
Teorias da conspiração. Como compreender esse fenômeno?
Gente mais estudada do que eu está ao menos tentando. Estudos focados não apenas nas motivações emocionais ou sociais, mas também nos fatores cognitivos mais profundos estão em desenvolvimento neste exato momento sobre o tema.
Tudo para responder a pergunta mais importante de todas: “o que se passa na cabeça dessas pessoas?”.
Ou melhor: “por que os conspiracionistas são tão autoconfiantes?”.
A autoconfiança como pilar conspiracional
As novas pesquisas sobre o assunto dão foco pela superestimação das habilidades cognitivas como pilar central do pensamento conspiratório.
Traduzindo: a pessoa mais perigosa do mundo é o idiota com convicção.
É raro ver um consipirador preocupado em investigar o assunto do qual ele desconfia. E o problema não é nem a descrença nas instituições ou na ciência.
O grande problema é acreditar que sua verdade é universal, mesmo quando você não se deu ao trabalho de estudar ou investigar sobre o assunto.
O fenômeno revela um padrão robusto de distorção da realidade na autoavaliação, e isso pode resultar em problemas que vão muito além do campo da psicologia individual.
Quem é conspiracionista possui, por exemplo, enormes dificuldades em estabelecer dinâmicas sociais, e alta propensão a disseminar a desinformação.
E bem sabemos com isso funciona, não é mesmo?
É só pensar no pesadelo que se transformou nossas vidas de 2018 para cá.
Nem sei como sobrevivemos a tudo isso.
O que os estudos mais recentes descobriram?
Que aqueles que acreditam em teorias da conspiração superestimam seu desempenho em tarefas objetivas, como testes de lógica ou percepção numérica.
Mesmo quando o desempenho real é modesto, essas pessoas mantêm a convicção de que foram superiores aos demais. Tal e como faz qualquer idiota útil no mundo.
Tal padrão foi verificado em oito estudos que analisaram mais de quatro mil adultos, e os resultados se mantiveram consistentes mesmo após ajustes estatísticos para fatores como pensamento analítico, narcisismo e desejo de se destacar.
O fenômeno é particularmente acentuado entre os que defendem teorias mais extremas, sugerindo que quanto mais radical a crença, maior o descompasso entre percepção e realidade cognitiva.
Quanto maior for o seu potencial de acreditar em qualquer bobagem que se alinha com a sua convicção, mais imbecil você tende a ser.
Outro aspecto detectado pelos estudos é a chamada “ilusão de consenso”, que nada mais é do que a crença equivocada de que suas ideias são amplamente compartilhadas pela maioria das pessoas.
O contraste entre percepção e realidade é gritante. Enquanto apenas 12% da população concorda com determinadas ideias conspiratórias, seus defensores estimam que esse número esteja próximo de 93%.
É uma quebra de percepção da realidade que chega a ser algo preocupante, apontando claramente para um problema de saúde mental desses indivíduos.
A sobrevalorização da adesão social aos absurdos ocorre quando os indivíduos têm acesso direto a opiniões divergentes.
Essa falha de percepção contribui para um efeito de “cegueira de minoria”, onde os crentes não apenas ignoram sua posição isolada, como também reforçam sua crença a partir da falsa ideia de apoio majoritário.
É o que se aplica para aqueles que acreditam que pensamentos racistas, homofóbicos, misóginos, xenofóbicos e antissemitas são válidos ou normalizados.
A grande maioria das pessoas sabe muito bem que tais pensamentos não são válidos ou aceitáveis. Ou melhor, eu quero ao menos acreditar que os bons são a maioria.
Bom… depende de qual local do Brasil você está, obviamente.
As implicações psicológicas e sociais
O excesso de confiança prejudica a autocrítica, tornando os indivíduos menos propensos a revisar suas opiniões diante de evidências contrárias.
Aliás, a ausência de autocrítica na vida é um dos principais sintomas da idiotice do indivíduo, revelando inclusive a sua ausência de caráter e código moral e ético em alguns casos.
Conspiracionistas não buscam apenas status ou reconhecimento social. Eles são incapazes de reconhecer que falham.
Boa parte dessas pessoas estão nos grupos etários mais velhos, pois os boomers e baby boomers não foram criados para admitir os erros e pedir desculpas.
