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Se eu morrer, não usem a minha morte no TikTok

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De tempos em tempos, eu paro para pensar nessa superexposição que as pessoas estão fazendo nas redes sociais, e refletindo o que eu mesmo estou publicando nessas plataformas.

Estou aos poucos deixando de compartilhar certos aspectos da minha vida para focar em conteúdos menos comprometedores, como os produtos que recebo para testes nos blogs e algumas atividades públicas que estou participando.

Porém, uma determinada situação que viralizou pelos motivos errados no TikTok levanta outro ponto importante dessa questão: até que ponto a morte de alguém pode ser compartilhada nas redes sociais, e com qual finalidade?

Reagir a uma morte e publicar nas redes sociais é algo que sensibiliza as pessoas de verdade? Ou só acontece para obter engajamento e visibilidade com a exploração da perda alheia?

 

 

 

React de uma morte vindo de uma enfermeira

Se fosse o Logan Paul gravando um vídeo diante de um cadáver no Bosque dos Suicidas no Japão, ele automaticamente seria chamado de escroto. E nós concordaríamos com isso.

Agora, o que devemos pensar de uma enfermeira que perdeu um paciente e gravou um vídeo com a sua reação diante do fato para compartilhar no TikTok?

Antes de começar a jogar pedras em quem quer que seja, vamos pelo menos tentar olhar para todas as perspectivas deste evento.

Por um lado, a enfermeira é humana. Ela pode ter um sentimento genuíno pelo paciente e por seu trabalho, e pode ao menos tentar sensibilizar as pessoas para a importância da vida e em como ela pode desaparecer a qualquer momento.

Por outro lado, não acho que o melhor local para fazer isso é no TikTok, usando uma música de fundo, sem falar que muitas pessoas levantam dúvidas se aquela que aparece no vídeo é uma enfermeira de verdade ou uma atriz usando vestimentas da profissão.

Afinal de contas, é a internet e o TikTok. Logo, é normal desconfiar da autenticidade do que estamos vendo.

 

 

 

Por que o vídeo foi criticado?

Porque o resultado do vídeo não foi dos melhores nos aspectos conceituais.

Na verdade, não caiu bem fazer esse tipo de coisa. Usar uma música da Sia no fundo não ajudou muito (o que mostra que o vídeo foi feito mesmo para sensibilizar e engajar a audiência), sem falar na inevitável questão da ética profissional que foi levantada pelos internautas.

De fato, não sei exatamente se aquela profissional de saúde tem autorização para publicar um vídeo como esse, mesmo que a imagem de nenhum paciente apareça no vídeo.

É importante lembrar que, durante o caos sanitário que o Brasil viveu nos últimos dois anos, muitos médicos e enfermeiros que estavam desesperados com a escalada de mortes nos hospitais gravaram vídeos implorando para que as pessoas tomassem as prevenções necessárias para evitar o pior.

Alguns desses vídeos mostravam a reação de profissionais de saúde exaustos pelo trabalho e se lamentando pelas vidas perdidas.

Porém, em nenhum momento eu vi um vídeo sequer com a participação de um paciente entubado ou morto.

Outro detalhe importante: todos os vídeos em questão estavam diretamente relacionados com uma crise sanitária global, em um problema que afetava ao coletivo como um todo, e não um único paciente.

De qualquer forma, por melhor que fosse a intenção da pessoa que publicou o vídeo original, a sua repercussão na internet foi a mais negativa possível.

Muitos acusaram a enfermeira do seguinte: “um paciente morre, e a primeira coisa que ela faz é gravar, editar e publicar um vídeo para ser viral”. E não podemos culpar as pessoas por pensarem assim.

Bem sabemos como existem produtores de conteúdo desesperados pela visibilidade instantânea nas redes sociais.

 

 

 

Eu não quero minha morte no TikTok

Mesmo que seja de forma indireta, o vídeo está relacionado à morte de alguém. E eu considero isso um erro grosseiro.

Jamais gostaria que a minha morte estivesse vinculada de alguma forma a um vídeo no TikTok ou a qualquer conteúdo que resulte em engajamento instantâneo nas redes sociais.

Entendo esse tipo de atitude como um enorme desrespeito ao paciente falecido e aos seus familiares. Por mais que a enfermeira (se é que estamos diante de uma enfermeira de verdade) estivesse genuinamente sofrendo com aquela perda, este é o tipo de reação que ela deve guardar para o ambiente privado.

Nem mesmo os familiares do paciente devem testemunhar isso.

Eu compreendo que todos nós somos seres humanos com sentimentos, e nossas emoções merecem ser expressas, até mesmo como demonstração de empatia.

Porém, existe o momento e o local para isso. E o TikTok está bem longe de ser o melhor local para realizar esse tipo de exposição. Principalmente quando o ato em si dá a entender ao coletivo que foi algo premeditado e planejado.

Não estou aqui para julgar a enfermeira ou o vídeo em si. Por outro lado, me recuso a compartilhar o vídeo em questão, por todos os motivos que já foram apresentados neste post.

Eu só levanto essa discussão como ponto de reflexão para todos.

Mais uma vez, peço que cada um de nós procure pensar um pouco sobre como estamos alimentando as redes sociais com conteúdos desnecessários. E como algumas pessoas demonstram o seu único propósito em obter engajamento e visibilidade nessas plataformas.

Mesmo que, para isso, esses produtores de conteúdo acabem desrespeitando a imagem de pessoas que não podem responder a essa absurda violação de privacidade.


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@oEduardoMoreira