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A grande banda da minha geração. Ou talvez a principal referência de rock nacional que eu tive nos primeiros anos da minha vida.

É sempre difícil escrever sobre Legião Urbana. Falem o que quiser. Os mais novos podem achar chato demais. Assim como eu acho a geração mais nova bem chata. De qualquer forma, o tema aqui não é chatice, mas sim como essas músicas impediram que eu fosse um chato completo.

Em diversos momentos da minha vida, a convivência com a minha mãe foi conturbada. E isso se refletia nas músicas que compõem a trilha sonora da minha vida. Hoje, esses problemas estão superados, porque não só compreendi que toda a rigidez da criação que ela adotou comigo e com minhas irmãs aconteceu com o objetivo de que nenhum de nós se perdesse na vida.

Aliás, depois que você sai de casa, você compreende que nossos pais acertam e erram sempre com o objetivo de acertar conosco, com o objetivo que evitemos os mesmos erros que eles já cometeram.

Porém, de forma inevitável, vamos cometer erros. Os nossos erros. Como nossos pais. Mas essa é outra música.

“Será” se vale pela letra. É um texto que fala sobre a necessidade de entendimento entre duas pessoas que se amam, mas que estão em conflito por conta das posturas, escolhas e filosofias de vida. Ou seja, o que acontece em 95% das relações humanas.

Por outro lado, parece que dói mais quando acontece com a gente. Quando envolve as pessoas que mais amamos. Quando envolve o núcleo familiar, que em tese deveria ser uma base de amor. De fato, é sim uma base de amor. Mas em alguns casos, temos que aprender a amar também as diferenças que a outra pessoa nos apresenta.

Eu já disse que sempre tive um espírito mais alegre, vivendo o ritmo da vida de forma constante. Eu sempre busquei ter um espírito livre, uma mente que tivesse liberdade para desenvolver projetos, realizar. Ter voz para falar. Me expressar. Dizer o que se passa dentro de mim para o mundo.

E, em alguns momentos pontuais da minha infância e adolescência, comecei a me sentir tolido em alguns desses aspectos. Também pelo medo daqueles que eram responsáveis por mim de que eu errasse.

Minha mãe… filha de militares. A favor da ditadura militar. E ela queria que eu fizesse o Exército. Isso jamais iria acontecer.

E quando os pensamentos e objetivos de vida são tão divergentes… os conflitos aparecem.

Essa música, para mim, é uma das que ilustram esse período conturbado dessa convivência. Podem me chamar de “rebelde sem causa”, desobediente, indisciplinado, desrespeitoso… nada disso é relevante para mim hoje. A única coisa que queria na época era ser livre para fazer minhas escolhas, sem ter que passar pelo crivo das convicções de minha mãe. Sem necessariamente machucá-la pelo fato de querer ser livre.

Por diversas vezes nos envolvemos em discussões que hoje entendo que foram fúteis, inúteis. Poderiam ser evitadas pelos dois lados. Questões que eram divergentes para nós dois, mas que se fossem abordadas com maior paciência dos dois lados, fariam com que ambos crescessem.

Mas não funcionava assim.

Me via em um cenário onde estava me sentindo preso pelos conceitos e pré-conceitos. Eu já entendia bem o que se passava pela minha cabeça e meu coração. Começava a compreender o meu interior, e as minhas necessidades e aspirações para os próximos passos da minha vida.

A única coisa que eu queria que ela me ouvisse. Queria que ela me entendesse.

Queria que as coisas fossem mais simples. Para nós dois.

Hoje, não reclamo dos monstros que eu e minha mãe criamos. Foram necessários para nos aproximarmos de uma forma diferente daquela que idealizamos originalmente. Com o passar do tempo, e vários acontecimentos, compreendemos que não poderia ser essa luta constante de um querer prevalecer no pensamento do outro, ou mostrar que sua opinião era melhor do que a do outro.

Entendemos que abrir mão de certas coisas valia a pena para uma melhor convivência. Isso não é se acovardar. Isso é mostrar que existe compreensão sobre a condição do outro.

Minha mãe errou, tentando acertar. E acertou.

Eu errei, tentando acertar. Aprendi com meus erros. Também acabei acertando no erro.

Mas antes disso tudo acontecer… várias coisas aconteceram no meio do caminho.

Aos poucos eu vou contando todas essas histórias.

 

“Será”
(Renato Russo, Dado Vllla-Lobos, Marcelo Bonfá)
Leigão Urbana, 1985

 


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