
Gosto de pensar que, no final do dia, os grandes executivos de tecnologia são “gente como a gente”. A única diferença entre eles e nós, meros mortais, é que suas contas bancárias contam com alguns zeros a mais do lado direito (o que, francamente, não significa absolutamente nada).
Saber que Bill Gates foi comer no seu fast food favorito (esperando na fila para ser atendido, como qualquer um) depois que saiu da Microsoft, e que Warren Buffet é viciado em Coca-Cola são sinais claros de que estamos falando de seres humanos, e não de ciborgues corporativos dispostos a dominar a humanidade a todo custo.
Dessa vez, vamos falar de Steve Jobs que, pasmem, não só tinha um coração como também deixava de pagar as contas, tal e como você faz (quase) todos os meses. Acontece que, no caso dele, pode até ser por puro esquecimento, e não porque a grana falta na conta bancária.
O sonho molhado (e caríssimo) do gênio

Steve Jobs, o homem que ditava regras sobre como devíamos ouvir música e usar telefone, decidiu que, nos últimos suspiros de sua existência em nosso planeta, também ia ditar regras sobre como a família deveria navegar.
Claro que ele não iria comprar um barquinho qualquer, desses que a gente vê na praia. O ego dele o impedia de simplesmente comprar um iate de milhões de dólares como qualquer bilionário compra em uma madrugada ociosa.
Ele passou incríveis cinco anos — sim, meia década — debruçado sobre o projeto do seu brinquedo preferido: o iate Venus.
Junto com o estilista francês Philippe Starck, a dupla criou mais do que um barco; eles criaram uma extensão flutuante da Apple, pronta para ser a “casa da mãe Joana” mais cara do planeta.
Não podemos dizer que ele é o único que pensou nesse tipo de extravagância tecnológica. Ou todo mundo já se esqueceu daquela casa high tech que o Bill Gates construiu em um lago, ou que o Mark Zuckerberg possui uma ilha só dele.
Só torço para que o menino Mark seja mais responsável que o tal Epstein, e que só esteja mesmo fazendo a carne Wagyu mais cara do mundo.
Enfim… continuando…
Quando a amizade (e a falta de contrato) vira dor de cabeça

A ideia, na teoria, era ótima. Na prática, se transformou em mais um episódio sobre como é difícil trabalhar com Steve Jobs e sua genialidade que, em alguns casos, é considerada “excêntrica”.
E eu juro que estou tentando ser gentil.
Jobs e Starck eram tão chegados, tão “confia no pai”, que nem se deram ao trabalho de fazer um contratinho básico, desses que a gente faz até pra vender um carro usado.
O acordo entre os dois era “de boca”. Exatamente da mesma forma que o seu cunhado (que nem é seu amigo) propõe na hora de pedir um empréstimo para você.
O trato entre os dois era simples: Starck receberia 6% do custo total do iate para executar o serviço. E… o que realmente poderia dar errado aqui?
Acontece, meu povo, que a vida real não é um sistema operacional iOS. A vida real trava, é problemática e, em alguns casos mais sérios, simplesmente reinicia. Do nada.
Igual ao Windows.
Jobs (infelizmente) bateu as botas em 2011 sem ver a obra-prima pronta e, o mais importante, sem deixar claro se os 6% eram sobre os R$ 150 milhões do orçamento inicial (que dariam uns R$ 9 milhões pro designer) ou sobre os R$ 105 milhões que a brincadeira custou de fato (que reduziam a bolada para R$ 6 milhões).
E… qual valor você acha que Philippe Starck decidiu cobrar dos herdeiros de Jobs?
A resposta é bem óbvia.
A apreensão que parou o brinquedo em Amsterdã
Pois bem, os herdeiros, coitados, acharam que iam pegar o iate novinho em folha, dar um rolê e honrar a memória do papai. Mal sabiam eles que, enquanto o champanhe gelava, o escritório de Starck já tinha acionado a agência de cobrança.
O que é justo. Afinal de contas, a culpa não é do estilista se o executivo da Apple não sobreviveu o suficiente para desfrutar de tudo o que foi planejado e construído, e todo mundo quer receber pelo trabalho feito.
Mas ninguém exatamente qual era o valor a ser pago para Starck. Ou melhor, os filhos de Jobs concluíram que só deviam pagar pelo valor que foi executado e entregue, deixando aproximadamente R$ 3 milhões em um limbo jurídico.
E Philippe Starck foi para a briga nos tribunais.
Resultado: o Venus foi apreendido no porto de Amsterdã como se fosse um Corsa 94 com IPVA atrasado.
A ordem judicial foi clara: ninguém saía dali com aquele barco enquanto não saldassem os R$ 3 milhões (mais ou menos) que estavam em disputa.
Imagina a cena: a viúva Laurene Powell Jobs tendo que negociar calote enquanto o barco mais tecnológico do mundo ficava paradinho, de castigo, amarrado no cais.
Sim, eu sei… a palavra “calote” é meio forte aqui, já que não foi exatamente o caso de Steve Jobs se recusar a pagar. Mas não deixa de ser engraçado pensar que o maior executivo do planeta deixou dívidas pendentes, tal e como o seu avô fez quando gastou toda a herança que o seu pai ia receber em um bordel.
O “acordo de cavalheiros” que virou novela

