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Eu não tive a chance de te dizer adeus. Você não me deu tempo. Foi embora tão de repente…

Eu quero te dizer as minhas últimas palavras.

Na verdade, quero conversar com você. Eu tenho tantas coisas para te perguntar, mas… ainda não é a hora. Está tudo tão recente, que vou deixar o tempo passar para saber se devo ou não questionar você sobre tudo isso.

Para começar, eu espero que você esteja bem. Espero que esteja em paz. Não sei lidar com o fato que perdi você. Logo, tudo o que me resta e sentar aqui e escrever o que estou sentindo, na esperança que você algum dia leia o que eu escrevi. Ou, quem sabe, possa ler a minha mente e meu coração e me dar as respostas que eu preciso saber.

Eu não sei lidar com esse tipo de perda. Ainda não aprendi a lidar com o cessar da vida, que é algo absolutamente natural dentro da lógica estabelecida para todos os seres. Steve Jobs disse, de forma sábia, que “a morte é a melhor invenção de Deus, pois concluir de forma perfeita a jornada da vida”. Eu concordo com essa afirmação. Mas sinto dor quando penso que uma das pessoas que mais amei na vida simplesmente partiu…

…sem me dizer adeus.

Você acho que assim eu ia sofrer menos? Ou achou que ir embora sem me dizer adeus seria mais fácil?

Pelo contrário. Além de me deixar aqui sem você, agora só me restou compartilhar com o mundo a sua partida. O sentimento de vazio é intenso, e a saudade se faz presente de forma inevitável. Não tenho como externar essa dor, e eu confesso que começo a ficar com medo de ficar depressivo ou adoecer.

Pior: adoecer por ter que aceitar que preciso seguir em frente sem você. Porque a vida continua.

Será que eu vou ficar melhor se eu souber que algum dia você leu esse texto?

Não sei. Você pode até não ler, mas o mundo vai saber da minha dor. Eu vou contar – e cantar – para todos os que eu conheço por que eu estou conversando com você nesse momento. Essa é a minha terapia. É como eu vou encerrar o meu lado da história. É a minha última chance de dizer para você – e para mim – o quanto você foi importante na minha vida.

É a minha forma de pedir para você me esperar. Porque eu quero reencontrar você, em outro lugar. A qualquer momento. Quando você menos esperar.

Você vai ficar bem? Vão cuidar direito de você aí?

Você… vai sentir minha falta? Espero que sim.

Olha um pouco para mim aí de onde você está. Mas… não se preocupe: eu vou ficar bem. Uma hora essa tristeza vai passar. Uma hora eu vou reencontrar meu chão.

Eu me lembro que por muitas vezes eu te disse, quase em tom de súplica: “por favor, demore bastante para virar estrelinha”. Era a minha forma carinhosa de dizer “cuida muito bem de você, pois não quero te perder tão cedo”. É a minha forma de enganar meu cérebro sobre a ideia de sua morte.

Isso mesmo. Enganar. Eu sei que eu estou me enganando. Todos nós vamos morrer um dia. Mas não queria te ver partir. Queria uma última chance de aproveitar ao máximo da sua presença. Desfrutar das experiências, ouvir seus conselhos, dar muitas risadas com momentos divertidos. Dar beijos e abraços. Dar e receber carinho. Viver.

Eu compreendo. Você já cumpriu com sua missão na Terra.

Enfim… fique bem…

Espero que essa nossa conversa ajude a outras pessoas que precisam de mais consolo e apoio. Espero que acalmem os corações em desespero, que serene as almas entristecidas. Espero que essa mensagem toque o seu coração.

E para você…

…obrigado por ter feito parte da minha vida. Jamais me esquecerei de você.

Até um dia.



“Tears in Heaven” é a mais sincera confissão de amor que você vai fazer diante do inevitável destino de todos nós. São as palavras que vão consolar você, te ajudando a seguir em frente na sua jornada. As palavras dessa música podem consolar qualquer pessoa, acalmar qualquer coração.

Vejo essa canção como um presente de Deus para Eric Clapton. E para todos nós também. Aqui, vemos mais uma vez como a vida inspira a arte para uma obra musical única.

Clapton fez da sua tragédia pessoal a inspiração para compor uma música que alcançou o mundo, e ajudou muita gente. Essa música foi composta meses depois do falecimento do filho de Eric, Conor, que aos quatro anos de idade caiu do apartamento de um amigo da mãe do músico, do 53º andar.

É dispensável aqui dizer que o evento foi traumático para Eric Clapton, mas é preciso dizer o quanto. Ele, que era considerado “Deus” da guitarra, estava arrasado, triste e depressivo. Meses antes, ele perdera em um acidente de helicóptero dois roadies, ou seu empresário e o amigo músico Steve Ray Vaughan. Logo, Eric tinha odos os motivos do mundo para ficar descrente, cético e infeliz.

Após a morte do filho, Clapton anunciou que nunca mais voltaria a tocar.

Nessas horas, eu acredito em intervenções celestiais.

Acredito que alguma força superior iluminou a mente e o coração de Eric Clapton. Ele mesmo sabia da necessidade de externar essa dor, e o quanto isso seria importante. Para ele, e para outras pessoas.

Às vezes eu ouço essa música para me lembrar da relevância que aquelas pessoas que amamos possuem na nossa vida. Para me lembrar da fragilidade da existência humana, que pode ser interrompida a qualquer momento.

Mas principalmente… eu ouço essa música como uma oração moderna. Uma oração para aqueles que, de onde estiverem, podem olhar por nós. Velar nossos passos, e observar como seguimos em frente, guardando aquela pessoa no coração, honrando esse vínculo eterno ao manter a alegria de estar vivo, realizando coisas incríveis para que aquela pessoa possa se orgulhar de nós, onde quer que ela esteja.

Ouço também essa música… para preparar meu coração. Para lembrá-lo que, uma hora, aquelas pessoas especiais vão virar estrela. E que, além de olhar para frente (pois é lá na frente que está o meu lugar), é preciso também olhar para cima, para se lembrar daqueles que sempre estarão presentes nos meus mais profundos sentimentos e pensamentos.

Eu não sei lidar com as perdas. Não sei lidar com o adeus.

Eu realmente não estou pronto para o adeus. Tantos abraços a dar, momentos para compartilhar, alegrias para se viver. Ainda tem muita coisa para acontecer nessa vida, com pessoas especiais, que precisam ficar nesse mundo só mais um pouco para testemunhar tudo isso.

Por outro lado, essa música me ajudou a lidar com a dor da morte. Me mostrou como devo me sentir diante do adeus em definitivo.

Me fez lidar melhor com as tais “lágrimas no paraíso”.

“Tears in Heaven”
(Eric Clapton, Will Jennings)
Eric Clapton, 1992


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