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Para aqueles que não foram assistir ao concerto de 59 anos da Associação Coral de Florianópolis, eu só posso começar esse texto afirmando duas coisas muito importantes:

1) Eu só lamento por vocês, e;

2) Vocês não sabem o que perderam.

Se já é uma grande alegria realizar uma boa apresentação, imagine entregar um concerto acima de todas as expectativas. E nem mesmo todas as minhas convicções sobre o sucesso desse projeto poderiam dimensionar como seria a sua execução e desfecho.

Provavelmente só agora eu consigo assimilar a real dimensão que é cantar na Associação Coral de Florianópolis. De fato, esse coral tem algo muito diferente. Algo que eu ainda não conseguia detectar. E agora eu posso falar sobre esse algo com conhecimento de causa.

E deixo claro que não estou reduzindo a importância dos demais corais que eu canto. Cada um deles contam com personalidade e características próprias, que ajudam a definir o resultado final de cada apresentação ou grande concerto de cada um desses grupos. E, para mim, todos os corais que eu participo são especiais. São grandes corais.

Eu não tenho dúvidas que, nesse momento, eu estou cantando nos melhores corais de Florianópolis. Mas cada um é bom do seu jeito.

Mas… falando da Associação Coral de Florianópolis… o concerto de ontem, para mim, teve muitas coisas singulares e especiais.

Minhas mãos estavam geladas, e não era por causa da diabetes. Era o senso de responsabilidade para o que estava prestes a acontecer. E, podem acreditar: o que eu mais queria era que desse certo.

E deu certo.

Todo o tempo de preparação, tantas mudanças estruturais e conceituais, vários desafios apresentados pelo repertório e por nós mesmos e, principalmente, a proposta em apostar no novo. Ao mesmo tempo, o desafio em fazer tudo isso sem abandonar o DNA musical de um grupo de canto coral tão longevo.

A combinação desses elementos resultou em um concerto especial e diferente para mim e para o público. Me preparar por cinco meses para a noite de ontem me deu a confiança de que tudo funcionaria, mas a grande graça em participar de um coral e cantar ao vivo diante de mais de 300 pessoas é não ter a certeza que tudo vai dar certo.

É uma das lições que a vida me deixa sempre. O imprevisível me fascina. Não saber o que vai acontecer na próxima nota é o que me motiva a cantá-la.

E poder sentir essa mesma perspectiva em todo um grupo de cantores, no regente e no pianista, e ter a real percepção que aquele resultado musical entregue por nós é a Associação Coral de Florianópolis foi uma das experiências mais surpreendentes e positivas que eu vivenciei na prática de canto coral em 2019.

Agora sim. Eu posso dizer que eu conheço esse coral, e que faço parte dele.

Ontem (11), eu voltei para casa muito feliz.

Eu estou feliz por nós. Por cada um de nós. Reforço o meu respeito e admiração por esse grupo de corajosos cantores, que desafiam o tempo e o espaço, as dificuldades materiais e as diferenças interpessoais para entregar música para o coletivo. Aliás, deixo o meu registro que a minha alegria também está no fato de nós, como grupo, ter a capacidade de entregar para quem saiu de casa para ouvir nossas vozes um concerto com extremo bom gosto, em um resultado final harmonioso.

Eu estou feliz pelos novos. Por quem entrou na ACF em 2019, assim como eu decidi entrar. Eu consigo imaginar o quão desafiador é entrar em um grupo consolidado. Alguns de vocês estão passando pela experiência de cantar em um coral pela primeira vez na vida. Ontem, anseios, medos, decepções, traumas, frustrações e incertezas dentro dessa prática musical ficaram para trás para os novatos.

Eu aplaudo a coragem desses novatos, e agradeço, de coração, por decidirem somar as suas vozes com as vozes de outras pessoas que praticam a nobre arte de preencher o coração de alguém com a música que vem do coração de quem canta.

Continuem. Cantem com a voz que vem do coração. Se precisarem de ajuda, contem sempre comigo.

Eu estou feliz por mim.

Vou precisar tomar decisões importantes sobre a minha agenda para continuar a participar dos corais de forma plena e com produtividade. Nas últimas cinco semanas, várias mudanças aconteceram nesse aspecto, com situações desafiadoras e cenários impensáveis.

Muitas mudanças que ainda estão em curso.

Mas conseguir participar de um concerto como o de ontem compensa as horas perdidas de sono, o tempo dedicado na produção das MIDIs (ou guias), as horas de estudo com as contraltos (sou fã de vocês, tá?), o trabalho com a divulgação e outros obstáculos que apareceram no caminho.

Hoje, eu digo, sem medo de errar: valeu e vale muito a pena cantar na Associação Coral de Florianópolis. Foi muito bom poder entregar com vocês o concerto de ontem. Fez um bem danado para a minha pessoa, e as lições que eu aprendi ontem são agora um investimento para a minha formação como coralista.

Ontem, eu dei mais um passo para ser o coralista que eu sempre quis ser. Graças a vocês.

Muito obrigado, de coração, a cada um dos meus colegas cantores. Ao Guilherme, que continua a nos conduzir para novos caminhos. Ao Vanderlei, que entrega a base musical que agrega às nossas vozes. Ao Vitor, que teve a coragem de apostar no novo.

E obrigado aos cantores, que enxergaram em mim alguém que pode ajudar nessa nova fase.

Contem sempre comigo.

Ah, sim… e para quem perdeu o concerto de ontem, uma última coisa:

3) Vê se não perde o concerto de 60 anos, certo? Não vacila, pois vai ser épico!


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