
O GP da Inglaterra de 2025 mostrou uma faceta interessante das corridas de Fórmula 1: a vitória culposa, ou seja, aquela em que o piloto vence sem ter, necessariamente, a intenção clara de vencer.
Lando Norris recebeu uma vitória no colo — ou melhor, “caiu no colo”, já que é a expressão mais adequada — porque Oscar Piastri simplesmente decidiu dar uma de Max Verstappen. Ele usou aquela velha artimanha durante o safety car, foi punido com 10 segundos e, com isso, perdeu a liderança. Uma manobra que Verstappen já realizou algumas vezes.
Aliás, foi justamente por causa de Verstappen que essa regra foi modificada, com o objetivo específico de punir pilotos que tentam tirar vantagem ao frear na hora da relargada.
Lando Norris, o resiliente

Quando olhamos para o campeonato de forma mais ampla, vemos uma disputa polarizada entre Norris e Piastri. Isso não é novidade. Agora, entrando na segunda metade da temporada, a disputa pelo título será decidida nos detalhes. Pequenos erros e acertos vão determinar qual dos dois será o campeão mundial.
Confesso que, em algum momento, cheguei a dizer que o Norris não venceria o campeonato e que ele não tinha mais chances. Cheguei a afirmar que Piastri estava mais moldado e pronto para o título mundial.
Mas estou começando a queimar a minha língua.
Já sinto o calor subindo no tecido da boca, porque, afinal de contas, se criticamos tanto o desempenho do Norris em algumas pistas, é preciso reconhecer a capacidade de reação e resiliência que ele está demonstrando nas últimas etapas.
Desde o desastroso GP do Canadá, Norris vem acumulando bons resultados. E, mesmo que essa não tenha sido sua corrida mais espetacular, o GP da Inglaterra foi extremamente competente por parte dele.
Claro, contou com a incompetência do companheiro de equipe para que o resultado acontecesse — mas ainda assim, foi um desempenho sólido que o mantém firme na briga pelo campeonato.
Por outro lado, algo parece estar mudando em Oscar Piastri.
Será que ele está sentindo a pressão de disputar o título mundial no melhor carro do grid, enfrentando um companheiro de equipe que está na McLaren desde 2019 e que demonstra competência e capacidade de reação? Será que ele imaginava que seria mais fácil?
Talvez. E talvez por isso ele comece a sucumbir à pressão e cometer erros.
Piastri não saiu feliz do carro em Silverstone porque, em algum momento, acreditou que haveria uma troca de posição, o que não aconteceu. A McLaren entendeu que o erro cometido durante o safety car foi exclusivamente dele e que, portanto, não cabia reparação ou justiça por meio de troca de posições.
A verdade é uma só: ele pode até reclamar da regra ou da severidade da punição, mas a regra é clara e se aplica a todos os pilotos — e, neste caso, se aplicou a ele.
Não vou dizer que o que Piastri fez foi “burrice”, mas talvez tenha sido um lapso. Um daqueles lapsos que indicam que algo está quebrando. E Norris, sendo um piloto mais eficiente neste momento, pode se aproveitar disso para conquistar a vantagem definitiva rumo ao título mundial.
É curioso falar disso, porque o que está em jogo não é pouca coisa. A McLaren tem, virtualmente, o título mundial de construtores garantido após duas etapas. A diferença em relação a Ferrari, Mercedes e Red Bull é muito grande. Assim, os pilotos da equipe estão liberados para brigar entre si pelo título. E é sobre isso que vamos falar a partir de agora, nas próximas 12 etapas.
Max Verstappen, e sua prova desastrosa
Voltando ao GP da Inglaterra, precisamos falar de outro grande perdedor: Max Verstappen. O fim de semana dele foi do triunfo ao desastre. Muitos fãs exaltaram a classificação impressionante que ele fez — e, sim, Verstappen é um ponto fora da curva. Ele tem a capacidade de extrair mais do carro do que ele pode oferecer.
Mas a corrida provou outra coisa. Basta ver qual foi a posição de largada do Yuki Tsunoda e como foi o desenvolvimento da corrida dele. Verstappen, hoje, parece satisfeito. Está, inclusive, desligado de muita coisa dentro da Red Bull.
