Agora que a Apple quer ser uma empresa de serviços (já que se deu conta que os seus produtos estão encalhando porque são caros demais e as pessoas não estão mais trocando de smartphones e computadores), a ideia que passa é que, a todo custo, a empresa quer que os seus clientes confiem nela.

Um dos grandes focos dados por Tim Cook na última apresentação da empresa, onde vários novos produtos foram introduzidos (e todos esses produtos utilizando boa parte dos nossos dados, e é bom deixar isso muito claro) foi a privacidade. Foi quase uma doutrinação: a Apple quer ser a única empresa confiável do mundo da tecnologia.

E não é assim que a banda toca (ou deveria tocar).

É claro que o tema da privacidade está em alta nesse momento. Nunca se falou tanto em segurança dos dados como agora, e com tantos escândalos de vazamentos de informações envolvendo aplicativos no Android e no Facebook, os usuários naturalmente acabam se preocupando com o destino final dos seus dados na web. E a empresa que acabar dando ênfase para os aspectos da privacidade certamente está agregando valor para si.

É importante deixar bem claro que o usuário médio deveria ter o tema da privacidade como algo prioritário em sua vida. E a imensa maioria não dá a mínima para esse tema. Basta olhar para as redes sociais e o comportamento das pessoas com informações privadas e conteúdos sensíveis.

No meio de tudo isso, temos Tim Cook afirmando que a Apple desenvolveu os novos serviços para manter a informação pessoal privada e segura. E ele repetiu isso por diversas vezes no último evento da empresa. Bastava aparecer um novo produto, e pronto: lá vinha ele dando ênfase para a preocupação dos dados dos usuários.

Eu entendo que essa deveria ser a obrigação da Apple e de toda gigante de tecnologia que atua no mercado. Não é mérito, muito menos ponto de destaque para o seu produto ou serviço ser confiável. É a obrigação. Deveria ser a regra. E, mesmo assim, nem a Apple consegue fazer isso de forma competente.

Os novos produtos são pensados no ecossistema da Apple, e a empresa dá a entender que, ficando nele, você está mais seguro, uma vez que você se distancia do Google e do Facebook. Na verdade, a gigante de Cupertino também quer que você utilize mais as plataformas que ela desenvolveu do que as concorrentes.

Não podemos dizer que a Apple está pensando errada. Afinal de contas, tanto o Facebook como o Google estão colaborando nesse aspecto, com os seus respectivos problemas. Por outro lado, Tim Cook sempre vai reforçar o discurso/compromisso de pensar na segurança dos dados do usuário, mas muito mais como uma estratégia de mercado para posicionamento dos seus produtos do que por fazer a coisa certa para quem realmente interessa: o próprio usuário.

Cabe a nós acreditar nesse discurso ou não. É o usuário quem tem que se sentir seguro no ecossistema da Apple. Vale lembrar que não existe almoço grátis, e até mesmo nos serviços onde Tim Cook promete não colher os seus dados, alguns desses dados são coletados de qualquer maneira.

E a ideia é sempre vender que os seus dados ficarão mais seguros com eles.