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Por que “De Repente 70” é decepcionante

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Eu quero falar do contraponto de Boa Sorte, Leo Grande, que é o filme De Repente 70.

E logo de cara, eu digo: eu não sei por que assisti a esse filme.

Na verdade, sei sim.

Eu gosto muito da melhor idade.

Gosto mesmo, adoro. Gosto tanto que tenho vontade de abraçar. E aí, vi que tinha a Diane Keaton como protagonista neste filme, e me esqueci dos últimos cinco filmes que ela fez, onde interpretou basicamente o mesmo personagem — que também é a protagonista de De Repente 70.

E eu deveria ter desistido antes mesmo de começar.

 

A melhor idade é desse jeito mesmo?

Se você assistiu a De Repente 30, é basicamente a mesma premissa. Igualzinha.

Uma mulher de trinta e poucos anos que se sente uma velha presa no corpo de uma jovem. Sua grande referência de pessoa legal e descolada na vida é a avó, e ela quer ser como a avó.

Aí, por conta de um evento isolado e absurdo, 40 ou 50 anos da vida da protagonista passam num piscar de olhos, e ela se torna uma senhora de 70 e poucos anos — interpretada pela Diane Keaton.

Acontece o seguinte: eu não consigo imaginar — ou melhor, não vou cair nesse erro de novo —, não consigo aceitar que uma pessoa de 70 a 75 anos se comporte como a personagem da Diane Keaton se comporta nesse filme. E posso falar com propriedade, porque convivo com pessoas dessa faixa etária.

Tudo bem, Florianópolis tem uma boa parte da população da melhor idade um tanto quanto rançosa. Sabe aquele lance dos preconceitos? Do cidadão que canta o Hino Nacional para um pneu?

Eu não sei se devia estar fazendo piada com isso, mas acontece.

As pessoas aqui têm, digamos, uma forma “alternativa” de ver o mundo.

Mas a maioria das senhoras que conheci na vida — as mais legais, as mais descoladas — tinham uma visão de mundo pra frente. Pensamento livre, desprovido de preconceitos e pré-concepções estabelecidas. Eram sexualmente ativas, cabeça ventilada, falavam palavrão.

As mulheres com mais de 70 anos mais legais que conheci eram exatamente assim.

Elas não se comportavam como a chata da menina de 30 anos que, no filme, vira uma senhora de 70. E mesmo depois da transformação, ela continua com a personalidade de uma menina de 30. Tanto que ela vira influenciadora digital — o que, até certo ponto, é crível, porque muitos idosos estão virando influenciadores digitais.

Temos vários exemplos: Avós da Razão, a Dona Dirce Ferreira, a Mirela Borges… Enfim, várias pessoas acima dos 60 viraram influenciadoras digitais.

Mas são pessoas legais, mente aberta, descoladas.

Não a protagonista de De Repente 70.

Não sei se esse é o melhor exemplo de modernidade na melhor idade.

Sinceramente, a personalidade que a Diane Keaton assume no filme é de uma pessoa um tanto quanto problemática. Perturbada, até.

E eu sei que isso é horrível para se dizer sobre uma mulher que está completamente perdida no tempo.

 

Dá pra aprender alguma coisa aqui

Por outro lado, não dá pra dizer que o filme não deixa suas lições.

A primeira é óbvia: não façam filmes como esse.

Ok, estou pegando pesado, mas o filme realmente me decepcionou. Prometia muito, entregou pouco. Ainda assim, levanta discussões interessantes.

Uma delas é a importância de valorizar o tempo. Viver o agora.

Se você tem 30 anos, viva os 30. Porque os 40, 50 ou 60 virão — e poderão ser melhores que os 30. É só ter paciência, observar o entorno, e saber aproveitar os aprendizados e oportunidades que surgem.

Outro ponto discutido no filme é o papel da melhor idade no mundo de hoje.

Como os idosos se enxergam e como é cruel, às vezes, ter 70 anos com a mente de 30. Ainda ter desejos, vontades, ambições… e ser tratado como alguém destinado ao tricô, crochê e conversas com amigas.

