
Parece que já vimos de tudo no cinema das cinebiografias. Tudo soa como mais do mesmo: uma história narrada de forma linear sobre um artista talentoso com uma infância difícil, uma música que surge do nada e — boom! — um sucesso mundial. Não podem faltar as drogas, as más companhias, um amor fracassado ou o ego que se impõe entre ele e seus entes queridos. Sim, já sabemos exatamente de qual filme estamos falando.
Mas Better Man não é assim.
A produção rompe não apenas com o molde das biografias musicais, como também desafia as convenções dos musicais tradicionais. Esse filme não quer apenas contar a história de Robbie Williams — ele quer mostrar sua alma. Por isso, me atrevo a dizer: Better Man é uma das melhores cinebiografias feitas nos últimos tempos. Arrisco até dizer que está no mesmo nível de Rocketman, superando-o em alguns aspectos.
Porque essa não é apenas mais uma história. Não é uma lista de sucessos, nem uma sequência de momentos felizes e trágicos.
Better Man não tenta glorificar a vida de um ídolo, mas sim confrontar o peso de ser um. O longa nos coloca diretamente dentro da mente de Robbie — em seus medos, nas suas batalhas internas.
Um filme que me fez chorar, com uma das cenas mais emocionais que testemunhei nos cinemas em muito tempo.
A obra nos mostra como nem mesmo um estádio lotado consegue silenciar suas vozes internas e suas inseguranças. E sim, há uma cena que demonstra isso de forma gloriosa.
Na verdade, qualquer cena de Better Man poderia ser destacada. Quando assisti ao filme no cinema, fiquei maravilhado com o plano-sequência espetacular de “Rock DJ”. É incrível como a câmera voa pelos céus ou termina em uma loja, apenas para ilustrar a ascensão meteórica da banda Take That, onde Robbie iniciou sua carreira musical.
Mas o peso emocional do filme recai sobre a cena mais difícil de assistir: a performance de “Angels”.
Esse momento não tenta exaltar Robbie, mas sim retratar um dos episódios mais dolorosos de sua vida — quando ele deixou partir uma das poucas pessoas que confiavam nele: sua avó.
Ela era a única pessoa que realmente se importava com ele, e até se preocupava com o modo como ele estava “evoluindo”. É uma cena que parte o coração, e por isso decidi analisá-la em detalhes neste artigo.
Antes de mergulharmos profundamente na cena de “Angels”, é preciso recapitular dois elementos centrais de Better Man que nos ajudam a entender a intensidade desse momento.
Homem primata

O primeiro é algo que poucas produções ousam fazer: desde o primeiro segundo, o filme quebra todas as nossas expectativas.
A história começa com Robbie dizendo em off: “Vou te mostrar como realmente me enxergo.” E, nesse instante, não o vemos como um ídolo ou uma estrela, mas como um macaco recriado por computação gráfica (CGI).
Pode parecer estranho, mas faz todo o sentido.
Robbie sempre se sentiu como um “macaco de circo”, alguém que está ali apenas para entreter, fazer rir, ser observado — mas jamais compreendido. Em várias entrevistas, ele revelou se sentir menos evoluído que os outros, como se seu único valor estivesse no show, e não em quem ele é por dentro.
Better Man leva isso extremamente a sério. Não é uma metáfora passageira. Não é piada. Não há uma grande transformação onde o macaco desaparece e surge o verdadeiro Robbie.
Porque aquele macaco é Robbie.
É como ele se sente: preso em seu próprio corpo, em sua fama, em seu personagem. Cada gesto, cada olhar e cada silêncio daquela criatura reflete a dissonância que Robbie sente desde sempre.
Essa não é a história do ídolo que todos conhecem. É sobre o vazio que ele enxerga ao se olhar no espelho.
A sua relação com o pai

O segundo elemento fundamental da trama é a relação de Robbie com seu pai. Desde pequeno, o pai repetia uma frase que se tornou quase uma maldição:
“Você precisa nascer com algo especial, algo que te permita brilhar entre as estrelas. Se não, será um nada.”
Robbie cresceu com a pressão de ter que provar ao mundo — e ao pai — que tinha aquilo. Aquela qualidade inexplicável que todos reconhecem de imediato. Por isso, se esforçou tanto para se tornar uma estrela, mesmo que isso significasse se perder no processo.
Mas o pior nem foi a cobrança — foi o abandono.
Enquanto Robbie se desdobrava para atender às expectativas do pai, este o deixava para trás. Escolheu seus próprios sonhos em vez do filho. E o mais triste é que ele só voltou quando Robbie já era famoso. Porque o que importava para ele não era o filho Robert, mas a estrela Robbie Williams.
E isso dói. Dói mais que qualquer crítica, mais que qualquer queda.
Porque o mínimo que se espera de um pai é ser visto com amor. Mas o que Robbie recebeu foi uma admiração vazia, como se seu valor só existisse sob aplausos.
É nesse vazio emocional que nascem seus demônios.
Ao longo do filme, vemos como esses medos tomam forma — se materializam em cópias de si mesmo que o observam da plateia. Mas não aplaudem. Julgam. Não o acompanham. O perseguem. São pensamentos intrusivos que se cravam como agulhas e sussurram:
“Você não é suficiente. Só está aí porque enganou o mundo. E em breve, todos vão descobrir.”
Para silenciar essas vozes, Robbie se refugia no álcool e nas drogas.
E então chega uma das cenas mais poderosas e emocionantes do filme: Robbie recebe a notícia de que sua avó faleceu.
“Angels”, uma carta de luto para a sua avó

