
Bom, já estou preparado, porque o Felipe Neto vai me processar. Pior: quem vai me processar mesmo é o Luccas Neto.
Vocês viram um dos últimos vídeos do Felipe Neto com aquela treta pública que ele e o irmão tiveram?
Nele, o Luccas Neto afirma que o Felipe não ajudou a família depois que saiu de casa e se tornou youtuber. Lucas ainda diz que teve que ir para o YouTube em nome da própria sobrevivência.
Assim como (quase) todo mundo nessa plataforma, estou no YouTube gravando vídeos para tentar ganhar dinheiro. É o mundo do capitalismo.
Se fosse o comunismo, o Luccas Neto talvez redistribuísse parte do dinheiro que ganhou com vídeos como aquele famoso “mergulhando numa banheira de Nutella”.
Vamos falar um pouco sobre essa lamentação do Luccas Neto.
Fala infeliz de quem tem privilégio
A fala dele sobre ter entrado no YouTube por uma questão de sobrevivência é infeliz. Ele poderia ter escolhido outro emprego: bancário, caixa de supermercado, empacotador, costureiro, pizzaiolo, gari… E que fique claro: ser gari é uma profissão digna.
Talvez não seja digno ser deputado ou senador, porque sabemos como essa classe acaba ferrando com o povo.
Eu, como produtor de conteúdo na internet, sei que sou um privilegiado. Aliás, como pessoa preta e produtor de conteúdo, sou ainda mais privilegiado.
Vim de uma família de classe média. Meus pais saíram de um conjunto habitacional, participaram de um leilão da Caixa Econômica, compraram uma casa e pagaram as prestações. Sempre tivemos casa própria, mas nunca tivemos carro na garagem — só depois que meus avós faleceram.
Produzo conteúdo há 17 anos. No blog, são 17 anos. No YouTube, são 15 anos. Acordo às 6h para escrever meus artigos, gravar vídeos, editar e publicar.
Não é uma vida fácil, mas está longe de ser a realidade de quem recolhe o lixo nas ruas, cuida de idosos, trabalha como babá ou empregada doméstica. Minha vida é muito mais fácil do que a de qualquer pessoa CLT.
Por isso defendo a jornada 4 por 3. Quem trabalha com carteira assinada precisa de tempo para viver, fazer compras, estar com a família, descansar, ter higiene mental.
Eu trabalho em casa e não posso simplesmente desejar que outros não tenham mais direitos para viver melhor.
Me dá um ranço ver produtores de conteúdo tratando como grande sacrifício ligar a câmera e gravar vídeos com estrutura já pronta, usando o equipamento do irmão — um dos maiores youtubers do Brasil — dentro da própria casa.
Nem entro no mérito da polêmica entre Luccas e Felipe Neto. É questionável dizer que Felipe não ajudou, já que Luccas morou com ele, tinha um espaço na casa, produzia conteúdo com o irmão.
Quando a situação ficou tensa, Felipe mandou a mãe deles para Portugal, pensando na segurança dela.
Não estou aqui para defender Felipe Neto. Meu foco é questionar se é legítimo dizer que gravar vídeo no conforto do lar, com seus próprios equipamentos e horários, é um “sacrifício”.
É claro que ser produtor de conteúdo tem suas dificuldades — estou gravando vídeo rouco para manter o canal ativo, para mostrar ao algoritmo que continuo produzindo.
Penso em lançar vídeos todos os dias, mas no momento publico de segunda a sexta no TargetHD.net, por questões de saúde mental.
Tenho direito a descanso, a vida offline, a momentos com quem amo. Todo mundo tem esse direito, inclusive quem pega ônibus às 4h da manhã e encara horas de trajeto, chefe abusivo, salário baixo e contas a pagar.
Mas reconheço que minha vida como produtor de conteúdo é muito mais fácil do que a da maioria dos brasileiros.
Parem de reclamar!
E não é só o Luccas Neto. Muitos produtores estão reclamando do algoritmo e das novas políticas do YouTube, incentivando outros a não produzirem mais.
Para essa galera: parem de reclamar. Vocês estão em uma elite.
Não é por “sobrevivência” que foram para o YouTube. Foram porque viram um caminho mais fácil que o da CLT.
Claro que há talento, mérito e criatividade nisso, mas não ignorem os privilégios.
Se você acha muito difícil criar, planejar, gravar, editar e publicar vídeos, talvez seja hora de experimentar outro tipo de trabalho: atendente do McDonald’s, escriturário, caixa de supermercado, cuidador de idoso, diarista, gari.
Talvez aí você perceba a comodidade e os privilégios de ser youtuber, podcaster ou blogueiro.
É curioso como muitos só conseguem medir a vida com a própria régua, sem considerar como é a realidade dos outros.
Vale para mim, para você e para todo mundo que tem uma condição melhor, mas não consegue reconhecer isso.
Talvez devêssemos reclamar menos da baixa audiência, da falta de patrocínio e mais observar que, mesmo nos ferrando na produção de conteúdo, ainda temos uma vida muito mais fácil do que a maioria dos brasileiros.
Então… reclamar disso?
É quase… bom. Vou parar por aqui.
Senão o Luccas Neto vem com os advogados dele, e aí estou lascado. Mas é muito chato ver produtor de conteúdo dizendo que gravar vídeo é questão de sobrevivência.
Você poderia ter feito qualquer outra profissão. Ainda acho que escolheu um caminho que, apesar do trabalho, é bem mais leve do que a maioria é obrigada a enfrentar diariamente.

