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São tantos anos juntos… muitos anos… Mas me lembro de quando conheci você.

Naquele tempo, tudo era mais inocente, lúdico, romântico. Você era linda, eu tinha uma boa aparência. Mas o máximo que podíamos fazer era trocar olhares. Quando lhe ofereci flores pela primeira vez, eu estava nervoso. Quando você recebeu, você timidamente sorriu, e seu rosto corou.

Você não imagina o quanto eu caminhei para colher aquelas belas flores para você. Seus lindos cabelos deixavam aquela flor em destaque. E eu adorava vê-la assim. Sabe, eu fui me apaixonando por você aos poucos. O seu jeito meigo de ser, a sua singeleza. Sua simplicidade me encantava.

Meus olhos se enchiam de alegria e esperança quando eu via você. E conseguia ver o carinho que você tinha por mim quando me encontrava. Sentia que você era o amor de toda a minha vida.

Eu fico feliz por ter a honra de ter conquistado seu coração. Você não tem ideia do quanto eu me sinto feliz por ser seu companheiro de vida ao longo desses anos. Eu tenho certeza que não seria tão feliz se eu no tivesse a família que construímos juntos.

Nossa família.

Diante de todas as dificuldades da vida cotidiana, tivemos lindos filhos, que nos deram netos mais lindos ainda. Nosso primeiro bisneto está chegando, e eu mal posso esperar para que ele conheça você. Ele vai adorar a “bisa”, que com certeza vai enchê-lo de carinho e amor.

Mas…

Hoje, estamos velhos. E sozinhos. Só nos dois, nessa casa enorme.

Te sinto distante por não ter sido na íntegra o companheiro que você sempre sonhou ter. Eu passei tempo demais me dedicando ao trabalho, buscando incansavelmente o sustento da nossa família. Eu deveria ter ficado mais tempo em casa aprendendo como trocar as fraldas dos nossos filhos, deveria ter dado mais bronca no filho do meio, deveria ter frequentado mais as reuniões de pais e mestres… deveria ter me aposentado antes, para curtir mais a vida com você.

Eu sei… eu sinto que deixei de estar presente em momentos importantes da nossa vida.

Tentei não envelhecer diante dos seus olhos, apenas para que você se orgulhasse em ter como companheiro alguém que manteve a jovialidade do passado. Porém, cometi o erro de não atualizar meus conceitos e ideias, de não inovar nas minhas convicções e percepções. De não me atualizar para que você fosse mais feliz.

Hoje eu vejo que perdi com você várias oportunidades. Que deixei de ver o pôr do sol ao seu lado, que deixei de dançar aquela música belíssima, que deixei de abraçar e beijar em qualquer lugar. Hoje, eu vejo que perdi tanto tempo na vida buscando o essencial, quando na verdade o essencial sempre esteve comigo, ao meu lado.

Hoje, meu corpo está cansado. Não tenho mais a mesma aparência de antes, não consigo mais caminhar quilômetros por causa de uma flor. Mal consigo sorrir, por vergonha de mostrar ao mundo que meus dentes me abandonaram.

Porém… eu estou aqui. Ao seu lado.

Para mim, você sempre foi aquela bela mulher que conheci na juventude. Até a acho mais bela, pois a flor azul que eu colhia fica ainda mais destacada quando colocada em sua cabeça, já que seus cabelos brancos cor de neve a deixam em evidência.

E eu só colhia aquela flor azul porque combinava com a cor dos seus olhos.

Posso hoje não falar muito de amor. Posso não saber mais beijar como antes. Posso não mais te entregar os prazeres físicos dos tempos da juventude. Mas posso te entregar meu amor da forma mais singela e sincera que tenho a oferecer.

Ainda mais nesse inverno.

Venha… me deixe te abraçar.

Venha ser acolhida pelos meus braços cansados. Me deixe sentir o seu calor, e me deixe dar o meu calor para você. Se permita sentir que, ao longo desses anos, eu te amei intensamente. E te amo, do mais profundo do meu ser.

Me deixe sentir seu coração batendo. Permita que eu aqueça sua alma.

Obrigado por estar no meu caminho por tantos anos. Obrigado por caminhar ao meu lado. Obrigado por ser a mulher mais importante da minha vida. Obrigado por me aceitar. Obrigado por me amar.

Eu sei… está frio lá fora. Mas você está aqui comigo.

Encoste sua cabeça no meu peito… cole o seu corpo no meu…

Que eu aqueço o frio dos seus pés.

“Sapato Velho”
(Mu,Cláudio Nucci e Paulinho Tapajós)
Roupa Nova, 1981


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