Teve a infelicidade de rodar e terminou em quinto lugar, atrás de Lewis Hamilton. Isso deixou muita gente revoltada. Afinal, como pode o “maior piloto da história” terminar atrás de um heptacampeão aposentado, não é mesmo?
Todos os indícios apontam para Verstappen na Mercedes. Ele até teve, entre aspas, a “sorte” de que George Russell teve um desempenho ruim e terminou apenas em décimo. Isso fez com que Verstappen mantivesse a terceira colocação no campeonato. Talvez até tenha torcido por isso, para acelerar a tal cláusula de rescisão contratual com a Red Bull — algo possível, já que a equipe está em quarto lugar no Mundial de Construtores.
Isso reforça a tese de que a Red Bull não tem um bom carro para 2025. Verstappen está fazendo o que pode, mas parece que estamos nos momentos finais da sua história com a equipe. Se a mudança não acontecer agora, talvez não aconteça mais. O desenvolvimento do carro parece congelado, e não há mais nada a ser feito.
Hoje, para mim, está fora de cogitação considerar Verstappen como um dos postulantes ao título mundial. O mesmo vale para George Russell, que ainda se agarra a esperanças. A Mercedes deu passos para trás, mesmo tendo um carro competitivo. O resultado do Canadá, por exemplo, não pode ser levado a sério — foi uma exceção.
Ferrari segue com o seu “vale do nada”

A Ferrari, por sua vez, está num limbo: faz boas corridas, mas tem classificações inconsistentes. Lewis Hamilton está se aproximando de Charles Leclerc na pontuação. Ainda assim, a Ferrari é hoje o segundo carro do grid, disputando com Mercedes e Red Bull esse posto.
Num GP com tantas variáveis — chuva, sol, estratégias de pneus, dúvidas entre usar intermediário, macio ou médio —, vimos o cenário do campeonato mudar. A FIA alterou regras de análise de flexibilidade de asas, descobriram que a McLaren usa um sistema para resfriar os pneus, mas nada pôde ser feito. Afinal, inteligência e exploração das zonas cinzentas sempre fizeram parte da Fórmula 1.
Com isso, é seguro dizer: a McLaren tem, sim, o melhor carro do grid — de forma consolidada e consistente.
O GP da Inglaterra, bem mais interessante do que muitos esperavam, nos deixa um presságio claro: a segunda metade da temporada será intensa. Teremos pausas um pouco maiores do que no primeiro semestre, que foi mais apertado — entre março e julho, tivemos 12 provas, sem contar as sprints.
A partir de agora, só um tópico importa
Agora, a conversa é clara: quem será o campeão do mundo? Oscar Piastri ou Lando Norris?
Qual dos dois está realmente pronto para conquistar seu primeiro título mundial? E que bom que, depois de tanto tempo dominado por dois pilotos, teremos um novo campeão. Sim, falo de Lewis Hamilton e Max Verstappen. A disputa entre eles foi como um duelo de gerações — quase como Messi e Cristiano Ronaldo na F1.
Será que Zak Brown tinha razão quando disse, em tom quase de piada, que estamos testemunhando a “era Lando Norris”? Muita gente riu, mas talvez aconteça. E se acontecer, e se eu tiver que queimar a língua e pedir desculpas públicas, farei isso com prazer. Porque será uma das grandes histórias de 2025.
Ainda aposto minhas fichas em Piastri — seria interessante ver o prodígio, campeão das categorias de base logo na primeira tentativa, conquistar o título mundial. Mas, se Norris vencer, será uma história igualmente memorável.
Vale lembrar: a McLaren também fez história no GP da Inglaterra. Essa é a sequência mais longa de vitórias alternadas entre dois pilotos da mesma equipe desde Ayrton Senna e Alain Prost em 1988.
Estamos vendo a história acontecer diante de nossos olhos, em vários níveis.
E, sim, amanhã vou publicar um vídeo específico de 10 minutos sobre o histórico terceiro lugar de Nico Hülkenberg — e o quão significativo é esse resultado para a Fórmula 1 e para a vida.
Porque Hülkenberg entra para a lista daquelas pessoas que persistem, insistem, não desistem… e vencem.
