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“Consideramos justa toda forma de amor”. E deveria ser simples assim.

Renato e Fabrício estão juntos há 15 anos. É mais tempo do que o meu casamento. Estão juntos como um casal, como outro qualquer: dividindo a vida, pagando as contas, comparecendo aos eventos sociais, participando dos eventos familiares… enfim, vivendo. Celebrando a vida, como eles merecem.

Na fila do caixa do supermercado, Renato e Fabrício estavam abraçados. Um agarrado no ombro do outro. Estavam apaixonados, felizes, com planos para o futuro.

Só cometeram um erro: se esqueceram que a felicidade pode incomodar o alheio.

Uma senhora chique, não satisfeita em querer passar na frente em um caixa que não era o preferencial (tinha outros dois com essa característica logo ao lado), se incomodou com a cena dos dois rapazes se abraçando. Primeiro, ficou encarando os dois com aquela cara de quem estava com dor de barriga. Depois, decidiu afrontar os rapazes, perguntando se eles não tinham vergonha em se comportarem daquela forma.

Renato, mais ponderado, tentou acalmar Fabrício, e respeitosamente disse para a senhora que, até onde constava, eles eram livres para trocarem um abraço, como qualquer pessoa poderia fazer.

Mas a senhora, ultra conservadora, não quis saber. Achava aquilo uma pouca vergonha e, como muitos preconceituosos que eu conheço, se escondeu atrás de Deus para vomitar seu preconceito, com um “isso é pecado mortal, parem com essa imundice

Fabrício quase partiu para a agressão. Renato de novo o acalmou.

Olhou bem para a senhora, e perguntou sobre seu marido. Respirando fundo e com olhar de orgulho, ela disse que era viúva há dez anos, de um único homem. E esbravejou que seu marido jamais admitiria que ela presenciasse uma cena dessas.

Renato, com um tom sarcástico na voz, “lamentou” a perda dela, e questionou se ela estava sozinha desde então. A senhora respondeu que se guardou para ele até o fim da vida.

Renato, quase instintivamente (mas de caso pensado), mandou um “então é por isso que a senhora se incomodou conosco”.

A idosa se revoltou, quase agredindo o rapaz. Disse que era mulher bem resolvida, de respeito, e que se incomodou porque achava aquele comportamento um absurdo. Renato apenas disse “como a senhora mesmo falou, se estivesse com seu marido, ele jamais deixaria que a senhora presenciasse essa cena. Ou seja, lhe falta um marido na vida para que ele tome conta da sua vida”.

Nossa megera indomada se acalma. Percebe que cometeu sua primeira gafe.

O rapaz, calmamente, questionou a senhora se ela tinha um animal doméstico em casa. Nossa “amiga” respondeu que era sozinha.

Renato, mais uma vez com muita calma, disse “então… falta alguém para a senhora cuidar, ter de quem cuidar para não se preocupar conosco”.

Nossa protagonista balançou de novo.

Fabrício, mais calmo, pergunta sobre os filhos e netos daquela senhora. Ela responde que todos moram em outra cidade. Quando questionada sobre suas amigas, ela responde que todas estão morrendo ou doentes em casa.

A senhora começa a sentir um vazio dentro de si. Fica triste ao perceber que sua existência estava chegando ao fim, e que ela estava completamente sozinha naquela cidade. E se deu conta que, além do preconceito dela, o que a fez brigar com aqueles rapazes foi a infelicidade que ela guardava em seu coração.

O casal percebeu os olhos marejados daquela senhora, e se sensibilizaram. O que era indignação virou compaixão.

Renato olhou para aquela senhora, e disse: “olha… eu gostaria de me redimir sobre nosso comportamento em público… sei que pode parecer pouco, mas compramos algumas coisas para fazer um jantar especial, e gostaria que a senhora fosse minha convidada. O Fabrício também quer a sua presença. E eu adoraria que a gente pudesse conversar melhor sobre tudo isso…

Aquela senhora sorriu. Como há muito tempo não fazia. Ela confessa que há muito tempo não era convidada para jantar, nem mesmo na casa das amigas mais íntimas. Ela se via totalmente surpreendida com o gesto do casal.

Aceitou o convite. Marcaram o horário. Ela anotou o endereço e o telefone deles. Se despediu, e deu um forte abraço nos dois, dizendo “obrigado pelo convite… meus novos amigos….”.

Aquela era a noite onde eles comemoraram os 15 anos de união de Renato e Fabrício. Aquela senhora iria descobrir isso durante o jantar. E os três puderam compartilhar por horas as suas histórias de vida que os conduziram até aquele momento. Os amores e desamores.

Eles realmente queriam entender por que alguém fica apenas com uma pessoa ao longo de uma vida inteira. Eles entenderiam que esta poderia ser uma forma de aprender o que era o amor verdadeiro, algo que eles também estavam buscando para seguir juntos pelo resto da vida.

No final, aquelas três pessoas aprenderam que, juntas, estavam expressando entre elas mais uma forma de amor. O amor de pessoas que, através do amor, aprenderam a derrubar barreiras e preconceitos.

Hoje, aquela senhora tem dois amigos que virara filhos para ela. Hoje, aqueles rapazes ganharam uma mãezona.

Ninguém poderá dizer que aquelas três pessoas não se amam.

Certo?



“Toda Forma de Amor”
(Lulu Santos)
Lulu Santos, 1988


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