O que era para ser um gesto de confiança virou um novelo de meia sem ponta, em uma analogia que escancara o quão velho eu sou para brincar de blog.
O advogado de Starck, Roelant Klaassen, até tentou amenizar, dizendo que “esses caras confiavam muito um no outro”. Só que confiança não paga conta de luz, né?
E no mundo real, quando um dos dois vai dessa para uma melhor, o “combinado” vira palavra contra palavra.
É inacreditável pensar que dois homens adultos decidiram entrar em um projeto desse tamanho sem se preocupar, em nenhum momento, em formalizar o acordo de cavalheiros que eles fecharam um com o outro.
Se é qualquer um de nós, meros mortais, fazendo o mesmo, somos chamados de estúpidos e imbecis por nossas respectivas esposas. Quem sabe viramos cornos delas, pois nossas mulheres vão concluir que amantes são mais inteligentes que a gente.
A disputa foi resolvida em dias, porque ninguém merece ter o iate dos sonhos virando atração turística num píer holandês. Pagaram o que tinham que pagar — ninguém sabe quanto, o sigilo foi total — e o Venus enfim pôde zarpar.
Convenhamos: se isso não fosse resolvido rapidamente, dava até para desconfiar da mesquinharia da família Gates.
Não dá para ficar brigando ou discutindo sobre um valor que é o mesmo que um cafezinho serviço em copo de plástico (pequeno) para uma das famílias mais ricas do planeta.
Me surpreende (e muito) ver que esse caso chegou aos tribunais, de forma totalmente desnecessária.
O legado que ficou (e a sorte de quem ficou com ele)

O detalhe mais poético (e trágico) dessa história toda é que Jobs nunca chegou perto de pisar no barco. E deixando de lado por um instante todas as piadas que lancei neste artigo, essa é uma parte triste de toda essa história.
Quando Steve Jobs faleceu, eu não tive a coragem de escrever um artigo sobre o assunto no meu blog principal, o TargetHD.net. Simplesmente coloquei um link redirecionando para a página da Apple, e segui com as postagens de forma regular.
Me recusei a acreditar por algum tempo que aquele gênio da tecnologia, que mudou tantos paradigmas e perspectivas sobre a nossa relação com os dispositivos que hoje utilizamos, e que promoveu a tecnologia de consumo de uma forma singular não estava mais por aqui para compartilhar a sua genialidade conosco.
Ele sabia que provavelmente não veria o barco pronto, mas, segundo seu biógrafo Walter Isaacson, continuou o projeto porque “se não fizesse, seria admitir que estava prestes a morrer”. Um modo agridoce de se despedir, mas totalmente alinhada com a personalidade e visão que Jobs sempre teve sobre a vida.
No fim, o brinquedo de R$ 105 milhões, que tem silhueta de navalha, janelas de 3 metros de altura e até sete iMacs de 27 polegadas na ponte de comando, acabou ficando com a viúva. Ela foi vista em algumas oportunidades no iate, de forma justa e merecida.
A briga ficou para a história, mas a vista do mar… essa ficou com aquela que esteve ao lado de um gênio ao longo de uma vida inteira, até os últimos dias de sua existência.
