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Sim… eu entendi o Galactus… e também não me importei com ele

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Quero deixar bem claro antes de começar o artigo: eu não tenho qualquer tipo de problema com os nomes mencionados. Pelo contrário: sou inscrito nos dois canais, e no caso da Isabela, até declarei o meu amor por ela, mesmo ela sendo casada.

Então, meus queridos haters… segurem a onda para me criticar, difamar ou até mesmo me denunciar para eles. Tudo o que vou escrever são questionamentos e opiniões que entendo serem pertinentes diante de uma briga que é a internet que está forçando que aconteça a todo custo.

A controvérsia da vez é a avalanche de críticas direcionadas à jornalista e crítica de cinema Isabela Boscov, que supostamente não teria compreendido adequadamente o papel do vilão Galactus no filme “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”. O Pablo Peixoto, do canal “Quatro Coisas”, apenas comentou sobre o hate direcionado à crítica dela, mas não é o responsável por iniciá-lo.

A polêmica gira em torno da percepção de que Boscov não teria prestado atenção suficiente ao filme para entender as motivações do Galactus como devorador de mundos.

Então… eu entendi os propósitos do Galactus… mas dei importância zero para isso. E esse é um dos pontos mais problemáticos do filme.

 

A Marvel já fez vilões melhores…

É impossível não respaldar meu ponto sem comparar o desenvolvimento narrativo do Thanos no Universo Cinematográfico Marvel (MCU) e a apresentação do Galactus no novo filme.

O Thanos foi cuidadosamente construído ao longo de múltiplos filmes, desde sua primeira aparição em “Os Vingadores” até sua conclusão em “Vingadores: Ultimato”. Esse desenvolvimento permitiu que o público compreendesse suas motivações complexas, mesmo aqueles não familiarizados com os quadrinhos.

O vilão tinha uma filosofia distorcida mas compreensível: eliminar metade da vida no universo para equilibrar recursos naturais, baseada em sua experiência traumática em seu planeta natal. E com o passar do tempo, fomos entendendo de forma clara em como esse propósito era realmente a pedra fundamental de sua visão para a execução do seu plano.

Tudo bem, podemos (e devemos) questionar se os fins justificam os meios no caso de Thanos, já que seria igualmente aceitável dobrar os recursos naturais para resolver o problema. Afinal de contas, quem é que defende o genocídio em massa?

(desculpa, sei que alguns – inclusive leitores – defendem isso, mas essas pessoas são apenas idiotas)

Mas é fato que, quando Thanos decide ser o protagonista da narrativa em “Vingadores: Guerra Infinita”, está mais do que claro para todo mundo quais são os seus objetivos. Inclusive para quem caiu de paraquedas naquele filme, pois o roteiro se dá ao trabalho de reforçar essa explicação com muita competência.

No caso de Galactus, isso nem passou perto de acontecer.

Só é dito que “ele é um devorador de mundos com fome”, mas sem qualquer tipo de aprofundamento no seu propósito. É quase descartável essa obsessão em devorar planetas, sendo que esse argumento poderia sim ser melhor desenvolvido e aprofundado a partir de um roteiro com um desenvolvimento melhor, ou até mesmo por uma trilogia de filmes que contasse essa história com mais tempo e detalhes.

E isso, porque não estou mencionando outros vilões excelentes que a Marvel Studios entregou ao longo de quase duas décadas no cinema: Duende Verde (em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa – já que ele agora faz parte do MCU de alguma forma), Loki, Killmonger, Alto Evolucionário, Ultron, Soldado Invernal…

A Marvel Studios dá a impressão que, em algum momento, se perdeu no meio de tantas ideias. Um indício disso foi não aproveitar o Kang de forma correta, nem mesmo para reformular ou salvar o personagem.

Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, teria confirmado recentemente à imprensa que já havia decidido abandonar o Kang como próximo grande vilão antes mesmo dos problemas legais envolvendo Jonathan Majors. As conversas para trazer Robert Downey Jr. de volta como Doutor Destino teriam começado antes da situação com Kang se deteriorar completamente.

Ao meu ver, essa foi uma decisão prematura, já que o desenvolvimento do Kang em “Loki” apresentava potencial narrativo interessante que foi desperdiçado.

Na verdade, o Kang foi descartado pela Marvel quando Jeff Loveness entendeu que era um bom final fazer o Homem-Formiga derrotar um vilão tão poderoso dentro do reino quântico. Aqui, tudo degringolou de vez para o personagem.