Ela era a única pessoa que o via como ele realmente era. A única que nunca o julgou por não ter aquele “algo especial”.
Para ela, Robbie já era o melhor.
Com sua partida, vai embora também uma parte da identidade de Robbie. A parte pura, inocente, que ainda guardava esperança.
Porque quando o único refúgio da sua infância desaparece, o que resta é um silêncio ensurdecedor.
Mas em meio à dor, algo muda.
Em uma apresentação cercado por luzes, gritos e pessoas que parecem amá-lo sem conhecê-lo de verdade, Robbie começa a cantar “Angels”.
Mas dessa vez, não é pelo espetáculo.
É por ela. E por ele.
É a primeira vez que vemos Robbie cantar a partir da ferida, e não do personagem. E o que acontece é mágico.
Porque, enquanto canta, ele deixa de ser o produto do showbiz e se transforma, por um instante, naquele menino que sua avó abraçava. Um menino vulnerável, humano e real.
Essa é a genialidade do diretor. Robbie está no funeral, mas não tem tempo de processar sua dor. Ao fundo, seus fãs reaparecem, buscando apenas o artista do espetáculo. Não o deixam respirar.
Por isso, há transições magistrais entre o luto e o show. A cena é repleta de closes nos olhos de Robbie, que carregam uma tristeza profunda.
É nesse momento que sua ex-esposa, Nicole, finalmente decide se despedir — tanto da vida pessoal quanto artística dele.
Robbie só quer desaparecer dos holofotes.
A dor é intensa, mas ele não pode. Ainda é o “macaco” do entretenimento, preso ao dever de cumprir a profecia que seu pai lhe lançou.
Ainda assim, cada verso da música se transforma em lamento. Em oração. Ele não diz, mas sentimos: ela era seu anjo. A única que o protegia, mesmo quando ele não conseguia se proteger.
Essa cena não é apenas uma homenagem à avó. É uma despedida simbólica de sua versão quebrada.
Um grito silencioso para o mundo:
“Estou sozinho, mas ainda estou aqui.”
Robbie canta com a voz entrecortada, os olhos à beira do choro. Cada palavra parece pesar mais que a anterior. Enquanto o público o ovaciona, ele não está ali. Está em sua infância, em suas lembranças, naquele cantinho da alma onde ainda resta fé.
Porque Angels não é apenas mais uma música na trilha do filme. É uma carta de despedida. Um ritual de luto. Um gesto de redenção.
E o mais bonito: mesmo que sua avó não esteja mais presente, suas palavras continuam vivas naquela melodia — como se, através da música, ela ainda o lembrasse de que ele pode conquistar grandes coisas.
Porque no fundo, Robbie sempre achou que não era suficiente. Que precisava se disfarçar, entreter, agradar, ser o que todos esperavam. E, ao mesmo tempo, havia sempre a necessidade de brilhar para provar ao pai ausente que sim, ele tinha “aquilo”.
Mas a verdadeira reviravolta, a transformação real, não chega com uma turnê mundial nem com um prêmio.
Ela chega quando Robbie escolhe curar-se.
Um homem melhor

Robbie Williams decide enfrentar seus demônios e parar de fugir. Entende que não se trata de provar, mas de aceitar.
De se aceitar.
É aí que começa a verdadeira jornada de se tornar um homem melhor.
Por isso, um dos momentos mais comoventes do filme acontece quando ele canta, ao lado do pai, a música “My Way”.
Finalmente os vemos se reconciliar. Não como artista e fã, mas como Robert e seu pai. Como dois seres humanos que, à sua maneira, fizeram o que puderam com o que tinham.
E o mais importante vem depois: Robbie se desculpa — não com o público, nem com sua ex-mulher — mas consigo mesmo.
Esse é o passo mais difícil: perdoar-se por não ter sido perfeito, por ter caído, por ter se perdido.
Nesse instante, os fantasmas do passado se dissipam. As cópias que o julgavam começam a aplaudi-lo. E pela primeira vez, já não há ruído.
Há paz.
Better Man não é a história de um artista que alcançou o sucesso. É a história de um ser humano que se quebrou, que se perdeu — mas que escolheu se reconstruir.
E isso é o mais corajoso de tudo.
Porque todos podemos errar — às vezes por causa dos nossos traumas, outras por nossas escolhas.
Mas isso não significa que estamos condenados a repeti-los. Sempre podemos escolher curar. Sempre podemos escolher tratar nossas feridas.
Sempre podemos escolher nos tornar um homem melhor.

