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O grande soco no estômago da sociedade, em forma de canção.

“Você pode ficar com a patente do casamento, da família… mas não pode ter a patente do amor.”

Eu disse isso para um padre, dentro de uma igreja católica, em um debate ecumênico. O tema? Os valores e os bons costumes da sociedade cristã. Eu até entendo que o padre daquela paróquia queria apenas defender sua fé e aquilo que ele acreditava. Porém, já era sabido que ele não gostava de negros. Então, eu decidi desafiar.

Afirmei que, pensando friamente, podemos concluir que o casamento, como instituição, é um fracasso. Afinal de contas, 50% dos casamentos entre heterossexuais acabam em divórcio no primeiro ano. Sem falar naqueles que continuam baseados na infelicidade, sofrimento, traições, mentiras, prevaricações, omissões, agressões físicas, violência sexual…

Enfim, o casamento é um fracasso.

Além disso, afirmei que meu conceito de família era bem diferente. Para mim, família é aquele grupo de pessoas que se amam e que estão juntas, para o que der e vier. Não desprezo o conceito de família tradicional (pai, mãe e filhos). Afinal de contas, ela é a base da sociedade. Mas não dá para negar que muitos de nós contam com aquela família que escolhemos. Os amigos, os companheiros. Aquelas pessoas que nos amam incondicionalmente, que estão ao nosso lado para qualquer coisa.

De novo: eu queria provocar um racista e um preconceituoso. Mas queria defender aquilo que eu acreditava ser o certo e o verdadeiro.

Na verdade, entendo que padres como ele estão entrando em extinção. A própria Igreja Católica (ou o seu representante máximo, o Papa Francisco) já olha para os homossexuais com mais amor e humanidade. O que beira ao óbvio, já que estamos falando de seres humanos.

Porém, ainda temos pessoas que entendem que apenas os heterossexuais cristãos possuem a patente do amor verdadeiro, algo que eu acho patético. Ou vai me dizer que o marido que trai a esposa com uma prostituta ama de forma mais sincera do que dois homens que estão juntos há 15 anos?

O amor não é patente das religiões. Não é patente dos heterossexuais. O amor é algo que todos devem e merecem sentir. Precisam disso para viver. E é do ser humano, independente de qualquer coisa.

Mas o que mais me revoltou nessa história toda foi as desculpas dadas pelo representante da igreja. Coisas do tipo: “a lei dos homens quer colocar o mundo em pecado, jamais pode ser admissível o casamento entre dois homens… não é o que Deus quer!”.

Vem cá… o mesmo Deus onipresente, onipotente… e que ama TODOS OS SEUS FILHOS???

Que Deus é esse que deixa um grupo do seus filhos desamparados? Quer dizer que eles serão punidos porque nasceram assim, ou seja, porque Deus “errou”?

Mas… Deus não é perfeito???

“Estou confuso!!!” #SoQueNão #EstouDeBrinks #ÉIroniaOK

Sério… eu não tenho mais paciência para discutir nesses termos, pois fatalmente vou questionar esses posicionamentos que vem de uma interpretação torpe de livros sagrados. Em nenhum momento Deus afirmou que os homossexuais devem ser excluídos, perseguidos, humilhados e até ameaçados por pessoas que, em alguns casos, profanam para esconder seus preconceitos.

Uma coisa que precisa ficar bem claro: não é pelo papel, nem pelo casamento, muito menos pelo rótulo babaca do “estar casado”. O que os homossexuais desejam são os vários direitos civis que estão implícitos no simples fato de estarem casados. Plano de saúde, lei do divórcio, pensão em caso de morte do companheiro, direito à herança… até a dependência em clube, o que é uma coisa banal.

Nada disso é direito para os gays.

Pior: nesse momento, não existe uma lei para os casos de crimes de ódio contra os homossexuais. Não existe uma lei que resulte em prisão casos flagrantes de discriminação contra os homossexuais, como acontece hoje com os negros. Isso é muito mais grave, em vários aspectos.

Sim. Um sujeito pode matar um gay hoje e pode responder apenas pelo assassinato, sem ter o agravante de ser um crime de ódio específico para um grupo de pessoas. E em caso de lesão corporal, nem isso.

No final das contas, todos devem e merecem ser vistos pelos mesmos olhos da lei. Assim como eu tenho certeza absoluta que Deus olha para todos os seus filhos com olhos de amor. Não acredito de forma alguma que Deus é seletivo, que erra ou que escolhe quem amar ou para quem vale o amor.

Não estou me fazendo de certinho ou politicamente correto. Como alguém que faz parte de uma minoria que sofre do preconceito de tempos em tempos (sério, tem gente que simplesmente odeia negro…), eu apenas defendo as causas que eu acredito. Defendo os valores que meus pais ensinaram. Defendo o que a minha fé prega: que somos todos iguais.

É o mesmo amor. Para todos.

Se essa música existisse quando houve essa discussão, eu não teria gastado saliva com quem jamais iria entender o que quero dizer. Apenas deixaria uma folha com a tradução dessa canção. Eu vibrei quando ouvi essa música pela primeira vez. É um dos textos mais perfeitos e diretos. Representa de forma muito forte tudo o que eu acredito sobre esse tema.

Estamos diante de um dos textos mais belos e fortes em combate ao preconceito. Diz tudo o que penso sobre a questão, e encerra de uma vez por todas qualquer discussão com qualquer ser preconceituoso. É um soco no estômago da sociedade, com muita força.

Qualquer pessoa se sente até incomodada com a história narrada, com as palavras ditas e, principalmente, com as lições que essa canção deixa. Foi uma música tão forte, que influenciou na decisão do estado do Washington aprovar o casamento entre homossexuais. E não duvido que ajudou e muito na decisão posterior, que considerou válido o casamento entre homossexuais nos 50 estados norte-americanos.

Enfim… é o mesmo amor.

O mesmo amor que você sente por alguém especial. O mesmo amor que eu sinto pelas pessoas que são especiais na minha vida.

Amor não vê cor, classe social, idade… muito menos gênero.

Não me arrependo do que fiz. Não me arrependo de defender o que acredito.

Farei isso até o final.

Pois vivo acreditando em um único amor.

O mesmo amor.

Para todos nós.



“Same Love”
(Ben Haggerty, Ryan Lewis, Mary Lambert, Curtis Mayfield)
Macklenore and Ryan Lewis, 2012


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