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Sobre o legado do Papa Francisco

O mundo silencia diante da notícia do falecimento do Papa Francisco.

Em meio à dor profunda, ressoa, mais viva do que nunca, a Oração de São Francisco de Assis — o santo cuja vida de humildade, entrega e amor pelos marginalizados inspirou Jorge Mario Bergoglio a escolher, como nome papal, aquele que carregaria não o peso de um trono, mas a leveza do serviço.

Francisco não foi apenas um líder religioso. Foi um instrumento de paz, como suplicava a oração, em um discurso que soa como algo revolucionário nos dias de hoje, quando nada mais é do que algumas das premissas mais básicas do que o Cristianismo deveria ser.

Em tempos de ódio, ele ousou falar de amor. Em épocas de intolerância, caminhou entre os diferentes para semear perdão. Sua presença, muitas vezes frágil fisicamente, era uma fortaleza espiritual que inspirava multidões.

Entendo perfeitamente que Jorge Mario Bergoglio não foi perfeito. Teve posicionamentos polêmicos e percepções individuais que são resultados de visões conservadoras. Porém, compreendo que defendeu o que mais acreditava em essência para liderar a Igreja Católica para uma perspectiva mais empática e fraterna.

E hoje, diante de sua ausência, somos convidados não apenas ao luto, mas a um recolhimento interior que nos faça refletir sobre o que significa, de fato, viver a fé com coragem, ternura e verdade.

 

Um Papa revolucionário

Desde que assumiu o papado em 2013, Francisco iniciou uma revolução silenciosa e profunda na Igreja Católica. Uma revolução que não se deu com gritos ou confrontos, mas com gestos, como o simples lavar dos pés de refugiados e muçulmanos, as visitas aos esquecidos nas periferias do mundo e o abraço a um homem deformado pela doença, ou o beijo carinhoso em uma criança que lhe estendia a mão.

Francisco acreditava, como São Francisco, que é “consolando que se é consolado”, e assim viveu: consolando mães que perderam seus filhos, nações feridas pela guerra, fiéis abalados por escândalos.

Em sua liderança, não buscou glórias nem holofotes, mas quis compreender mais do que ser compreendido. Sua teologia era a do encontro, e seu magistério, uma prática incansável da empatia. Ele não apenas falava da misericórdia — ele a encarnava na sua liderança religiosa.

Dentro de suas possibilidades, Francisco tentou aproximar a Igreja Católica da essência dos verdadeiros valores cristãos. Das verdadeiras lições, e não de visões interpretativas sobre os ensinamentos.

Fez o que estava ao seu alcance, inclusive considerando suas limitações conceituais e morais, para que a Igreja Católica se voltasse para a lei maior de Jesus Cristo: “amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo”.

Porque todo ser humano é digno de amor e empatia, independentemente de suas origens, condições e visões de mundo.

 

Um legado histórico

Francisco foi um construtor de pontes em um tempo de muros. Em suas homilias, discursos e encíclicas, como Laudato Si’ e Fratelli Tutti (dois dos textos mais transformadores da história da Igreja Católica – promovendo aberturas e mudanças profundas em questões sociais diversas), clamava por um mundo mais justo, sustentável e fraterno.

Alertou sobre as consequências da indiferença, sobre a idolatria do dinheiro e sobre a urgência de cuidar da nossa “casa comum”, como ele se referia ao planeta. A fé, para ele, jamais foi um fim em si mesma, mas um chamado à ação.

Por isso, quando pedia por uma Igreja “em saída”, não falava de estrutura, mas de alma. Uma alma disposta a ir ao encontro do outro, especialmente daquele que mais sofre.

É cômodo pensar no “vinde a mim aqueles que sofrem”, mas poucos conseguem entender que alguns simplesmente não tem forças para sair da cama durante uma crise de depressão ou ansiedade. Os incapacitados, que não tem mais pernas para caminhar, e os indigentes, que sequer poderiam entrar na Igreja sem serem discriminados ou repreendidos.

Francisco não apenas pregou a aceitação aos diferentes e excluídos, como foi até eles, por ter a consciência do quão importante era descer do trono para se unir ao povo. Pois é o coletivo, o cidadão comum e o mais humilde aquele que mais acredita nos ensinamentos de Jesus Cristo.

É a fé de quem mais sofre ou que não tem nada na vida que é considerada a verdadeira fé inabalável.

Francisco foi, acima de tudo, um tradutor contemporâneo da oração que pedia que levássemos fé onde há dúvida, verdade onde há erro, e esperança onde há desespero.

Sua vida foi o cumprimento radical desse chamado, mesmo que isso lhe cobrasse um alto preço pela ousadia de um discurso que causava revolta nos ultraconservadores.

 

Uma missão cumprida

Agora, quando suas palavras se calam, o eco de sua missão permanece.

Porque é morrendo, como diz a prece, que se vive para a vida eterna — e Francisco, com sua entrega plena, vive agora na eternidade de Deus e na memória dos que foram tocados por sua bondade.

Seu legado será consolidado no novo. Quando Francisco esteve no Brasil para a Jornada Mundial da Juventude – com poucos meses de seu papado -, plantou uma semente poderosa: os jovens precisam ser revolucionários. E quero acreditar que a revolução começou.

Será lenta, mas progressiva e irreversível. Porque o novo sempre vem. E parte da minha fé é acreditar que o novo manterá viva a ideia de Francisco de uma Igreja Católica que seja fraternamente revolucionária.

Até porque amar em tempos de ódio e divisões é sim um ato revolucionário. É a missão mais difícil do ser humano.

Seu funeral será celebrado com lágrimas, mas também com gratidão. Pois poucos líderes tiveram a ousadia de resgatar a essência do Evangelho de forma tão simples e poderosa: servindo.

Ele poderia ter escolhido o fácil caminho do poder, algo que seus predecessores abraçaram como filosofia de liderança da religão, mas preferiu o da cruz. Rejeitou os ornamentos para abraçar os pequenos.

E por isso, como São Francisco, tornou-se farol em tempos de trevas para milhões de pessoas ao redor do mundo. Foi luz onde antes havia escuridão.

Foi amor em tempos de ódio.

A Igreja Católica perde um pastor. O mundo perde uma consciência. Mas os frutos de sua vida continuarão germinando em comunidades, famílias, jovens, religiosos e em todos aqueles que acreditam que a paz, o perdão, a união e o amor são ainda possíveis.

Francisco não será lembrado apenas por suas palavras, mas por sua execução alinhada com a filosofia franciscana. Seu exemplo se tornou uma resposta concreta ao apelo contido na Oração de São Francisco de Assis.

E sua morte nos convoca a continuar essa obra: sermos instrumentos de paz, mesmo quando o mundo parecer duro, hostil e ensurdecido. E não precisa ser adepto do catolicismo ou do cristianismo para ter esse entendimento.

Basta ser uma pessoa boa de coração. O que não é uma tarefa fácil.

O Papa Francisco partiu, mas a sua semente florescerá por gerações. E isso, talvez, seja a maior vitória de um homem que pregou um amor acima da compreensão dos corações endurecidos.

Não era um homem perfeito. Fato.

Mas era um homem de bem.

Foi embora um homem com uma missão, que foi cumprida de forma indiscutível.

Foi embora Francisco que, a partir de agora, é eterno para a humanidade.