Press "Enter" to skip to content

Por que você odeia o Gabriel Bortoleto?

Compartilhe

Uma pergunta direta para você, leitor: por que você odeia o Gabriel Bortoleto?

Desde que o brasileiro estreou na Fórmula 1, seu nome passou a circular com mais intensidade nas redes sociais — infelizmente, nem sempre da forma mais positiva. O piloto, que chegou na principal categoria do automobilismo em 2025, já tem uma parcela do público jogando contra a sua carreira.

Por que existe essa rejeição?

O fenômeno merece uma análise cuidadosa, pois reflete menos sobre o desempenho real de Bortoleto e mais sobre o perfil do público que o julga — muitas vezes, sem o menor embasamento técnico ou histórico.

Tal e como o brasileiro médio faz com praticamente tudo na vida

 

Desempenho acima das expectativas, mesmo com um carro inferior

Gabriel Bortoleto chegou à Fórmula 1 com um currículo sólido: campeão da Fórmula 3 e também da Fórmula 2, sempre se destacando por sua consistência e capacidade de adaptação. Seu histórico é o mesmo que pilotos como Oscar Piastri, e seu comportamento técnico é comparado ao de Charles Leclerc pelos engenheiros de sua equipe.

Mesmo assim, ao assumir o cockpit da Kick Sauber — considerada uma das equipes com o pior carro do grid atual — passou a ser cobrado como se estivesse em condições de brigar por pódios e vitórias.

E isso acontece pelo seu Cláudio, pai do Enzo, motorista de Uber e dono de um Celta 2016 duas portas 1.0.

É importante contextualizar: o carro da Kick Sauber está longe de oferecer competitividade. Em muitos aspectos, é mais próximo de um trator agrícola do que de um carro de Fórmula 1 realmente preparado para disputar posições nas primeiras fileiras.

Logo, exigir resultados de destaque em condições tão limitantes não é apenas injusto — é intelectualmente desonesto.

Mas… quem disse que a maioria dos críticos do Bortoleto se importam com honestidade? Só querem criticar mesmo.

 

Comparações com outros estreantes e o peso da nostalgia

A crítica rasa muitas vezes ignora um detalhe essencial: estrear na Fórmula 1 nunca foi fácil, mesmo para grandes nomes. Mas o pequeno Enzo, filho do seu Cláudio e que nunca conseguiu ser campeão do Modo Carreira no game da EA Sports, ignora isso completamente.

Ayrton Senna, por exemplo, fez sua estreia em 1984 com um carro da Toleman que, embora não fosse o pior do grid, estava longe de ser competitivo. Ainda assim, precisou de tempo para mostrar seu verdadeiro potencial.

Felipe Massa também enfrentou dificuldades no início da carreira, com atuações inconstantes que o levaram a ser rebaixado a piloto de testes. Nem todos os brasileiros brilharam logo de cara. Ricardo Zonta, Luciano Burti e Pedro Paulo Diniz tiveram passagens discretas, muito por falta de estrutura e oportunidades.

O próprio Rubens Barrichello, talvez o melhor estreante entre os brasileiros, só pôde brilhar graças a um carro mais competitivo em sua primeira equipe, a Jordan.

Comparado a todos eles, Gabriel Bortoleto possui um dos piores carros entre todos os brasileiros estreantes. E com uma Fórmula 1 que é muito mais equilibrada que aquela que o seu Cláudio conheceu na era de Ayrton Senna, extrair performances extraordinárias com esse carro será algo muito difícil.

Ninguém consegue fazer muito com um carro ruim.

Se nem Max Verstappen é deus com uma Red Bull que não é o melhor carro, que dirá o Bortoleto, que dirige um ônibus pintado de preto e verde fluorescente.

 

A crítica superficial da geração do “palpite sem base”

Muito do ódio dirigido a Bortoleto vem de um tipo de comentarista que se tornou comum nas redes sociais: o especialista de sofá.

