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Era uma vez uma professora. Uma professora muito especial. Uma professora que, para mim, é mestre.

Essa professora me conhece desde os 11 anos de idade. Me deu aula da quinta série do ensino fundamental, até o terceiro ano do ensino médio. Depois disso, seguiu acompanhando minha vida. Não se perdeu de vista. Cantamos juntos em um dos corais da minha cidade natal por mais 15 anos. É alguém que me orgulho muito de ter conhecido. Pessoas como ela são especiais. Iluminadas. Únicas.

Uma mulher de inteligência única, com uma capacidade de raciocínio para poucos. Ela tinha prazer em ensinar. Cumpria com a missão de ensinar a boa leitura e a boa escrita com excelência. Dedicada, aplicada, exigente.

Ela foi a professora que fez com que eu chamasse qualquer um que tivesse essa profissão como opção de vida como “professor(a)”, antes de qualquer coisa. Por causa dela, eu entendo que essa é uma das profissões mais nobres. A responsabilidade que esse profissional possui sobre os ombros é enorme. Depende dele instruir pessoas para que elas tenham as ferramentas básicas para serem bons profissionais, e contribuírem com o progresso da sociedade como um todo.

Porém, os mestres conseguem ir além.

Conseguem fazer com que o aluno pense fora da caixa. Conseguem despertar no aluno o desejo pela pesquisa, de não se limitarem ao que foi ensinado na sala de aula. Ela é uma dessas pessoas. E se manteve mestre para mim mesmo depois que nós dois deixamos a sala de aula.

Mesmo em 15 anos de atividades nos corais, sempre chamei ela de “professora”, apesar dela insistir que a chamasse pelo primeiro nome. Nos tornamos amigos e confidentes ainda quando estávamos em sala de aula. Tenho muito orgulho de dizer que em mim ela via alguém em quem pode confiar, que não iria traí-la no primeiro desencontro da vida. E tenho muita alegria em dizer que é nela em quem confio alguns dos meus segredos mais profundos, já que em momentos importantes da minha vida ela estava lá para me dar o seu apoio.

Mas… o que a obra de Tom Jobim tem a ver com tudo isso?

Em 1985, quando eu tinha seis anos de idade, a Rede Globo exibiu a sua mais audaciosa minissérie até então: “O Tempo e o Vento”, baseada nas obras de Érico Veríssimo. O tema de abertura dessa produção era uma versão incidental da música “Passarim”, composta por Tom Jobim. Eu assisti essa minissérie na íntegra, apesar da mesma ser exibida em horário relativamente tarde (para alguém que tinha que acordar cedo no dia seguinte para ir para a escola). E eu assisti essa série por causa dessa música de abertura.

Através de “O Tempo e o Vento”, eu pude conhecer as obras de Érico Veríssimo e, nesse caso, testemunhar uma das melhores histórias de nossa literatura. Esse tema musical me trazia um sentimento de nostalgia incomum, vinda da beleza de sua genial harmonia e de sua letra passional. É, sem dúvida, uma das melhores músicas do já impressionante acervo musical de Tom Jobim.

Anos se passaram…

Em uma das aulas sobre Érico Veríssimo, essa professora disserta sobre o tema de forma pessoal. Envolvente. Fala do quanto “O Tempo e o Vento” inspirou a sua vida, a ponto de dar ao seu  único filho o nome Rodrigo por causa do capitão Rodrigo Cambará, personagem central de “Um Certo Capitão Rodrigo”. Em um impulso, eu mencionei a série, e a trilha de Tom Jobim para essa obra. Imediatamente, ela questionou se eu não era novo demais para saber de tal informação, e expliquei para ela que assisti a série porque me apaixonei pela música.

No dia seguinte, ela foi até a escola com todos os volumes de livros de “O Tempo e o Vento”. Me emprestou, e disse: “leia os livros, e depois conversaremos sobre eles”.

E não paramos mais de conversar. Até hoje.



“Passarim” voltou a fazer parte da minha vida com essa professora quando eu estava no coral da UNESP de Araçatuba (SP). Essa foi uma das peças que trabalhamos naquele coral durante três anos (pelo menos), mas no primeiro dia que recebi a partitura com o arranjo (espetacular, por sinal), eu fui até a casa dessa professora, apenas e tão somente para mostrar a peça que iríamos trabalhar. Ela simplesmente sorriu, e me pediu para convidar para a estreia.

O convite foi feito. E foi aceito. Ela se emocionou com a canção, porque sentia a conexão pessoal e definitiva que a mesma tinha sobre a vida dela, sobre a minha vida e, a partir daquele momento, sobre a nossa amizade. Naquele dia, ao descer do palco, eu recebi um dos abraços mais gostosos da minha vida.

É uma amizade que dura 27 anos. É, talvez, a amizade mais duradoura que eu tenho. Para mim, é uma dádiva ter alguém assim na minha vida.

Por conta dessas conexões especiais que a música e a cultura são capazes de criar, eu digo que obras como “O Tempo e o Vento” e “Passarim” são eternas. Almas com afinidades podem se encontrar e compartilhar de seus pensamentos e sentimentos de forma fraterna, leal e sincera, enriquecendo seus conhecimentos e experiências de vida, mesmo com uma enorme diferença entre as gerações. Aliás, ter mais de 80 anos de idade não limita a mente das pessoas sábias.

Essa é uma canção que fala de dor de amor. Um amor profundo. Um amor que queria ser livre como um pássaro que voa. Mas curiosamente essa é uma das poucas músicas desse projeto onde o motivo principal para dissertar sobre ela não é a letra em si, mas sim a conexão emocional e pessoal que ela produz.

Eu agradeço à você, professora, por me olhar com olhos de humanidade.

Por perceber em mim todo o meu potencial. Por explorar esse potencial e expandir as minhas habilidades. Agradeço por me plantar uma semente de querer contar essas e outras histórias para o mundo. Por abraçar meus problemas, me apresentar soluções, me inspirar a buscar soluções fora da caixa. Pela coragem que você teve em se manter firme em suas posturas e atitudes, e por ser um exemplo de fazer o mesmo na minha vida.

Mas, principalmente… muito obrigado por ser o motivo para eu escrever esse texto hoje.

Poderia muito bem usar a canção “Ao Mestre Com Carinho” para você. Mas essa vai aparecer quando eu quiser falar dos meus demais mestres.

Para você, tinha que ser essa canção. Que é só sua. E de mais ninguém.

“Passarim”
(Tom Jobim)
Tom Jobim, 1985


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