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Poderia ser apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco. Mas…

Meu coração é selvagem.

Mais uma vez me encontro a 100 quilômetros por hora, refletindo sobre os caminhos que decidi tomar em minha vida. Vendo as paralelas do tempo se traçarem em decisões, em alta velocidade. A velocidade que eu teimosamente escolhi para viver.

Mais uma vez, desperdiçando a paisagem que passa.

Eu olho para as paralelas que se apresentam. Elas não são traçadas pelo destino, porque eu já disse que o destino é algo que nós mesmos criamos. As paralelas são as estradas de outras pessoas. Outros seres que buscam o seu lugar ao sol. Que buscam se encontrar. As jornadas cotidianas se tornam buscas desvairadas pelo autoconhecimento, ao mesmo tempo que rumam pelo desconhecido, em uma jornada que pode ser surpreendentemente interessante para aquelas pessoas que possuem a mente aberta e o coração tranquilo.

Eu busco essa tranquilidade. Pois minha mente sempre esteve aberta.

Nunca me fechei para as novidades. Nunca me fechei para o novo, para a possibilidade de aprender algo novo. E, recentemente, aprendi o quão valioso é aprender com as paisagens na beira da estrada. Engraçado… eu já disse que estava a 200 quilômetros por hora. Hoje, estou a 100…

Será que estou aprendendo?

Será que aquelas valiosas lições de olhar a vida mais devagar, de aprender com o olhar das pessoas, com a calmaria da natureza e com a simplicidade dos mais humildes que tanto preguei em “Tocando em Frente” começa finalmente a ser assimilada por mim? Será que finalmente vou compreender em como devo realmente receber o tempo como o melhor amigo para as minhas decisões mais sábias?

Eu não sei! Realmente não sei!

Não saber pode ser uma dádiva, pois é sinal que sempre vou ter o interesse em aprender, em compreender o que está acontecendo. Em compreender o novo e o seu agente de mudança no mundo em função do tempo.

Por outro lado, isso me angustia. Porque tenho pressa em identificar o que está errado, modificar aquilo que posso, melhorar nos pontos mais críticos. E prosperar, diante de cada uma das dificuldades.

Eu ainda ando a 100 quilômetros por hora.

Fico sempre alerta aos faróis que surgem na estrada. Confundo às vezes com os olhares das pessoas que mais amo. Aqueles olhares vibrantes, que em alguns momentos se mostram suplicantes por uma palavra amiga. Já em outras vezes se mostram decepcionados com a verdade dita. Sabe… eu quero sempre poder dizer a verdade, custe o que custar. Mas também conviver com o silêncio de quem não sabe ouvir as mesmas verdades.

Eu paro o carro. Desço. E abre os braços.

Sinto o mar na minha frente. Revolto, intenso. Respiro aquele ar molhado, típico da maresia, buscando sentir a natureza entrando pelos meus poros. Busco sempre contrariar a minha alma envelhecida com processos de renovação interna. Procuro despertar em mim uma alma rebelde, para que eu não deixe minha mente travada, meu corpo cansado, e meu coração endurecido.

Meu coração é selvagem. Meu coração é jovem. Bate pulsante e se emociona com o ronco do motor. Meu coração não pede a calmaria do silêncio. Pulsa ao ritmo de todos os desejos e anseios daquele que ama intensamente os amigos, os amores. A vida. A minha vida. O pulsar do meu coração traçam as próprias paralelas de um ritmo frenético de quem tem a fome de viver com o calor das alegrias humanas, sem desperdiçar o desejo de seguir assimilando os valores que me levarão mais adiante na estrada.

Uma estrada que cada vez mais se torna mais difícil de caminhar, de ver o caminho de volta. De olhar para as placas, para as luzes dos carros. Para as pessoas acenando com alegria na chegada, ou enxugando as lágrimas nas despedidas. É realmente uma crueldade essa história de viver com pressa e não olhar para os detalhes da estrada. Mas… eu começo a ver melhor. É sinal que estou aprendendo.

E envelhecendo.

Eu estou envelhecendo. Mas quero envelhecer com o desejo de gritar ao mundo que, dentro de mim, ainda vive uma alma rebelde, pronta para revolucionar. Para virar a mesa a qualquer momento. Alguém disposto a sair da zona de conforto sempre e quando for necessário. Tudo para não mais ficar em um lugar onde o novo não chega. Tudo para não mais impedir o meu crescimento.

Tudo para ser feliz.

Eu faço qualquer coisa para ser feliz.

Inclusive esperar por alguém que faria qualquer coisa para ser feliz ao meu lado.

As paralelas da minha vida não se cruzam. Eu traço a minha linha sem me fundir com a linha do tempo de outro alguém. Cada qual tem a sua jornada a cumprir, os seus desafios a vencer, a sua escada para subir. Porém, com a convicção de quem quer aprender com o subir da escada do outro, eu olho sempre para o lados, observando cada passo. E até reproduzindo o passo do outro.

Porque nas minhas paralelas estão a soma de tudo o que vi, vivi e aprendi. Comigo e com aqueles que marcaram minha vida.

Se algum dia a minha paralela caminhar com a sua, o meu conselho é: cuidados nas curvas, e deixe se levar pelas retas. Em alta velocidade? Quem sabe. Mas recomendo que não repita o meu erro de não olhar para os lados.

Além das placas, você verá belas paisagens, olhares lindíssimos e mãos estendidas, prontas para segurar a sua, com o desejo maior de te ajudar a chegar a algum lugar.

Enquanto isso, eu sigo na estrada. Traçando minhas linhas. Buscando as paralelas da minha existência.

Até porque…

…eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco.

Com um coração selvagem.

Refletindo em mal traçadas linhas a perversidade de ter um coração juvenil, que constantemente entra em embate com uma alma envelhecida.

Belchior vai fazer falta. Muita falta.

Cantou a essência humana como todos. É um dos compositores modernos mais criativos e conceituais que o Brasil já teve. Imagino o quanto perdemos como cultura ao perder o autor de tão inteligentes metáforas cotidianas.

Ao mesmo tempo, compreendo que é mais um que fez a diferença no seu tempo. Registrou seu nome na história ao traduzir as jornadas do homem como poesias musicadas com profundidades singulares.

Belchior é mais um que vai se tornar eterno através da música. É mais um que mudou a vida de muita gente, através de sua visão do mundo.

Poucos conseguem isso. E feliz daqueles que podem reconhecer a preciosidade de sua obra.

Eu sou feliz por ter aprendido com a poesia de Belchior.



“Paralelas”
(Belchior)
Belchior, 1977


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