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Em um mundo civilizado, esse texto seria totalmente dispensável. Em um país evoluído, esse texto não existiria. Mas vivemos em um país que, ao que tudo indica, decidiu abraçar as trevas. Ou que sempre foi intelectualmente abraçado, mas que perdeu os pudores em admitir que prefere esse atraso.

Eu já escrevi sobre a censura nesse blog. Não faz muito tempo que eu tive que lembrar para o coleguinha que estava espumando de raiva porque uma HQ da Marvel de 2010 comercializada na Bienal do Livro do Rio de Janeiro continha um beijo entre dois homens, e alguns analfabetos entenderam que aquele conteúdo era “pornografia”.

Não. Não é. No Brasil, beijo hétero e beijo gay tem os mesmos direitos.

Agora, constato que a censura no Brasil não apenas voltou (algo que, por si, é uma derrota para todo um coletivo), como também alcança níveis inacreditáveis, com resultados desastrosos.

Filmes com o lançamento cancelado por aqui.

Como foi o caso de Boy Erased: Uma Verdade Anulada, filme indicado ao Oscar e que basicamente foi banido porque testemunhava contra a imbecilidade da cura gay. Tá, eu entendo as pessoas que defendem esse absurdo (na verdade, eu finjo entender porque, para mim, quem defende a cura gay não passa de imbecil), mas não admito que tirem de mim o direito de querer assistir ao filme.

Mais uma vez: o fato de você não gostar de alguma coisa não pode ser mais importante do que o meu direito de querer consumir aquilo que você não gosta. O seu direito não é maior que o meu.

Aliás, direitos iguais para todos, certo?

Mas não é isso o que está acontecendo no Brasil.

O filme Marighella foi outro que teve a estreia censurada no Brasil. E quer saber qual foi o motivo?

Porque “alguém” não gosta do fato do filme contar a história de Carlos Marighella, assassinado pela ditadura militar e que deixou um legado que se estendeu por diversas gerações.

Eu não conheço a história. Não posso julgar se ele foi apenas um subversivo que não seguia as leis, ou se ele era alguém que desafiou um sistema inteiro. O que sei é que ele era de esquerda, organizou a luta armada contra a ditadura militar, e era o inimigo numero um do regime FDP que tanto velho de 70 anos ou mais defende por aí.

Mas jamais vou ter o direito de ver o filme. Mas ao menos vou poder me basear nas histórias que os livros contam, e tirar as minhas próprias conclusões.

Porém, uma mostra clara que a censura no Brasil está ativa e com muita força é a capacidade do Itamaraty em cancelar a estreia de um filme sobre Chico Buarque… NO URUGUAI!

Meu… QUE PORRA É ESSA?

 

 

Sinceramente? Eu também não gosto da pessoa física do Chico Buarque. Eu também acho que ele defende o lado errado, que é bem fácil defender o Lula quando você tem apartamento em Paris, e também entendo que, como pessoa, ele já se expressou politicamente de forma muito infeliz. Mas jamais veto o direito dele pensar da forma que ele quiser. Assim como eu tenho total direito de chamar ele de imbecil por pensar assim.

Isso sim é democracia.

E, o mais importante: acima de tudo isso, e muito acima de qualquer opinião política de Chico Buarque, está a sua obra musical, que é muito maior que o próprio. Chico Buarque é um dos maiores gênios da música brasileira em sua história, e nem mesmo um vídeo do próprio estimulando sexualmente Luís Inácio Lula da Silva vai mudar isso. Goste você ou não.

E, se você pensa diferente disso, você é um analfabeto musical.

Vou repetir o que eu escrevi no texto da censura: desconfie daqueles que querem calar algumas vozes, pois normalmente o discurso dessas vozes incomoda ao sistema.

Agora, eu não tenho acesso a esse conteúdo. Não tenho o meu direito de poder assistir, de decidir por mim se aquilo é bom ou ruim, ou mesmo de desenvolver um pensamento crítico e racional sobre o material. Sou obrigado a testemunhar o poderio de alguns impedindo que todos possam decidir por conta própria.

É quase o mesmo que colocar uma mordaça em alguém e começar a chicotear. Ah, sim… isso aconteceu recentemente, e as pessoas que defendem a censura no Brasil não fizeram barulho.

Mas eu não vou me calar.

Isso aqui é um megafone.

Meu discurso vai chegar longe.

Pode apostar.


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