
Estamos em 2025, e algumas pessoas se perguntam (e com boa dose de razão) por que ainda utilizamos o modo avião do smartphone durante os voos comerciais, uma vez que vários estudos mostram que esse recurso não é tão necessário assim nos dias de hoje.
Acontece que nem tudo dentro de um avião evoluiu na mesma velocidade que nos smartphones e na telefonia móvel. Alguns dispositivos como o avião ainda funcionam de maneira bem específica, tanto nos seus instrumentos quanto em suas tecnologias embarcadas.
Vamos então explicar por que ainda vamos passar algum tempo na vida habilitando o modo avião nos voos comerciais.
Por que o modo avião ainda existe?
O modo avião foi criado para facilitar a comunicação entre pilotos e controladores de tráfego aéreo. As tecnologias de radiofrequência dos dispositivos móveis causavam interferências audíveis nas comunicações da cabine, gerando ruídos irritantes que prejudicavam a operação segura das aeronaves.
Em 2014, a Agência Europeia para a Segurança da Aviação liberou o uso de telefones durante voos comerciais. Três anos depois, a União Europeia anunciou que permitiria conexões 5G em celulares durante os voos, demonstrando a evolução técnica do setor.
Apesar das autorizações regulatórias, as companhias aéreas mantêm a decisão final sobre o uso de dispositivos eletrônicos. A maioria ainda exige o modo avião durante decolagens e pousos, considerados os momentos mais críticos do voo.
Paradoxalmente, muitas dessas mesmas empresas oferecem serviços de Wi-Fi pagos durante o voo, deixando claro que que a questão não é a impossibilidade técnica, mas sim a gestão de riscos operacionais.
Na prática, o modo avião ainda é habilitado não por causa do smartphone em si, mas pelo uso das redes de telegonia móvel durante os voos. E mesmo que o telefone encontre uma rede de dados no avião (algo que é relativamente difícil durante os voos), a interferência nos instrumentos e comunicações deve persistir.
Logo, a única garantia de que a interferência das redes móveis não vai afetar a comunicação dentro do avião é mesmo habilitando esse modo no telefone.
Interferências nas comunicações críticas
Estudos realizados em 1992 pela Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos e pela Boeing demonstraram que dispositivos eletrônicos não causam problemas durante fases não críticas do voo. As pesquisas levaram à criação de bandas de frequência reservadas para diferentes usos.
Durante decolagens e pousos, os dispositivos móveis geram um zumbido de até 8 watts de potência que interfere nas comunicações entre pilotos e controladores.
Profissionais da aviação confirmam que essa interferência, embora não cause mau funcionamento, atrapalha procedimentos essenciais de segurança.
O professor Doug Droury, da University of Central Queensland, explica que a interferência nas redes terrestres representa outro grande problema para a aviação comercial.
As torres de telefonia podem ficar sobrecarregadas quando passageiros de aeronaves voando sobre elas utilizam seus dispositivos simultaneamente.
Considerando que mais de 2,2 bilhões de pessoas voaram em 2021, o impacto potencial nas infraestruturas de telecomunicações terrestres é considerável, especialmente em rotas de alto tráfego aéreo.
E no caso do 5G?
A expansão das redes de quinta geração trouxe novos complicadores para a aviação comercial tradicional. Nos Estados Unidos, as bandas de frequência utilizadas pelo 5G são próximas ao espectro reservado para sistemas de navegação e altímetros de radar das aeronaves.
Na Europa e no Brasil, o espectro 5G está mais distante dos altímetros de radar, reduzindo os riscos de interferência. Mas como a aviação é uma indústria global, as regulamentações devem considerar os padrões mais restritivos para garantir operações seguras internacionalmente.
Além das questões técnicas, existe um componente social relevante na manutenção do modo avião.
Imaginar 200 passageiros conversando simultaneamente ao telefone em um espaço confinado criaria um ambiente caótico e prejudicaria a operação da tripulação.
A necessidade de a tripulação conseguir comunicar instruções de segurança e realizar procedimentos operacionais sem interferências justifica a manutenção dessa regra, independentemente das capacidades técnicas dos equipamentos modernos.
Por isso, da próxima vez que você decidir viajar de avião, aproveite esse tempo desconectado do mundo para ler um livro, ouvir uma música, assistir a um filme ou uma série ou simplesmente dormir.
Não digo exatamente descansar durante o voo, pois isso é difícil quando você está na classe econômica. Mas ao menos pode tentar fazer isso.
Você não tem absolutamente nada a perder.
Via The Conversation