Agora, combine isso com a falha cognitiva que os impede de identificar tanto o caráter improvável de suas crenças quanto o fato de que estão muitas vezes sozinhos em sua visão de mundo.
O resultado de tudo isso são indivíduos que estão totalmente isolados, tanto de outras pessoas que pensam diferente quanto da realidade ao seu redor.
Tal isolamento pode ser agravado por mecanismos de reforço grupal, onde a percepção distorcida do consenso entre pares consolida ainda mais as crenças errôneas.
E esses grupos de pessoas acabam se retroalimentando na crença, deixando a percepção da realidade algo ainda mais distante.
Os estudos também revelam como normas sociais e a dinâmica dos grupos reforçam o pensamento conspiratório.
Os indivíduos tendem a assumir que as crenças compartilhadas dentro de seus círculos sociais mais próximos refletem uma verdade mais ampla.
Com isso, o conspiracionista superestima a aceitação das teorias consideradas absurdas, até mesmo entre os membros do seu próprio grupo, o que resulta em – acredite, se quiser – bolhas de confirmação.
Com grupos ainda menores dentro de pequenos grupos, a verdade fica ainda mais acessível para essas pessoas, já que a dúvida é desencorajada, perdendo espaço para a confiança desmedida.
Não é que o contraditório perca o seu espaço dentro do pensamento crítico (que já é minúsculo). A racionalização é simplesmente esmagada pela ignorância e autoconfiança exacerbada.
Como resolver o problema (se é que dá pra resolver)?
Estudos anteriores destacaram outros fatores para determinar o espectro conspiracional na mente humana, como a desconfiança institucional, o desejo de controle e até traços narcisistas. E tudo isso ainda é válido para explicar tal comportamento.
Acontece que as evidências mais recentes apontam para a autoconfiança exacerbada como elemento central do conspiracionismo moderno.
A ignorância quanto à própria limitação cognitiva se revela mais influente do que aspectos emocionais ou sociais, indicando que estratégias de intervenção devem ir além da simples checagem de fatos.
Para essas pessoas, mostrar a verdade com informações verificadas simplesmente não é o suficiente.
Abordagens que incentivem a autocrítica, a dúvida saudável e o reconhecimento da complexidade dos problemas podem ser mais eficazes na prevenção da adesão a ideias infundadas.
E… acredite… esse é um processo que chega a ser doloroso para quem entende a realidade como ela é, e não um recorte ou distorção de quem não quer enxergar os fatos.
É algo desgastante, doloroso e extremamente irritante. Se você realmente vai entrar nessa de tentar convencer seu tio de que ser racista é algo errado, se prepare, pois será uma batalha hercúlia.
Os pesquisadores sugerem que iniciativas educacionais e comunicacionais devem destacar o valor da humildade intelectual e da revisão constante de crenças.
Corrigir a percepção equivocada sobre o grau de apoio social a determinadas ideias é um caminho promissor para mitigar o avanço das teorias conspiratórias.
Uma das possíveis soluções é encarar a realidade como ela é. Enfrentar diretamente o problema da autoconfiança distorcida daquela pessoa.
Dizer a real pra ela: “seu pensamento é errado, pois não se alinha com a realidade”.
Quebrar o mito da autoconfiança e reduzir as expectativas da supervalorização da baixa racionalidade são ferramentas que, com alguma sorte, podem criar um ambiente mais propício ao pensamento crítico e à resistência à desinformação.
Não é uma tarefa fácil. Mas precisamos seguir tentando.
Tudo isso vai além da aceitação de narrativas especificamente absurdas. O problema mostra um traço cognitivo persistente, que dificulta a correção de ideias equivocadas.
É difícil intervir neste ponto sego cognitivo, pois o ignorante tende a ficar neste lugar porque, afinal de contas, é um local cômodo do pensamento.
Não se esqueça que o cérebro é um músculo preguiçoso. Ele se desenvolveu para sempre buscar a solução mais rápida, e não para raciocinar sobre temas conflitantes.
E é por isso que pensar cansa. Pelo menos 20% de nossa energia diária é consumida pelo pensamento.
Uma das poucas chances para reverter o quadro é atacar o ponto cego cognitivo. Segundo a ciência, essa é uma das estratégias mais promissoras para reduzir a influência e o impacto das teorias conspiratórias na nossa sociedade.
Via ArsTechnica, Sciety, Sagepub
