Gratis

Antes de começar, não. Eu não preciso de uma cirurgia cardíaca. Está tudo bem com o meu coração, por enquanto. Porém, sinto facadas no rim e no estômago quando recebo algumas ofertas de “troca de publicidade” ou “divulgação de conteúdo” a troco de… “nossa, legal o seu trabalho” e “adorei o seu blog, e quero ajudar a divulgar o seu trabalho”. Será?

Escrevo esse post pois recebi nessa semana através do Twitter da @priscillasm um texto publicado no Estado de São Paulo, assinado pela jornalista Lúcia Guimarães (que admiro de longa data por acompanhar o seu trabalho na Globo News e no programa Manhattan Connection, na GNT), que recebe o sugestivo título de “Almoço Grátis“. No texto, ela aborda como jornalistas, blogueiros, editores e produtores de conteúdo se deparam com a deplorável prática do “escambo”. Onde (normalmente) apenas um lado sai em vantagem.

Eu adoro escrever para a internet. Adoro produzir conteúdos, comentar sobre música, tecnologia, esportes, TV, cinema… faço isso porque gosto. E, felizmente, ganho dinheiro com isso. Eu não vivo mais de “que legal o seu trabalho” ou “excelente texto”. Isso hoje garante a minha sobrevivência, e a manutenção das contas que são geradas para manter os meus trabalhos no ar.

Detalhe: trabalho esse que ofereço DE GRAÇA, e sem contar com parcerias com grandes portais.

Diariamente, eu me deparo com assessorias com tais ofertas “tentadoras”. Algumas são mais audaciosas, telefonando e cobrando a publicação, como se tivessem pago para que o texto vá ao ar. Não as culpo. Fazem o trabalho delas. São pagas para isso.

Vamos pensar um pouco nessa última frase: “essas pessoas são pagas para isso”. Isso… o que? Levar o conteúdo dos seus clientes (que pagam eles para fazer isso) alcançar o maior número de pessoas possível.

Aí, eu te pergunto: se essas pessoas, que precisam levar o conteúdo de seus clientes para o maior número de veículos possível, podem receber de forma honesta para fazer isso… por que eu não posso cobrar pelo espaço que estou cedendo? Afinal de contas, se estão me procurando, é sinal que algum valor o meu espaço possui, correto?

“Ah, mas somos nós que estamos te ajudando a oferecer conteúdo de qualidade para o seu blog/site, e…” Ok. Se eu só escrevesse porcarias nos meus blogs, essa conversa existiria?

Eu entendo que a coisa funciona da seguinte forma: eu escrevo sobre os assuntos que eu quero, da forma que quero, de modo espontâneo. A maioria dos posts dos meus blogs são frutos de pautas que eu entendi que são interessantes e proveitosas para o blog. Se as pessoas acham que são posts de qualidade ou não, é outra história. Isso acontece de forma orgânica, espontânea e natural.

Se uma agência me procura para publicar o seu conteúdo nos meus blogs, é porque eles entendem que o meu conteúdo (criado de forma espontânea) é de qualidade, certo? Ninguém quer divulgar nada em canoa furada, correto? Logo, meu espaço tem algum valor.

E esse é o meu trabalho. É o que paga as minhas contas. Tal como é o do funcionário de uma agência divulgar o produto de um cliente, correto?

Logo… por que eu não posso cobrar por isso?

Aliás, é preciso esclarecer uma coisa. Tal como foi dito no texto de Lúcia Guimarães, muitos afirmam que “escrever, qualquer ser alfabetizado escreve; já fazer uma cirurgia de coração, é algo para poucos”. Tá, então… escreve você então!

Acho que basear essa avaliação apenas na importância de cada atividade é um absurdo. É o mesmo limiar que compara um político com um lixeiro. Na boa, dou mais valor para aqueles que limpam as ruas da minha cidade do que aqueles que, em muitos casos, sujam a moral do brasileiro com esquemas corruptos.

Cada profissão tem o seu valor. Cada atividade merece ser remunerada. O meu estímulo hoje não se baseia apenas no reconhecimento de um trabalho bem feito, mas sim na compensação financeira do tempo e recursos técnicos empregados para desenvolver esse trabalho. Assim como em qualquer profissão. Simples assim.

Blogagem não é um hobby para mim. É uma forma de empreendedorismo que escolhi. É o meu sonho de trabalhar com tecnologia de forma prazerosa. E desde 2008 eu levo esse trabalho muito a sério, construindo um dos blogs de tecnologia que mais cresceram no Brasil.

Simples.

E aí? Alguém quer operar o meu coração em troca de publicidade grátis?