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Eu sou um astronauta. Não tenha dúvidas disso.


Os motores falharam. Como eu voltaria para a Terra?

Não havia qualquer tipo de solução para o problema daquela cápsula. Talvez eu já soubesse que iria morrer de alguma forma naquela missão: se não fosse por causa da explosão no lançamento, seria pela forte pressão da reentrada. Ou porque os sistemas iriam falhar, o motor ia desligar, e eu ficaria perdido no espaço.

Aliás, essa era uma das alternativas que o controle de missão em Terra. A outra era tentar voltar na próxima janela de reentrada e cair no Oceano Pacífico. Mas sem motores para controlar a velocidade, eu poderia morrer durante a queda. Aliás, chegaria à Terra morto. Ou morreria com o impacto na água, já que os para-quedas poderiam não aguentar a queda livre e sem freios.

Comecei a respirar de forma mais ofegante. Sentia que agora a ficha tinha caído, e que eu não teria como escapar de um destino inevitável. Seria uma eutanásia consciente, onde eu poderia escolher o momento onde desligar os aparelhos, e a forma sobre como seria os meus últimos momentos.

Normalmente, em uma situação como essas, eu não iria desistir. Iria tentar todos os recursos possíveis para recuperar o motor da nave, ou partiria para a missão suicida, voltando para a Terra em uma queda sem freios. Afinal de contas, o que eu tinha a perder? A vida? Ora, eu já estava com tudo contra mim. Não tinha como ser pior.

Logo, me restava dar um final digno à minha existência.

Informei à central de controle que iria sair da nave. Isso não estava previsto para esta viagem. Tanto, que os tanques de oxigênio do macacão estavam limitados a, no máximo, duas horas de ar.

A equipe de controle na Terra começou a rezar. Não sabia se estavam orando por um milagre, se estavam implorando para que eu mudasse de ideia, ou se eles simplesmente estavam encomendando minha alma. Mas por um instante me perguntei se Deus poderia mesmo me salvar de uma situação que eu estava escolhendo como enfrentar.

De qualquer forma, preparei meu macacão. Conectei o tanque de oxigênio. Abri a porta da cápsula.

Fechei os olhos. Meu coração acelerou de novo.

Pisei no vazio.

Senti de novo meu corpo flutuar.

Mais uma vez, fiquei maravilhado com a sensação de gravidade zero. A liberdade da suspensão do corpo no espaço vazio que, na realidade, me sustentava dentro de um universo infinito e cheio de energia. Me sentia sustentado pela força desse universo para simplesmente me deixar levar pela imensidão do espaço.

Nesse momento, fechei os olhos novamente. Queria sentir minha esposa me abraçando. Sempre imaginei que morreria nos braços dela, mas já que isso não seria possível, decidi projetar essa imagem em minha mente, apenas para me sentir mais confortável com aquela situação.

Eu estava me sentindo em paz. Estranhamente.

Conseguia me conectar novamente com esses nobres sentimentos que mantinha a minha família unida. Pensei nos meus filhos, e pedi secretamente que eles pudessem crescer felizes e saudáveis. Eu iria sentir muita falta deles, assim como eles sentirão falta de mim. Mas vão saber seguir em frente. São crianças inteligentes, e a mãe deles saberá cuidar de sentimentos para que eles não se percam no meio do caminho.

Abri os olhos novamente. Eu queria ver as estrelas. Mas elas estavam tão distantes…

Sempre me disseram que as estrelas eram outros astros celestes. Sóis, luas, planetas… tudo balela.

Quando olhei para elas, identifiquei vários dos seres amados que não mais viviam na Terra. Cada uma dessas estrelas são aqueles se foram, nos protegendo, nos inspirando. Eu sempre quis me reencontrar com meu avô, que me inspirou a buscar o espaço.

Ele sempre me ensinou a buscar o espaço. Com coragem. E foi por causa dele que me tornei um astronauta na vida.

Eu passei a minha vida sem medo. Enfrentando tudo e todos. Enfrentando aquilo que muitos consideravam como realizações impossíveis. Enfrentando quem e o que me desafiava. Aquele voo no espaço era apenas o ato final de coragem de alguém que viveu uma vida na incessante busca pela auto superação. De quem quis se superar sempre. De quem viveu uma vida inteira buscando a evolução.

Até chegar no espaço.

O oxigênio está acabando. Volto a fechar os olhos, para simplesmente dormir para não mais acordar. Decidi que meu fim seria dormindo, com o espaço como cama, o cosmos como travesseiro, e as estrelas como meu teto.

E o silêncio desse infinito como minha trilha sonora.

Silêncio.

De repente, acordo em uma sala branca. Muito iluminada. Um clima de paz se fazia ao redor. Uma música tranquila tocava, formando uma combinação perfeita do perfume de rosas que impregnava o ambiente.

Eu fiquei parado por alguns instantes, apenas sentindo aquele local. Me sentia muito bem. Sentia uma paz inédita. Inexplicável.

Até que minha meditação é interrompida por uma energia em forma de luz azul. Não tinha rosto. Não tinha forma. Era uma energia amórfica e intensa.

Sem dúvida, uma forma de vida superior, já que conseguia ler a minha mente. Se forma telepática, deu as boas vindas, me informando que estava tudo bem, e que tudo ficaria bem quando essa experiência chegasse ao fim.

Então, eu disse a frase que acreditava que jamais sairia da minha boca um dia.

“Leve-me ao seu líder”.

CONTINUA

“Rocket Man”
(Elton John, Bernie Taupin)
Elton John, 1972


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