Muitos desses críticos jamais se preocuparam em analisar dados de telemetria, ouvir as declarações dos engenheiros ou entender o contexto técnico da equipe. Preferem se basear em memes, achismos e comparações descabidas com pilotos de elite, ignorando completamente a realidade do grid atual.

Em vez de estudar o cenário e entender que a aposta de Bortoleto é a longo prazo — com olhos voltados para o projeto da Audi — preferem fazer julgamentos apressados, muitas vezes motivados por frustrações pessoais ou pura ignorância.

E eu sei que estou pedindo demais de uma galera que simplesmente tem preguiça de pensar ou raciocinar.

Um grupo de pessoas de diferentes gerações, que conta com bolos fecais no cérebro, simplesmente compartilham o chorume em forma de achismo disfarçado de opinião séria. São os responsáveis pelo grande mal recente da humanidade: a desinformação.

Burrice deveria ser crime inafiançável no Brasil, mas… como não sou presidente, não posso impedir as pessoas de serem analfabetas funcionais.

 

Reconhecimento técnico e aposta de longo prazo

Apesar do barulho nas redes, quem realmente entende de automobilismo tem elogiado o trabalho de Bortoleto.

Seu engenheiro chefe e nomes de peso como Mattia Binotto enxergam potencial no piloto. O brasileiro tem demonstrado maturidade, comprometimento e entrega constante de dados valiosos para o desenvolvimento do carro — elementos que são fundamentais para uma equipe que visa crescimento a médio e longo prazo.

Além disso, sua performance tem sido superior à de outros estreantes e até de pilotos com mais tempo na Fórmula 1. Jack Doohan, por exemplo, vive momento instável na Alpine, e nomes como Liam Lawson, que foi rebaixado pela Red Bull, não entregaram tanto quanto se esperava.

Bortoleto, mesmo em um carro limitado, tem feito seu trabalho com consistência e foco, entregando exatamente aquilo o que a Kick Sauber espera dele nesse primeiro ano na equipe.

 

Ódio disfarçado de crítica: o problema está em quem julga

No fim das contas, criticar Gabriel Bortoleto por não entregar resultados que estão fora de seu alcance técnico é, no mínimo, incoerente. E aqui, estou sendo gentil, pois poderia afirmar que é um ato de estupidez e ignorância flagrante, mas isso não é regra para todo mundo.

Algumas pessoas são simplesmente desonestas na avaliação ao piloto brasileiro, pois são sim conscientes das condições mais complexas que ele enfrenta na Kick Sauber. Aqui, o grande problema do seu Cláudio é querer apontar a mediocridade alheia em função da vida insignificante que ele leva.

A rejeição ao piloto parece mais enraizada em estereótipos, preconceitos e, talvez, na dificuldade de enxergar o esporte além da superfície. O brasileiro médio não pensa o esporte como esporte. Para ele, só presta quem vence.

Se existe um problema aqui, ele não está no desempenho do piloto — está na forma como parte do público consome e comenta Fórmula 1. Na forma e no conteúdo também, pois parte desse público não acompanhava a categoria até 10 anos atrás, e a outra parte abandonou e ignorou o que aconteceu nos últimos 30 anos.

Em comum, os dois grupos são completamente ignorantes sobre o assunto, e despejam verborragia nas redes sociais com a desculpa de que “são livres para dar a opinião que quiserem”.

É a geração do julgamento fácil, que transforma qualquer meme em argumento e qualquer derrota em fracasso absoluto, sem considerar contexto, estratégia ou planejamento de carreira.

Gabriel Bortoleto não é um prodígio pronto, mas é, sem dúvida, um projeto promissor. O tempo e as oportunidades certas dirão até onde ele pode chegar.

Por ora, o melhor que podemos fazer é analisar com mais critério e menos ranço gratuito. Mas sei que perdi o meu tempo escrevendo esse último parágrafo do texto.


Compartilhe
@oEduardoMoreira