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Por que “Superman” (2025) é um filme woke

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Quando olhamos para “Superman” com um olhar mais atento para o Clark Kent, entendemos que esse filme não é sobre o herói. É sobre o ser humano que tenta se reconstruir.

Aliás, é um filme sobre a releitura de James Gunn sobre ele mesmo, já que é o seu primeiro filme no novo DCU. E aqui, ele se dá ao direito de colocar a sua perspectiva pessoal dentro desse levante de recomeço.

Não é uma história de origem. Não precisamos ver de novo como Clark se torna o Super-Homem.

É uma história sobre quem Clark Kent é em essência. E quem ele quer ser a partir do momento que ele perde pela primeira vez.

 

Olhe para cima

Faz parte da história do ser humano ter esperança no desconhecido e fé em deuses para acreditar no impossível.

“Superman” faz o caminho contrário: é um semi-deus, um meta-humano, um ser lotado de poderes… que acredita na humanidade para recobrar forças e seguir em frente.

A inversão de valores aproxima o personagem central de todos nós. Tanto o Clark quanto o Superman. E esse é o grande diferencial desse filme.

Estamos falando de um Clark Kent que tenta se encontrar em um mundo caótico. Que tenta não perder a fé nas pessoas, mesmo quando o coletivo se volta contra ele por conta de uma distorção de narrativa.

Em tempos onde as fake news, a desinformação e as retóricas falsas alimentam as pessoas para se voltarem umas contra as outras, Clark Kent tenta descobrir a verdade e, ao mesmo tempo, lidar com ela. Por mais difícil que essa realidade seja.

Especialmente aquela envolvendo o seu passado, que foi a parte mais dura que o nosso protagonista teve que lidar em “Superman”.

Clark olhou para cima porque, quando esteve no chão, quem estava acima dele era as pessoas que ele salvou. Algumas das pessoas que ele mais amava.

A humanidade. Os traços de humanidade.

Os erros. Defeitos. Imperfeições.

 

Um Super-Homem que erra e perde

Pela primeira vez, o Super-Homem perdeu uma batalha.

“Superman” começa mostrando que o personagem central pode falhar e perder. No julgamento e na ação.

Que pode ser questionado pelo coletivo apenas e tão somente porque tentou agir pelo bem comum. Porque decidiu seguir com a “jornada do herói”, que se expõe para defender aquele que não tem poder.

Porque decidiu acabar com um conflito que era motivado por interesses políticos, econômicos e megalomaníacos.

Foi o Super-Homem que salvou as pessoas. Mas foi Clark Kent que decidiu agir pelo bem comum. E no meio de todo o caos, é ele, Clark, quem decide refletir sobre o seu papel como herói de um povo que não é um dele.

Clark queria sim compreender o seu papel nesse mundo, mas queria também se livrar da estigma de ser um herói que era incompreendido diante dos seus primeiros sinais de fraqueza e falhas.

Assim como vários de nós, Clark errou tentando acertar. Não cometeu seus erros pela intenção, mas pelo desejo de proteger o bem comum.

Assumiu o erro. Assumiu a derrota. Sentiu o gosto amargo de ser derrotado em batalha. E, tal e como faria qualquer herói de si mesmo, decidiu seguir lutando pelo bem comum.

Clark não abriu mão de suas convicções e princípios ao ser ver no chão. Não esmoreceu diante das distorções de narrativa e mentiras proferidas por Lex Luthor.

De forma digna, voltou para aqueles que o amavam por ser apenas o Clark, recobrou a consciência sobre a sua responsabilidade com ele mesmo, e voltou para a luta.

Para voltar a defender aquele que não tem poder nenhum para se defender das crueldades daqueles que acreditam que podem subjugar a tudo e todos.

 

Que bom que “Superman” é um filme woke

“Superman” só foi possível desse jeito porque James Gunn está na frente do projeto. E o mesmo homem que foi sumariamente cancelado na internet por conta de tudo o que ele escreveu no passado dá o recado claro.

Esse é SIM um filme político. É SIM um filme que fala sobre empatia, respeito, compaixão e sinestesia. “Superman” é SIM um filme woke.

Se ser desperto sobre uma sociedade que está doente pelos algoritmos, pelo excesso de informação e pela manipulação da narrativa do coletivo pelas mãos de alguns poucos que pensam exclusivamente nos seus próprios interesses (e sempre motivados por discursos extremistas), “Superman” é sim woke.

E precisa ser.

James Gunn propõe um filme que defende o jornalismo investigativo sério como solução para a manipulação pela desinformação. Propõe que as pessoas precisam olhar umas para as outras com a devida atenção e cuidado.

Propõe o diálogo como solução de conflito, superando a pseudo inteligência narcisista de mentes com personalidades mais fracas.

“Superman” é um filme que incomoda a quem olha para o próprio umbigo, por estar descrente de que o melhor do ser humano é justamente ser humano.

Clark Kent passa o filme todo tentando se encontrar em um mundo que, em dado momento, só deseja ver a sua destruição.

Um alienígena que não é bem visto por quem acreditou nas mentiras de Lex Luthor.

O cara que veio de fora, mas que é rejeitado por ser quem é. Seja pelo medo do ser superior, seja pelo preconceito puro e irrestrito por aqueles que só aceitam “os iguais”.

Quantas e quantas vezes vimos isso antes?

E se você se irrita com um Super-Homem woke, talvez você precisa aprender a origem real do personagem. Ou melhor, refletir sobre a essência dele.

Super-Homem é woke desde 1938, já que seus criadores são filhos de imigrantes. Com o passar das décadas, o personagem foi acompanhando a evolução do coletivo e as mudanças de visões de mundo.

O personagem SEMPRE defendeu o mais fraco em nome do bem comum. SEMPRE foi consciente sobre a necessidade e o compromisso de se estabelecer justiça para todos.

Se você só se deu conta disso com James Gunn, eu sinto muito, mas você só é um imbecil que acredita que entende alguma coisa sobre quadrinhos.

Mas é sempre tempo de aprender alguma coisa com o cinema.

E “Superman” deixa essas lições mais do que claras.


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@oEduardoMoreira