Essas reflexões estão no filme, e são as partes que eu considero mais interessantes. Podem servir de gatilho para você chamar sua mãe ou avó para assistir, quem sabe se identificarem com algumas das situações — que, no filme, são vividas majoritariamente por mulheres.

É uma tentativa válida de fazer com que os idosos se reconheçam ali e reflitam sobre seu lugar no mundo.

Há também conflitos com a tecnologia, com o velho versus o novo, e com o falso moralismo — porque tem muita gente que ainda acha que mães e avós não transam. Principalmente avós.

Mas Boa Sorte, Leo Grande fala justamente sobre isso. A melhor transa da sua vida pode acontecer depois dos 70.

E para algumas pessoas que eu conheço dentro dessa faixa etária, eu sei que isso aconteceu mesmo.

Sim, estou pegando pesado com De Repente 70 porque vejo uma falta de originalidade na premissa e na forma como os acontecimentos se desenrolam.

As soluções são óbvias. Os conflitos, mais óbvios ainda: a quebra da amizade, a reconciliação, o arrependimento da protagonista. Tudo isso já vimos antes no cinema.

Tudo isso está em comédias românticas pasteurizadas da Netflix, feitas para conquistar aquele público de meia-idade. Não chega ao ponto do boneco de neve que ganha vida só por usar um cachecol mágico, mas já que estamos no campo do realismo fantástico — afinal, a transformação da protagonista se dá por um evento surreal —, precisamos tratar isso como obra de ficção.

Só que… ainda assim, o filme não convence.

Diane Keaton está de novo num papel de gosto extremamente duvidoso. Mas, se você quiser revirar o lixo, tirar a casca de banana ou o absorvente íntimo usado da metáfora do lixo que é esse filme (e uso “lixo” aqui de forma figurada), talvez encontre algo a se aproveitar nessa história.

 

“Eu não estou bravo. Eu estou decepcionado…”

O filme não é exatamente horrível — é apenas decepcionante.

Ele tem alguns méritos, levanta reflexões que considero relevantes. E espero que o público mais velho ache isso também.

Caso contrário, é melhor assistir aos vídeos que eu mesmo crio com inteligência artificial, protagonizados pela Dona Valdete.

Dona Valdete, sim, é uma velhinha descolada, safada, que gosta de sexo e não pode ver um bilau duro na frente dela. Representa muito mais a mulher madura moderna do que a Diane Keaton nesse filme.

O que mais dói é saber que a Diane Keaton está na produção executiva de De Repente 70.

Recomendo que você assista o filme apenas para tirar suas próprias conclusões. Pode ser que você discorde de tudo o que estou dizendo aqui. Pode ser que tenha uma impressão completamente diferente.

Mas, para mim, foi frustrante. E não considero um bom exemplo para mostrar para a sua mãe ou avó como a terceira idade pode ser diferente de tricô, crochê e cuidar dos netos.

Talvez ela descubra isso sozinha, num daqueles sites de vídeos adultos, ou até mesmo assistindo aos vídeos que já publiquei no meu canal do YouTube. Porque, de tempos em tempos, eu também falo coisas elogiosas para essa turma que viveu a vida inteira presa em premissas e conceitos mais atrasados…

…e agora tem um marido chato roncando no sofá durante a reprise de XV de Novembro x Mirassol.

Tem coisa mais interessante pra ver, pra viver, pra fazer. Sei lá.

Assiste De Repente 70. Vai ver o problema era eu. Vai ver eu estava de mau humor no dia.

Achei o filme broxante. Mas, olha… não mais broxante que o seu marido, Dona Gertrudes. Pode ter certeza.

Seu marido, não tem mais jeito.

Recomendo, sinceramente, que a senhora procure aquele estudante de medicina veterinária que encontrou no Tinder. E, de repente, tenha aquela conversa bacana no privado.

Mas tenta controlar os nudes, tá? Tenta controlar os nudes quando for interagir com o garotão.

 


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@oEduardoMoreira