
Nem todos os grandes softwares foram concebidos por gênios da informática ou grandes personalidades do mundo da tecnologia. Algumas das melhores soluções apareceram de mãos anônimas, que quase nunca recebem o devido reconhecimento.
O Paciência (Solitaire) do Windows, um dos jogos mais icônicos da história da Microsoft, foi criado por um estagiário de 20 anos que nunca recebeu um centavo pela sua criação. Wes Cherry era estudante universitário quando chegou à Microsoft como estagiário no verão de 1988.
Ou seja, não é só o Steve Jobs que não sabia reconhecer os talentos ocultos na Apple. Bill Gates também deu aquela esnobada no cara que ajudou a consolidar a popularidade do Windows junto ao grande público.
Sim. Porque muitos de nós passamos horas no sistema operacional, só por causa do Paciência.
Um projeto fruto do puro tédio

Durante sua permanência na empresa, Cherry decidiu criar algo para se entreter nos momentos de folga. A inspiração surgiu após jogar uma versão similar do Paciência no Mac durante os estudos universitários.
Ele queria ter sua própria versão para Windows, e começou a programá-la em seu tempo livre para o Windows 2.1.
O desenvolvimento não foi uma tarefa simples, considerando toda a tecnologia disponível no final dos anos 80.
Cherry teve que fazer otimizações complexas para conseguir que o arrastar das cartas funcionasse com fluidez. A programação orientada a objetos era novidade na época, e não existia um compilador de C++ disponível para Windows no final dos anos 1980.
Inicialmente, o jogo acabou em um servidor interno da Microsoft chamado “Bogus Software”, onde programadores compartilhavam suas criações. Um chefe de produto da equipe Windows descobriu o game, e decidiu incluí-lo no Windows 3.0, lançado em 1990.
Quando Cherry descobriu que fez o Paciência de graça

Quando a Microsoft comunicou a decisão de incluir o Paciência no sistema operacional, deixaram claro que não pagariam nada além de fornecer um IBM XT para correção de erros. Cherry aceitou sem problemas, declarando estar “perfeitamente de acordo” com a situação.
Algumas pessoas, sabendo da decisão da Microsoft em relação aos royalties do jogo, chegaram a enviaram “um centavo” como piada ao longo dos anos, para agradecer ao programador por sua criação, totalizando cerca de 8 centavos recebidos por Cherry.
O próprio Bill Gates aprovou o jogo, embora tenha feito algumas críticas sobre sua jogabilidade. Segundo Cherry, a maior reclamação de Gates era que o Paciência era “muito difícil de ganhar”.
A Microsoft justificou oficialmente a inclusão do game dizendo que o programa serviria para ensinar as pessoas a usar o mouse, mas na realidade era simplesmente algo divertido, ajudando na procrastinação dos mais folgados.
Cherry chegou ao extremo de programar uma “tecla do chefe” que mostraria uma planilha falsa para funcionários que quisessem disfarçar enquanto jogavam no trabalho, mas a Microsoft rejeitou essa função.
Para outro jogo que criou posteriormente, o Pipe Dream, Cherry recebeu alguns milhares de dólares em ações da Microsoft quando o game foi incluído em um dos pacotes de entretenimento da empresa.
Atualmente, Wes Cherry se afastou do mundo da programação para se dedicar à produção de sidra na ilha Vashon, perto de Seattle, onde administra a Dragon’s Head Cider. Ele programa apenas ocasionalmente em C/C++ para controladores embarcados de equipamentos de fabricação de sidra.

