem a Ana, eu não teria a coragem de enfrentar os desafios que vieram depois. E por ela sempre acreditar que eu poderia ir além aqui em Florianópolis, eu não podia dizer não.

Sobre o Guilherme, eu entendo que a ACF é um desafio. A responsabilidade em conduzir um dos corais mais tradicionais de Florianópolis só pode ser dada para os fortes. E o Guilherme é um cara mentalmente forte. Logo, eu só queria ajudar nesse momento de reformulação musical do coral. Era uma forma de retribuir o que ele fez por nós no Polyphonia Khoros como preparador vocal. Ele não sabe (de novo, vai saber agora), mas fez com que recobrasse em mim a convicção do desafio apresentado por uma partitura. Mesmo porque as óperas são apenas para os fortes.

Eu não podia dizer não. Porque eu também adoro um desafio.

Hoje, eu estou na Associação Coral de Florianópolis para cantar com vocês os 59 anos de história de um grupo que, de forma surpreendente, me recebeu muito bem. Independente das diferenças que existem nas relações interpessoais e visões de mundo, eu consigo ver em cada um de vocês algo que é fundamental para o trabalho de canto coletivo: o amor à música. Eu sei, estou dizendo algo óbvio para muitos de vocês. Mas é importante que vocês saibam que eu sempre vou respeitar e admirar essa característica para qualquer cantor.

Mais do que isso. Encontrei em vocês sorrisos abertos, risadas animadas, abraços fraternos. Identifiquei em alguns olhares sentimentos que palavras não poderiam traduzir tão bem. Tudo isso me surpreendeu, pois muitos de vocês enxergaram em mim alguém que poderia somar. E não o cara que estava chegando do Encantos e do Polyphonia Khoros para bagunçar tudo.

Hoje, além de parabenizar os cantores da ACF pelo concerto de 59 anos, eu tenho muito a agradecer. Por coisas que eu não esperava receber. Nem de vocês, nem de outro grupo de canto coral que participei aqui em Florianópolis.

Obrigado por me receberem como integrante desse coral. Obrigado por suportarem a minha impulsividade disfarçada de desejo em contribuir para o novo. Obrigado por valorizarem o meu potencial técnico. Obrigado pela abertura oferecida pelo Vitor para ajudar efetivamente na expansão da visibilidade desse coral.

Mas, principalmente… obrigado por fazerem com que hoje eu me sinta em casa em Florianópolis. Finalmente! Vocês me convenceram que Floripa é a cidade que eu escolhi viver.

Quero que vocês saibam que, independente de qualquer convicção pessoal, desenvolvi em cinco meses uma admiração pela coragem que esse grupo tem em querer fazer música, apesar de todas as dificuldades implícitas no processo. Esse mesmo tempo fez com que algumas estigmas previamente estabelecidas sobre esse grupo desaparecessem, felizmente. É claro que algumas impressões foram mantidas, mas acreditar que o novo sempre vem para transformar e reinventar qualquer elaboração coletiva me entrega a paciência necessária para trabalhar as diferenças estabelecidas.

E aprender sempre com essas diferenças.

Eu aprendo muito com vocês. Ensino algumas coisas para vocês, eu sei. Mas a minha alegria é sentir que estamos crescendo juntos.

59 anos? Cinco meses? O tempo é tão relativo. Certo?

Um grande concerto para todos nós.

Abraços a todos (beijos para as meninas, é claro).


Compartilhe