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Thunderbolts*: Marvel lança filme da A24

E temos “Thunderbolts*” da Marvel Studios, que conseguiu surpreender por ser sim um filme no melhor estilo da produtora independente A24, conforme foi antecipado em entrevistas divulgadas pelo The Hollywood Reporter.

Diferente do que muitos imaginavam, a produção realmente conseguiu incorporar elementos característicos dos filmes da A24, não necessariamente em nível de complexidade ou profundidade de roteiro, mas na abordagem mais madura e estética apresentadas.

Thunderbolts* consegue trazer um tema profundo, necessário e relevante para nosso tempo, abordando questões como depressão e saúde mental. O filme não é perfeito – apresenta alguns problemas de roteiro e desenvolvimento acelerado de personagens devido à sua duração de 2h15 – mas é bom o suficiente, e muito melhor quando comparado com as produções recentes da Marvel.

Um dos principais diferenciais é que Thunderbolts* sabe exatamente qual história quer contar, deixando claríssimo seu mote principal. O filme consegue estabelecer conexões diretas com o futuro do universo cinematográfico da Marvel, apresentando elementos que serão importantes para “Vingadores: Doomsday”, e vai além de simplesmente reunir vilões do estado sob o comando de Valentina Alegre de La Fontaine.

 

Uma reflexão sobre o vazio existencial

O grande tema de Thunderbolts* é a depressão e os problemas de saúde mental. O filme aborda o “vazio” – elemento que aparece inclusive nos trailers oficiais – como reflexo daquilo que somos e fazemos.

A narrativa explora como as pessoas ficam presas no passado, nos erros cometidos, nas vicissitudes da vida, e como é difícil sair dessa dor profunda, dessa ausência de sentimentos e da sensação de que “nada importa”.

É nesse aspecto que aparece a “pegada A24” mencionada. O filme apresenta pinceladas de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, tanto no conceito quanto no desenvolvimento de seu tema principal e em algumas referências visuais. Ao mesmo tempo, a Marvel consegue manter sua identidade própria, preservando o carisma dos personagens já conhecidos e adicionando personalidade a outros que não tinham recebido tanto destaque anteriormente.

A Fantasma, por exemplo, ganha uma nova dimensão em comparação com sua aparição em “Homem-Formiga e a Vespa”. Já John Walker mantém sua personalidade estabelecida anteriormente, com alguns aspectos reforçados que o tornam quase um alívio cômico no filme.

A produção trabalha bem as camadas de dor dos personagens, mostrando que mesmo aqueles com superpoderes – como os três personagens que possuem o soro do super soldado – enfrentam problemas, tristezas, desilusões e sonhos não realizados.

 

Segundas chances e redenção

Thunderbolts* é, também, um filme sobre segunda chance. Apresenta um grupo de pessoas que cometeram erros no passado, que se sentem fracassadas, mas que ainda assim querem seguir tentando.

A narrativa sugere que continuar tentando, mesmo quando não há certeza do sucesso ou quando a derrota parece inevitável, é a verdadeira essência do heroísmo.

O Guardião Vermelho emerge como um personagem cativante, alguém disposto a reinventar sua própria história, mesmo que inicialmente motivado por interesses superficiais. Ele não apenas demonstra a essência de um herói, mas também faz uma revisão dos erros que cometeu com Yelena, especialmente o abandono.

O filme coloca Yelena Belova como personagem central, de forma justa e necessária, estabelecendo conexões diretas com “Viúva Negra”, ao ponto de melhorar essa história aos nossos olhos, justamente por conta de sua conexão direta com emoções e motivações de sua personagem.

Para entender completamente a essência de Yelena Belova em Thunderbolts*, é recomendável assistir “Viúva Negra”, especialmente a cena da reunião familiar onde a protagonista reconhece que, para ela, aquela experiência familiar foi real.

Essa conexão emocional estabelece a base para sua jornada em Thunderbolts*.

