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Minha tia Ercília adorava caminhar, e nem precisava ser pelo caminho de tijolos amarelos. Sempre foi muito saudável, e jamais perdeu o desejo de seguir em frente. Era um ser alegre e otimista, muito mais do que eu. E até o cachorro Totó ela teve, tal e como Dorothy.

Gostava de cerveja sem álcool, criticou o infame “churrasco de melancia” no almoço de domingo, e sempre separava um pouco da comida do prato dela para dar para o cachorro da casa. Para ela, cachorro, gato e qualquer outro animal era gente. E sei que esse foi um dos segredos para a sua felicidade.

Passou décadas da sua vida atrás de uma máquina de costura para consertar roupas para crianças de rua, gestantes sem enxoval e idosos carentes. Servia sopas para desconhecidos todas as semanas, assim como auxiliou em almoços beneficentes que alimentavam pessoas com grana e dispostas a ajudar.

Ela era muito melhor do que eu jamais poderia ser. E aproveitou o bom da vida até o fim, algo que jamais vou conseguir.

Minha tia Ercília terminou seus dias em uma casa de repouso para idosos… dançando e cantando, sentada em uma cadeira. Toda animada com a música.

Ontem (19), tia Ercília foi se tornar uma estrelinha no céu. No dia anterior, eu fiquei com a canção “Goodbye Yellow Brick Road” de Elton John na cabeça, e como a minha conexão musical é quase uma intuição, eu senti que estava, de certa forma, me despedindo de alguém.

Foi embora uma pessoa com a qual tive o privilégio de conviver e caminhar na mesma estrada que, por muitas vezes, era iluminada de tal forma, que parecia ser pintada de tijolos amarelos. Porque minha tia Ercília tinha luz própria, e a forma que ela viveu e encarou a vida fez toda a diferença para iluminar sua estrada.

É claro que estou triste pela perda e, nesse momento, estou recolhido no meu processo de luto. Mas sei que minha tia Ercília teve uma vida plena e feliz. Como recompensa, simplesmente dormiu e descansou, para não mais acordar.

Que sua eternidade seja igualmente plena. Que sua alegria possa iluminar nossos caminhos aqui na Terra. E que sua jornada continue.

E que sempre caminhe além da estrada de tijolos amarelos.


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