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Só as mães são felizes.

Só elas sabem o que é carregar outro ser vivo nove meses dentro do seu ventre, alimentá-lo desde o primeiro segundo de sua vida. Nutrir por ele o sentimento de amor e proteção incondicionais, mostrar para esse ser o caminho do certo e do errado. Dar broncas, é claro. Mas sempre com o objetivo principal de que essa pessoinha que acha que é gente se torne gente. Diferente da gente. Melhor que a gente.

Eu não sou pai. Provavelmente eu não vou passar pela experiência da paternidade, por uma questão de escolhas pessoais. Não que eu não tenha vontade, mas muito provavelmente isso não vai acontecer na minha vida. A não ser que eu planeje esse filho. E não falo apenas de planejar uma gravidez: afinal de contas, a adoção é sempre uma opção viável, e esse filho é recebido com amor do mesmo jeito. Um amor tão sincero quanto se ele tivesse vindo do ventre de sua mãe.

Mas… todo filho precisa de uma mãe. Só as mães compreendem a chatice da infância, a rebeldia da juventude, a insegurança da vida adulta. Para elas, somos crianças mesmo quando temos quase 40 anos de idade. Porque as mães ainda enxergam em nós a inocência infantil de querer fazer valer o ponto de vista, de mostrar que é independente, que cresceu e dominou o mundo.

Todos nós somos assim. Queremos fazer questão que nos tornamos alguém na vida. Tudo isso para marcar um ponto.

Mas continuamos crianças aos olhos dos pais.

Porém, o que pouca gente sabe é o tal “o outro lado da moeda”.

Enquanto crescemos para buscar outros caminhos, descobrir novas possibilidades, conquistar e escrever nossa história, nossas mães começam a sofrer. Em silêncio. Em segredo.

Pode ser um sofrimento consciente, que pode se traduzir em dores físicas. Ou aquele que vem aos poucos, que nem ela se dá conta. Quando percebe, vê que o filho já está acordando sozinho de manhã, preparando o seu próprio café para ir para a escola, não precisa mais ser levado de carro, já pega ônibus, táxi e metrô, tirou carteira de habilitação, tem o seu emprego, dispensou sua mesada, passa os finais de semana mais tempo fora de casa…

…e quando ela se dá conta… pronto: o filho saiu de casa!

Para as mães (especialmente as super protetoras), esse processo é doloroso. Saber que aquele ser que saiu de você ganhou asas e se tornou independente deixa um sentimento que a psicologia chama de “Síndrome do Ninho Vazio”. Aquela mãe dedicada, amorosa, companheira e prestativa fica sem ter de quem cuidar. Sem função em uma casa, que antes era barulhenta, tumultuada… e que agora está em silêncio.

Um triste, doloroso e vazio silêncio. Aquele silêncio que grita na nossa alma, quando desejamos desesperadamente que algum dos filhos quebre um dos nossos vasos… apenas para que a gente possa ter alguém para chamar a atenção.

Apenas para ter um filho que preste atenção na mãe. Que quer atenção. Que precisa de atenção.



“Slipping Through My Fingers” descreve esse sentimento da mãe que sofre silenciosamente enquanto testemunha sua filha crescer e ganhar o mundo. É um sentimento agridoce que (imagino eu) boa parte das mães passam. Ao mesmo tempo que lamentam ao constatar que alguns dos melhores momentos de suas vidas com aquela criança já passaram e não voltam mais, ficam felizes, pois testemunham que aquele ser se tornou um adulto íntegro, responsável, competente, honesto e feliz.

Eu já disse… talvez eu jamais saiba exatamente o que é ter um ser sob minha responsabilidade máxima. Talvez eu jamais viva essa experiência na íntegra. Mas da perspectiva de um filho, eu tenho uma boa ideia do que pode ser.

Até porque foi apenas saindo de casa, e principalmente morando em outra cidade é que tive a real percepção do quanto é difícil não ter uma mãe por perto. Você começa a procurar nos abraços e sorrisos de outras pessoas aquela fonte de força e consolo quando as coisas estão difíceis, ou aquela pessoa para te dar conselhos nos momentos de dúvida.

Raramente encontramos em outra mãe a sua mãe. E, mesmo que encontremos, fica longe de ser a mesma coisa que a sua mãe.

Por isso, vou cair no óbvio e redundante ao dizer: aproveitem ao máximo a companhia de sua mãe. Seja você criança, jovem ou adulto.

Enquanto criança, permita-se ser protegido por ela. Seja obediente. Respeite. Se fizer isso, com certeza você será tratado com amor. Não que ela já não o faça isso, mas você vai sentir com maior intensidade, com uma candura que só ela pode oferecer. Procure aprender o mais cedo possível que “amor com amor se paga”. E a primeira mulher que você amou na vida vai te ensinar isso desde os primeiros segundos de sua existência. Pode acreditar.

Enquanto adolescente, tenha paciência. Elas não entendem como funciona o WhatsApp e o Facebook, mas entendem sobre como fazer com que você não se ferre na vida. Por isso, pelo amor de Deus… ouça essa mulher que quer te dar conselhos! Ela é a ÚNICA que vai realmente te aconselhar por amor incondicional, sem te cobrar nada em troca… exceto que você seja muito feliz na vida. Mesmo porque se você vier a sofrer muito no futuro, a próxima mulher que vai te aconselhar não se chamará “mãe”. Se chamará “psicóloga”. E elas cobram. E caro.

Enquanto adulto, esqueça o passado. Esqueça as diferenças, os desentendimentos, as brigas. Você cresceu e prevaleceu. Não tem que provar mais nada para ela. No lugar de desafiá-la, procure entendê-la. Muito provavelmente você será a única pessoa com quem ela terá para desabafar. Nesse ponto, você mostra que amadureceu não sendo apenas filho, mas sendo amigo. Os assuntos não terão tabus, travas ou preconceitos. Faça o possível para se fazer presente, mesmo distante. E, o mais importante: faça com que ela sempre se lembre que foi por causa dela que você chegou onde você está hoje.

Que é por ela que você é feliz.

Que é pelo amor dela que você é feliz hoje.

Eu estou longe da minha mãe na maior parte do tempo. Ainda bem que tem a intenet, o celular e outros meios de comunicação que reduzem as distâncias.

Hoje, como adulto, sinto falta das broncas. Das brigas. Dos desentendimentos. Porque foi com ela que eu aprendi que a gente só briga com quem a gente ama muito. E eu sei que ela me ama demais.

Hoje, com a distância, são os meus braços que estão vazios. São os meus olhos que ficam marejados de lágrimas de tempos em tempos. Mas eu sigo em frente.

Esses mesmos olhos precisam se manter bem abertos, vislumbrando aquilo que ela me pediu antes de eu seguir o meu rumo para o sul do Brasil:

“Meu filho… por favor, seja feliz…”.

“Slipping Through My Fingers”
(Björn Ulvaeus, Benny Andersson)
ABBA, 1981


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