 

Por que Isabela Boscov não se importou com o Galactus

O Galactus em “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” é apresentado como um antagonista sem desenvolvimento adequado de suas motivações. O filme explica sim que ele devora planetas e busca os poderes de Franklin Richards (filho do Senhor Fantástico), mas essas explicações são consideradas superficiais e insuficientes para gerar engajamento emocional do público.

O filme falha ao não explorar o contexto histórico e as razões mais profundas por trás das ações do vilão, resultando em um “inimigo em escala” sem substância narrativa. Galactus se torna, literalmente, o “monstro do dia” dos Power Rangers (e essa referência ficou evidente no filme).

Defendo Isabela Boscov, não apenas porque sou apaixonado por essa mulher. Eu entendo que filmes destinados ao grande público devem ser autossuficientes em sua narrativa, onde tudo o que você precisa receber para realmente se envolver ou até se importar com a história precisa ser contado pelo tempo de tela do filme.

Quando você se vê obrigado a recorrer aos quadrinhos ou ter um “manual de instruções” para absorver a experiência completa ou, neste caso, se importar com as motivações dos personagens, é sinal que o roteiro falhou em algum momento. Ou em vários.

Como crítica cinematográfica profissional, Boscov analisa os filmes por critérios técnicos e narrativos, não sendo obrigatória a familiaridade prévia com os quadrinhos ou universo expandido. E até mesmo o desenvolvimento de um roteiro é considerado aspecto técnico, vejam vocês.

E para quem entende que Boscov deixou de fazer o seu trabalho porque “não prestou atenção para algo que foi dito pelo filme”, eu digo: acreditem se quiser, críticos de internet, mas… Isabela é um ser humano. Que trabalha com cinema porque gosta disso tanto quanto você.

A prova de que o problema é o roteiro de “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” e não da crítica que a Boscov fez é que a mesma Isabela ficou atenta a alguns supostos excessos de roteiro de “F1: O Filme”, a ponto de pesquisar depois sobre as regras da categoria, só para descobrir se tais eventos eram críveis ou possíveis no mundo real.

 

(Mais um) erro da Marvel Studios nesse caso

Reforçando: quando um filme chega aos cinemas, ele deve funcionar independentemente do conhecimento prévio do espectador sobre os personagens, pois o objetivo é atingir o público geral e gerar lucro, não apenas satisfazer fãs de nicho.

Eu não concordo com a escolha criativa da Marvel de introduzir Galactus já no primeiro filme do Quarteto Fantástico. Para mim, é um erro estratégico. Um vilão dessa magnitude deveria ter sido reservado para um terceiro filme, após o estabelecimento adequado dos heróis e do universo narrativo.

Tal abordagem permitiria um desenvolvimento mais orgânico e impactante, similar ao que foi feito com outros grandes vilões da Marvel ao longo de múltiplos filmes.

A mesma Marvel Studios parece rejeitar o que já fez tão bem. É só olhar para quem foi para a casa ao lado: James Gunn.

A trilogia “Guardiões da Galáxia” ilustra como James Gunn conseguiu criar personagens e vilões envolventes mesmo partindo de propriedades relativamente desconhecidas do grande público. Através de narrativas criativas, desenvolvimento de personalidade e progressão lógica de conflitos entre os filmes, a trilogia dos Guardiões demonstrou que é possível fazer o público se importar com personagens obscuros quando há investimento adequado em storytelling.

A diferença para a superficialidade do Galactus em “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” chega a ser algo abismal.

Eu termino o artigo com um apelo para os mais revoltados (mesmo entendendo que muitos contam com um intelecto do tamanho de uma ervilha): mais compreensão e menos pedantismo por parte da comunidade de fãs em relação ao grande público e críticos que não possuem conhecimento enciclopédico sobre quadrinhos.

A função primordial de um filme é contar sua própria história de forma convincente e acessível, independentemente do material fonte. A crítica ao comportamento de alguns fãs que atacaram Boscov deve colocar luz para uma discussão mais ampla sobre elitismo cultural e a necessidade de reconhecer que nem todos os espectadores têm a mesma bagagem cultural ou interesse em universos ficcionais expandidos.

Ao mesmo tempo, questiono a responsabilidade narrativa dos estúdios em criar produtos que funcionem tanto para fãs quanto para novatos, sugerindo que o fracasso em engajar adequadamente o público geral não deve ser atribuído à incompetência ou desinteresse dos espectadores, mas sim às escolhas criativas dos realizadores.

E a acessibilidade narrativa é uma responsabilidade dos criadores, não uma obrigação do público.

É isso. Podemos seguir com nossas vidas com uma treta a menos na internet.

 


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@oEduardoMoreira