Também há ligações com “Gavião Arqueiro”, onde a participação de Yelena estava igualmente relacionada à dor da perda.

 

A evolução necessária da Marvel

Thunderbolts* conecta-se com outras produções da Marvel que abordaram temas semelhantes, como “WandaVision”, que também lidou com perda, luto e depressão. Ambas as obras exploram a ideia do “vazio existencial” e as tentativas de não resolver o problema, mas de aliviar a dor.

O filme retrata como pessoas em estágio de depressão frequentemente buscam escapar, pensando em como suas vidas poderiam ter sido diferentes se tivessem feito outras escolhas.

É surpreendente que um filme da Marvel aborde questões tão complexas, mas era algo necessário. Thunderbolts* cria um desafio para futuras produções como “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, pois se este último apresentar uma história genérica e padrão, confirmará a crise de identidade da Marvel, que alterna entre filmes bons e ruins sem estabelecer um padrão consistente.

O filme começa com uma autocrítica à fórmula dos filmes de heróis, comentando sobre o cansaço do público em relação ao gênero. Isso sugere que a Marvel precisa entender que seu público original cresceu – quem começou a assistir em 2008 não é mais a mesma pessoa depois de quase 20 anos.

O público adulto atual lida com problemas como depressão, ansiedade, responsabilidades financeiras e os desafios do envelhecimento. E, de alguma forma, as pessoas querem se sentir representadas na retratação, reflexão e compreensão das dores que sentem todos os dias.

 

Reconexão com o público e novas possibilidades

A Marvel precisa oferecer histórias mais adultas e complexas para manter seu público original, que agora está começando a levar seus próprios filhos para assistir a essas histórias. São necessárias narrativas que levem à reflexão sobre a existência humana, que mostrem que ninguém está sozinho em seus erros, fracassos e decepções.

Thunderbolts* não abre mão do elemento fantástico, mas prioriza a essência humana. O filme deixa claro que as pessoas podem se transformar, seja fugindo de seus problemas ou apostando em seu melhor potencial para se tornarem melhores.

A mensagem central é que todos merecem uma segunda chance, inclusive a própria Marvel, que com Thunderbolts* parece querer mostrar que ainda é capaz de contar boas histórias.

O filme entende que nem sempre é preciso seguir a mesma fórmula. Após diversas produções consideradas decepcionantes nos últimos anos, Thunderbolts* surge como “água gelada em um dia quente” para os fãs sedentos por boas histórias.

Em comparação com “Capitão América: Admirável Mundo Novo”, Thunderbolts* eleva a discussão a um nível muito superior, tratando seus temas com maior maturidade e profundidade.

 

Um saldo positivo

Embora eu reconheça que pode estar sendo exageradamente entusiasta em sua avaliação, ele considera Thunderbolts* um dos melhores filmes da Marvel recente. Na análise mais equilibrada, o filme está certamente acima da média das produções do estúdio nos últimos 4-5 anos, período em que a Marvel apresentou resultados inconsistentes.

O filme conta com duas cenas pós-créditos que valem a espera, e explica a origem do nome “Thunderbolts*” – um pequeno spoiler revelado é que o nome não tem relação com Thaddeus “Thunderbolt” Ross, como muitos fãs poderiam esperar. Esta é apenas uma das surpresas que o público descobrirá durante a experiência cinematográfica.

Thunderbolts* representa uma possível mudança de direção para a Marvel, seguindo o sucesso de “Deadpool & Wolverine”, que mesmo não sendo perfeito, foi significativamente superior a produções como “Homem-Formiga: Quantumania”.

O filme indica que o estúdio pode estar finalmente aprendendo a combinar ação e espetáculo com narrativas mais maduras e emocionalmente ressonantes.

 

P.S.: tem duas cenas pós-créditos.

*Eles explicam tanto o nome Thunderbolts quando o asterisco no nome.