
Hollywood finalmente confrontou o uso de inteligência artificial em produções cinematográficas. Ou melhor, os responsáveis pelo Academy Awards decidiram se posicionar sobre o assunto, definindo regras mais claras para o Oscar 2026
A Academia de Cinema estabeleceu novas diretrizes para a temporada de premiações 2025-2026, reconhecendo a crescente presença da tecnologia de inteligência artificial em filmes como “O Brutalista”, “Um Completo Desconhecido”, “Furiosa: Uma Saga Mad Max” e “Duna: Parte Dois”.
O novo entendimento sobre o tema veio com as novas regras para a premiação, cuja cerimônia de anúncio dos vencedores já tem data confirmada: 15 de março de 2026.
Use a IA, mas com moderação

A regra sobre IA é cautelosa, tanto para acalmar os estúdios (que já estão utilizando a tecnologia para resolver soluções que levariam muito mais tempo com uma solução humana) quanto os profissionais criativos (que estão preocupados se vão perder seus empregos em Hollywood).
“Ferramentas de inteligência artificial generativa não ajudam nem prejudicam chances de indicação. A Academia avaliará o desempenho considerando o grau em que uma pessoa esteve no centro da autoria criativa.”
A posição moderada evita confrontos com produtores que celebram a economia orçamentária proporcionada pela tecnologia. Ao mesmo tempo, valoriza o fator humano onde, na pior das hipóteses, precisa existir para redigir o prompt para a execução da modificação executada pela plataforma de inteligência artificial.
Também tenta, de alguma forma, valorizar a visão criativa do ser humano, que sempre será parte do processo. Mesmo porque o ChatGPT ainda não é capaz de escrever um roteiro de qualidade.
E ‘Madame Teia’ é a prova clara isso.
Quer votar? Tem que assistir a tudo!

A Academia agora exige que votantes assistam a todos os filmes indicados em cada categoria para participar na votação final. A necessidade dessa regra revela muito sobre o comprometimento anterior dos membros da instituição.
Antes, os votantes não eram obrigados a assistir a todos os filmes indicados em Melhor Filme, o que resultou em inconsistências de decisões e até injustiças históricas nas escolhas dos vencedores.
E… sem querer ser um ufanista ou Pacheco aqui, mas… um dos grandes prejudicados pela ausência de obrigatoriedade no consumo dos filmes indicados foi, por incrível que pareça, o brasileiro ‘Ainda Estou Aqui’.
Alguns dos votantes da Academia foram publicamente na imprensa para se desculpar por não assistir ao longa dirigido por Walter Salles até a data limite para a votação final para o Oscar 2025.
Com a nova regra, esse problema (em teoria) deixa de existir. Digo isso porque, dependendo do sistema de verificação adotado pela Academia de Hollywood, ainda é possível burlar essa obrigatoriedade, e de várias maneiras.
Exemplos:
- Comprar o ingresso do filme e sequer entrar na sessão (ou ficar 15 minutos e ir embora);
- Executar o filme em uma plataforma digital e avançar na linha de tempo de reprodução até o final (sem ver o filme);
- Pedir para outra pessoa assistir ao filme no seu lugar.
Nunca duvide do potencial criativo do ser humano. Fica a dica.
Novas regras implementadas

Novas regras também proíbem comunicações públicas que difamem técnicas ou temas abordados em qualquer filme concorrente, incluindo publicações em redes sociais. Esta diretriz relaciona-se tanto às questões de IA quanto a possíveis disputas políticas.
Aqui, temos recados claros para o elenco do remake live-action ‘Branca de Neve’ (não que eu acredite de verdade que essa porcaria será indicada ao Oscar 2026, mas é um bom exemplo do que a Academia está falando) e para Karla Sofia Gascón, que atirou para todos os lados antes e durante a campanha de ‘Emilia Pérez’.
Após o controverso caso de “A Semente da Figueira Sagrada”, criadores com status de refugiado ou asilo político serão expressamente aceitos na categoria de Melhor Filme Internacional, desde que tenham mantido controle criativo da obra.
O controverso caso? Ótima pergunta. Faço questão de explicar.
“A Semente da Figueira Sagrada” faz uma dura crítica ao regime político iraniano, que é retratado como uma força repressiva no país, inclusive entre aqueles que o apoiam. Seu diretor, Mohammad Rasoulof, foi obrigado a fugir do Irã a pé, e a atriz principal do longa, Soheila Golestani, está sendo processada em seu país.
Rasoulof e os personagens do filme foram alvo de investigação e prisão, demonstrando o perigo de criticar o regime iraniano. Já Golestani está sendo julgada por sua participação no filme e pode enfrentar punições severas, incluindo chicotadas e prisão.
OK… voltando a falar de temas mais amenos….
Uma novidade que é considerada muito positiva é a categoria “Conquista em Elenco” ou “Melhor Elenco”, reconhecendo o trabalho coletivo de diretores de elenco, cineastas e produtores. Serão 10 indicados, com decisão final exclusiva do Comitê Executivo da Academia.
É uma categoria que já existe em outras premiações, e que merecia esse reconhecimento por parte dos Academy Awards.
Da mesma forma que a categoria “Melhor Coordenador de Dublês” estava fazendo falta, pois são profissionais que arriscam a vida (literalmente) em nome do entretenimento.
O único problema aqui é que as chances de ninguém menos que Tom Cruise ser o primeiro vencedor da história dessa nova categoria são enormes. Afinal de contas, o último filme da franquia “Missão: Impossível” estreia em 2025.
Outras mudanças menores incluem:
- participação de todos os membros na votação de Melhor Curta Animado
- maior acesso de festivais como Cannes aos votantes
- prazos específicos para registro de canções originais e trilhas sonoras
Quando vai acontecer o Oscar 2026
A premiação do anúncio dos vencedores do Oscar 2026 acontece no dia 15 de março, mas a data está sujeita a alteração se algo muito sério acontecer até lá. Imprevistos climáticos, questões políticas ou eventos fora do normal podem resultar no reagendamento do evento.
Até lá, existe todo um calendário de procedimentos, que também foi reajustado para uma maior organização do todo: votação inicial entre 12 e 16 de janeiro de 2026, anúncio dos indicados em 22 de janeiro, almoço dos indicados em 10 de fevereiro, votação final de 26 de fevereiro a 5 de março, e (finalmente) a cerimônia marcada para 15 de março.
Via Oscars.org, The New York Times

