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Você provavelmente não sabe como é triste viver uma vida sem sentir as dores constantes do dia a dia. Mas todos aqueles que tentaram o suicídio já experimentaram esse vazio. Pelo menos uma vez.

Alguns deles alcançaram o objetivo de não mais sentir dor. E não estão aqui para contar como é essa experiência.

Mas aqueles que fracassaram na tentativa relatam que deixar o estado de ausência da dor é uma luta constante, longa e lenta. Alguns imploram para que o corpo volte a doer, por entenderem que o primeiro sintoma para a cura é justamente sentir dor.

É claro que o jogo da vida é duro para todos nós. O que não justifica o burlar das regras para alguns. Porém, não podemos chamar de “idiotas” aqueles que, em plena formação de suas personalidades e características mais essenciais, não conseguem administrar as suas emoções, e tentam resolver seus problemas da forma mais drástica.

Deixo a discussão sobre a indiferença dos pais diante do problema, dos amigos que não observam as mudanças de comportamento e todos os conflitos sociais, culturais e econômicos para um segundo momento. Agora, eu só quero dizer uma coisa: sim… o suicídio é a ausência da dor. E quem tenta o suicídio não é necessariamente um imbecil. É um ser que tenta acabar com a dor. De uma vez por todas.

No lugar de criticar aqueles que tentam acabar com a própria vida, é muito mais válido e nobre se aproximar dessas pessoas, e procurar entender onde está a raiz do problema. Você pode até não resolver o problema em si, mas aqueles que são indiferentes às dores alheias não fazem a menor ideia do quanto é importante para o próximo receber um abraço e ouvir em forma de sussurro “aguenta firme… seja forte… eu sei que está doendo, mas uma hora isso vai passar…”.

Aliás, vivemos em um momento onde não nos importamos mais com as dores alheias. Estamos na era do “arremessar pedras primeiro para gritar depois”. Muita gente vive na bolha da ignorância, e justifica a sua verborragia porque considera o diferente um “imbecil” logo de cara.

Apenas para constar: quem tenta o suicídio é porque, em regra, está em depressão. E ter depressão significa contar com a total ausência de sentimentos, raciocínio prejudicado, apatia, falta de perspectiva de futuro, tristeza profunda e baixa auto estima. O que muita gente considera como “frescura”, a medicina considera como um dos grandes males modernos da humanidade. Quase em escala de epidemia.

 

 

Esse texto apareceu porque um “comediante” afirmou que adolescentes que tentam o suicídio são “imbecis”. E essa afirmação veio em setembro, mês da campanha Setembro Amarelo, que tem como principal alvo promover a prevenção ao suicídio.

A ofensa foi infeliz, mas oportuna. Eu sei que tem muita gente que pensa da mesma forma que o tal “comediante”.

Por isso, eu peço, humildemente… mais amor ao próximo que tem problemas que você jamais conseguirá dimensionar ao longo da sua vida. Mais empatia com aqueles que sentem dores profundas e insuportáveis, e sonham com o dia em que essa dor vai parar. Mais humanidade com pessoas que estão sucumbindo diante das dificuldades da vida, porque não encontram forças para seguir caminhando.

Muito melhor que o grito de “imbecil” seria o sussurro confidencial do “eu estou com você até o final, e você não está sozinho nessa”.

Quem sabe um dia essa pessoa que acredita no fim da dor através do suicídio começa a compreender que a dor faz parte do jogo da vida.

Quem sabe um dia ela acredita que essa dor é o primeiro sintoma de cura.

Provavelmente essa pessoa vai aprender a transformar a dor em força e energia. E assim, se salvar de um trágico fim “sem dor”.

 

(Texto inspirado em “Suicide is Painless”, canção que faz parte da trilha sonora de “M.A.S.H. The Movie”, em uma irônica e emblemática cena de suicídio diante do horror da guerra)

#SetembroAmarelo

 


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