
O Eurovision, tradicional festival de música que envolve artistas de todos os países do continente europeu, encerrou a sua edição 2025 de forma oficial. Mas não acabou já que a polêmica sobre a escolha do vencedor e origem de uma de suas participantes está mais do que servida.
Para quem não sabe, o Eurovision aceita a participação de representantes do Israel, um país geograficamente localizado na Ásia Ocidental. E este não é o único caso do país se inserir no contexto europeu, já que a UEFA também reconhece o país como parte do seu coletivo em suas competições.
Por isso, fica a pergunta: por que Israel “está na Europa”?
O motivo da polêmica

A representação israelense por Yuval Raphael, sobrevivente de ataques do Hamas, gerou polêmicas do começo ao fim da fase final do Eurovision.
Durante o evento, a organização expulsou espectadores que exibiam bandeiras palestinas e entrou em conflito com emissoras europeias por comentários relacionados ao conflito em Gaza.
A televisão belga optou por não transmitir a apresentação de Raphael, enquanto outras emissoras enfrentaram críticas por suas abordagens ao tema.
Apesar das controvérsias, Israel conseguiu o segundo lugar na competição, o que também gerou revolta em parte do coletivo, que gostaria de ver Yuval (que não tem absolutamente nada a ver com todo esse falatório) como vencedora.
Muitos entendem que a segunda posição da artista israelense soou como “resposta da Europa”, que não quer o país na competição.
Uma longa história no festival europeu
Israel não é um novato no Eurovision. Sua estreia ocorreu em 1973 e, desde então, conquistou quatro vitórias, a mais recente em 2018 com a cantora Netta, o que levou o festival seguinte a ser realizado em Tel Aviv.
A participação israelense é possível porque o Eurovision é organizado pela União Europeia de Radiodifusão (EBU), uma aliança que transcende as fronteiras geográficas da Europa.
A EBU reúne 113 organizações de mais de 50 países, incluindo parceiros da Ásia, África, Australásia e Américas. Em teoria, até artistas brasileiros poderiam participar do Eurovision, caso a organização do evento entendesse que valia a pena convidar o país para o festival.
A única coisa que impede que Anitta participe do Eurovision é o seu regulamento interno.
A instituição permite a participação de entidades cujos países são membros do Conselho da Europa ou estão dentro do Espaço Europeu de Radiodifusão.
Isso explica a presença não apenas de Israel, mas também de membros como Chipre, Argélia, Jordânia, Líbia, Egito e Marrocos no Eurovision.
E no caso da UEFA?

Muita gente não sabe disso, mas Israel é membro da UEFA (União das Associações Europeias de Futebol) desde 1994, permitindo que clubes israelenses como Maccabi Haifa e Hapoel Tel-Aviv participem de torneios europeus.
Originalmente, Israel integrava a Confederação Asiática de Futebol, mas em 1974 deixou a organização por razões políticas.
Diversos países árabes e muçulmanos se recusavam a competir contra representantes israelenses, o que culminou em uma votação que excluiu Israel da federação asiática.
O padrão de decisão se repete no handebol, atletismo e natação, com Israel sendo membro de associações sediadas no continente europeu.
Essas afiliações refletem as complexas tensões geopolíticas que se arrastam ao longo da história, que remontam à fundação do Estado de Israel em 1948.
Polêmicas crescentes no cenário atual
As controvérsias sobre a participação de Israel em eventos europeus intensificaram-se após o início do conflito em Gaza em outubro de 2023.
O Eurovision 2025 é apenas o exemplo mais recente, seguindo polêmicas semelhantes em 2024 e o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) em 2019.
No âmbito esportivo, a presença israelense também gerou debates nos Jogos Olímpicos, com diversas associações do Oriente Médio solicitando ao Comitê Olímpico Internacional (COI) e a FIFA que vetassem o país em suas competições oficiais.
O cenário torna-se ainda mais complexo quando comparado ao caso da Rússia, que foi excluída do Eurovision, UEFA, FIFA e Jogos Olímpicos após a invasão da Ucrânia em 2022.
Respostas divergentes
A disparidade nas respostas dadas a Israel e à Rússia alimenta o debate sobre como entidades internacionais devem reagir a conflitos geopolíticos.
Questiona-se a coerência das organizações europeias que aplicam critérios diferentes em situações percebidas por alguns como comparáveis.
A participação de Israel em competições europeias é questionada não apenas por sua localização geográfica, mas também por sua alegada dissonância com valores europeus, especialmente à medida que as linhagens de judeus europeus diminuem e o nacionalismo ganha força através de figuras políticas como Benjamin Netanyahu.
E temos aqui mais um episódio de uma crescente (e perigosa) fusão entre esporte, cultura, política e identidade no cenário internacional, tornando eventos como o Eurovision palcos para discussões que vão muito além da música.
Isso poderia ser positivo se iniciasse um debate mais amplo sobre inclusão, perspectivas sobre conflitos históricos e distinção entre a participação artística e ato político.
Mas como não é exatamente esse o caso…
Deixa quieto.
Não quero entrar em polêmicas maiores do que falar sobre esse assunto.

