Compartilhe

“Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso porque já chorei demais”.

Infelizmente, eu não consigo andar devagar. Tenho pressa. Porque às vezes quero correr, para que o vento seque minhas lágrimas.

“Tocando em Frente” é uma letra espetacular. É uma letra que, por si, é uma lição de vida. É uma melodia que transmite paz. Eu já disse aqui que existem várias fórmulas de se viver bem. Essa música é uma dessas fórmulas.

Apenas os verdadeiramente sábios conseguem compreender a serenidade de cada palavra que essa letra transmite. Eu não me incluo nessa lista de sábios. Apesar de entender perfeitamente o que essa letra propõe, eu reconheço que ainda não cheguei nesse nível de desprendimento, de excelência e evolução. Sei que minha jornada de aprendizado é longa. Na verdade, estou feliz por ainda ter tempo para aprender e querer aprender com a vida.

“É preciso amor pra poder pulsar. É preciso paz pra poder sorrir”.

Todos os dias eu busco aprender a me amar. Aprender a me respeitar e me valorizar. Dessa forma, posso distribuir o amor de dentro de mim para quem está ao meu redor. E assim, me sentir em paz.

Para sorrir mais.

“Tocando em Frente” contraria a lógica da minha existência como ser errante. Já disse: eu compreendo as palavras. Compreendo a simplicidade da lição da música. Mas insisto em não aprender e assimilar tão valioso aprendizado. Tento fazer as coisas do meu jeito, amar passionalmente, de forma desesperada, buscando sorrisos alheios para brotar em mim o sorriso em meu rosto.

Não façam como eu fiz e faço algumas vezes. Ame a si. Sorria de dentro pra fora. Faça com que a paz brote dentro de si para viver bem.

“Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente”.

Recentemente, uma grande amiga me disse, olhando nos meus olhos: “Observe mais as pessoas… aprenda mais com as pessoas…”. Ela tem toda a razão!

Observar a marcha da multidão, na procissão em busca de felicidade, de realizar seus sonhos… eu, na minha tentativa errante de encontrar a minha fórmula de paz e felicidade, esqueço de observar as lições que as histórias que os ilustres anônimos contam através dos seus olhares e suas expressões faciais. Pelos homens com as contas a pagar nas mãos na fila do banco. Dos pesares de mães cansadas que passam com suas crianças no colo ou nas mãos. Homens com feições preocupadas. Idosos com olhares saudosos.

A gente aprende com as pessoas. E “toca em frente”. Não gosto muito dessa expressão. Prefiro dizer que estou vivendo. Eu estou vivo.

Canções como “Tocando em Frente” me lembram que eu estou vivo, e que viver é saber ouvir. Aprender com os sons mais simples. Aprender com as pessoas que passam humanidade através de suas palavras e gestos.

“Todo mundo ama um dia, todo mundo chora; um dia a gente chega no outro vai embora”.

Eu amo o tempo todo. Sorrio, dou risada. Gargalhadas. Choro pra caramba. Eu chego de vários lugares com sorrisos. Volto para os meus lugares. Vou embora, muitas vezes sem olhar para trás. Sou protagonista das chegadas e partidas da minha vida.

Às vezes eu simplesmente não suporto me despedir das pessoas. Me atormenta a ideia de que pode ser a última vez que vou ver aquela pessoa, que vou ouvir sua voz. Não é um pensamento recorrente, mas sim ocasional. É aquele aperto que de vez em quando dá no peito. Um nó na garganta.

Talvez isso também se chama amor. Não o amor carnal, mas aquele sentimento fraterno, aberto e limpo. Aquele desejo de abraçar aquele alguém, não soltar por alguns minutos, olhar para os seus olhos e dizer: “se cuida, por favor… eu preciso de você”.

Se eu disser isso para você, pode ter certeza. Eu te amo de alguma forma.

“Cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”.

Eu estou nesse momento contando a minha história através da trilha sonora da minha vida. Algo que jamais imaginei que poderia fazer dessa forma. E me sinto muito feliz por isso.

Paralelo à isso, eu escrevo a minha história. A história dos meus dias, com vitorias e derrotas, com linhas retas e tortas, notas desafinadas, instrumentos sem cordas. Com erros e acertos, dias ensolarados ou chuvosos, noites estreladas ou com frio intenso. Eu passo por tudo o que for preciso para não exatamente deixar a minha marca nesse tempo, mas para chegar no fim da vida e poder dizer que vivi intensamente.

É claro que eu contrario a primeira frase da música. Faço isso por consciência, mas com a certeza que um dia o meu coração vai se acalmar, a minha mente vai desacelerar…. e finalmente vou começar a andar mais devagar.

Hoje, infelizmente, eu tenho pressa. Minha mente não para, porque o tempo não para, e eu mesmo já perdi muito tempo da minha vida. Eu corro para que minhas lágrimas não salguem os meus lábios, me lembrando que tenho fraquezas, o que pode fazer com que eu fracasse no próximo desafio.

Eu corro, porque não quero ser alcançado pelo fracasso e seus filhos viventes na Terra.

Mas…

Eu felizmente tenho alguns poucos amigos que, na simplicidade de viver e de ser, me lembram todos os dias que é possível sim ver esse mundo sereno e simples de “Tocando em Frente”. Essas pessoas, para mim, são sábias. Pois vivenciam essa linda forma de viver como realidade nas suas vidas. Trazem dentro de si a filosofia de vida de olhar o mundo com gratidão, calma, paciência e amor.

Para aqueles que puderem desde já ver o mundo dessa forma, faça isso. Façam isso por mim! Faça logo. Depressa! Serão aplaudidos por mim de pé.

Eu deveria estar triste por ter escrito tudo isso e, mesmo assim, ter concluído que ainda não aprendi metade do que essa excelente letra quis dizer.

Por outro lado…

“Hoje me sinto mais forte mais feliz, quem sabe. Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei… E nada sei…”.

Não saber me permite crescer. Aprender.

E a certeza de que um dia eu saberei é o que me torna um ser humano feliz no presente.

 

 

“Tocando em Frente”
(Almir Sater, Renato Teixeira)
Maria Bethânia, 1990 (mas prefiro a versão do Almir)


Compartilhe