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Por que investimentos em empresas estão virando presente de Dia das Crianças na Coreia do Sul

Quando criança, eu adorava ganhar brinquedos dos meus pais.

Bom, quero dizer, nem sempre eu ganhava brinquedos, pois meus pais tinham enormes dificuldades financeiras, e faziam o que estavam ao alcance deles para oferecer comida e abrigo para mim e para as minhas irmãs.

Porque comer ainda é mais importante do que jogar videogame.

Mas na Coreia do Sul, no lugar de brinquedos, os pais estão dando para os seus filhos ações de empresas.

Porque são ricos? Sim, também, pois só com dinheiro que dá para comprar ações da Tesla. Mas não é exatamente por isso.

Porque querem que seus filhos sejam melhores do que eles.

 

Tudo tem uma razão de ser

A Coreia do Sul enfrenta neste momento uma crise demográfica que começa a se reverter com o aumento da taxa de natalidade e incentivos diversos aos casais para terem filhos. E esse movimento está mudando os hábitos nas relações parentais do país.

Entre essas iniciativas sociais e culturais, está a tendência dos pais presentearem seus filhos com ações de empresas, como parte do processo de educação financeira desde os primeiros anos de vida.

A prática está se popularizando rapidamente, com mais de 1,2 milhão de contas de investimento abertas em nome de menores de idade. Tem crianças que estão recebendo há sete anos ações de empresas em datas comemorativas.

Dessa forma, as crianças estão desde cedo se familiarizando com conceitos que só vamos tentar entender (e, em alguns casos, falhar miseravelmente na compreensão) na vida adulta, como dividendos e crescimento composto.

Tudo bem, a criança sul-coreana ainda vai preferir o PlayStation 5. Mas ao menos ela está construindo o conhecimento financeiro de longo prazo, o que vai permitir que ela compre o console da Sony sem precisar hipotecar a casa.

 

A medida tem as suas vantagens

Os pais ganham com a iniciativa, que vai além do valor educativo para os seus filhos.

A legislação sul-coreana permite a transferência de até 20 milhões de won (cerca de 14 mil euros, ou R$ 90 mil) por criança a cada década, sem cobrança de impostos.

Com investimentos bem alocados, esse valor pode crescer de forma considerável ao longo dos anos, criando um colchão financeiro para o filho antes mesmo da vida adulta.

E a melhor parte de tudo isso: esse investimento no futuro da criança é totalmente livre de impostos, o que reforça ainda mais o interesse dos pais em educar financeiramente os filhos, já que não dói tanto no bolso.

 

Os adolescentes sul-coreanos abraçaram a ideia

Uma pesquisa da Samsung Securities revelou que 43% dos jovens entre 17 e 19 anos já possuem conta de investimentos e 58% têm planos de começar a investir em breve.

É um despertar financeiro juvenil que se diferencia do padrão observado em outros países, onde a alfabetização financeira ainda é baixa entre os mais jovens.

Até porque esses adolescentes estão percebendo que já gastaram muito dinheiro com o K-Pop, um estilo musical que nem eles estão consumindo tanto nos últimos anos.

Diante do crescimento do fenômeno, corretoras como Mirae Asset, Samsung e Kiwoom passaram a criar campanhas direcionadas especificamente a crianças e adolescentes.

As ações promocionais incluem comissões reduzidas para diferentes planos de investimento, recompensas financeiras e canais educativos no YouTube voltados para o público infanto-juvneil.

Toda essa estratégia têm como único objetivo fidelizar esses jovens desde cedo, transformando-os em investidores de longo prazo.

 

Uma mudança cultural mais ampla

Antes, o dinheiro era considerado um tema tabu entre pais e filhos na Coreia do Sul. Agora, é parte do cotidiano familiar e da formação das crianças, o que é uma forma muito eficiente de traduzir valores tradicionais do país (disciplina, poupança e planejamento) para a linguagem do mercado de capitais do século 21.

É uma nova geração que vai crescer com uma perspectiva diferente sobre o dinheiro, patrimônio e visão de futuro para investimentos e gastos.

Sim… é uma infância menos lúdica. Mas não deixa de ser o momento ideal para plantar sementes de conhecimento financeiro que vão perdurar pelo resto da vida.

Dizer a uma criança que ela é acionista da Tesla ou possui uma fração do S&P 500 não apenas a introduz à linguagem do capital, mas aparentemente oferece uma nova forma de compreender seu lugar no mundo econômico.

E ação da Tesla é sim presente de criança. Vale mais do que um Xbox Series X (e eu não tenho nada contra os caixistas, pois sou um deles).

 

Via TargetHD.net